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Cássio Andrade Fonseca
Três Corações / MG



Unidos para sempre


Marina colocou as malas no carro, certificou-se de que a cadeirinha de Juninho estava bem presa no banco de trás, e foi buscar o filho que demorava a descer do apartamento com a babá.
No elevador ainda pensava naquela primeira viagem que ela e o filho fariam à sua cidade natal após a morte de Rubens. Morando no interior, ainda jovens se conheceram e se tornaram amigos. Depois de alguns anos, já formados e trabalhando na capital, acabaram se encontrando novamente e descobrindo que aquela amizade adolescente havia se transformado em algo especial. Para felicidade dos pais de ambos, realizaram o casamento na pequena cidade, mas depois das bodas, por falta de tempo, retornavam lá apenas uma ou duas vezes por ano. Após o nascimento de Juninho, único neto e príncipe das famílias, os avós é que passaram a visitá-los na capital com mais freqüência.
A porta do elevador se abriu e a babá já estava no corredor, de mãos dadas com o menino.
- Mas que demora, aconteceu alguma coisa?
- Alguém tinha esquecido o seu boneco e tivemos que voltar para apanhá-lo, né Juninho?
- É que ele não gosta de ficar sozinho mamãe. - Disse o filho, apontando para o boneco, na autoridade dos seus quatro anos de idade.
A viagem transcorria sem problemas. Após deixarem a babá na estação do metrô, saíram da capital e já seguiam pela rodovia. Embora o trânsito estivesse intenso, Marina calculou que levariam as mesmas quatro horas habituais até o seu destino. Rubens, certa vez, conseguiu cobrir aquele percurso em menos de três horas. Se não fosse tanta pressa, o acidente ocorrido há seis meses, talvez ainda estivesse com a mulher e o filho. Agora só a saudade do marido e a dedicação ao filho. E que benção aquele filho.
- Juninho, você esta com fome?
- Estou mamãe. Eu e o boneco "estamosss"!
- E quer ir ao banheiro?
- Eu e o boneco "queremosss"!
Após uma rápida parada, cumpridas as necessidades exigidas, Marina retomou o volante para retornar à rodovia.
- Pára mamãe.
- O que foi filho?
- O boneco mamãe.
- O boneco está aí com você filho.
- O boneco falou pra esperar só um pouquinho mamãe.
Marina olhou para o filho sem muito entender, mas as palavras lhe eram dirigidas com tanta convicção, como nunca havia ouvido, que ela aguardou alguns minutos.
- O boneco disse que pode ir mamãe.
Rindo do filho, ainda sem muito entender, cumpriu a ordem do boneco e pisou no acelerador. Poucos quilômetros à frente, um grande congestionamento se formava. Os carros ficaram parados na pista por quase uma hora e retornaram a rodar em baixíssima velocidade. Quando Marina concluiu a curva é que entendeu o que havia se passado. Um viaduto em construção havia desabado sobre alguns carros e um pequeno desvio dava vazão ao tráfego. Mal conseguia olhar para aquela cena. Ambulâncias retiravam os feridos, com certeza algumas vidas perdidas... E se estivessem chegado naquele ponto um pouco antes, poderiam ter sido ela e o filho...
- Não olha filho, não olha.
- Eu sei o que aconteceu mamãe, o boneco me contou.
- Filho, como é que o seu boneco sabia que isso ia acontecer?
- Não foi o meu boneco mamãe, foi o boneco parecido com o retrato do papai, que estava do seu lado.


 
Antologia de Contos Fantásticos - Fevereiro / 2010