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Teresa Cristina Cerqueira de Sousa
Piracuruca / PI



O amor depois dos quarenta


Eu não sou mais do que uma mulher simples do sertão. E até bem pouco tempo eu tinha uma vida sem esperanças do amor. Mas Shakespeare fora um gênio! Ser ou não ser? Ser amada ou não o sê-lo? Perguntas?... Não.

Antes, vou desenrolar o fio da meada de meu amor...

O quarto estava em penumbra. A janela aberta deixava entrar um luar (fazendo-me ouvir um violão ao longe) direto em meu peito romântico. Uma mesinha de PC, uma cadeira de madeira de ipê e meus olhos numa leitura de um poema. Havia um silêncio em meus lábios. Eu meditava no sabor de uns versos de amor. O autor não vem ao caso, Ainda não.

Noites altas fiquei a ler textos dele. Eu trabalhava e trabalho no horário noturno; então não bem terminava o horário das aulas, eu vinha para casa. Os pensamentos eram em ler os poemas daquele homem que me encantava. Um dia, resolvi tomar uma atitude. Raspei do fundo do tacho dos sentidos, dentro de minha parca compreensão de literatura, e enviei-lhe um comentário de suas poesias via e-mail.

Lembro-me claramente de ter esperado ansiosa pela resposta. E veio; juntamente com um pedido de adicioná-lo a meus contatos no Messenger. Fico aqui a cogitar do que estou escrevendo. Há quem leia e só veja o vento sussurrando que se trata de uma mulher solitária, fácil de ser enganada. Talvez o seja. Somos seres favoráveis ao vento, sem destino certo às vezes.

Mas volto o meu rosto para a direção do sol sempre que posso; se fico exposta às sombras, não me culpo tanto. E nessa idéia de luz, entrei online no horário sugerido por ele. Minutos após, ele veio. Houve um instante de incertezas minhas. Alarme da razão, creio. Ele colocou uma foto. Devia ter uns quarenta e poucos anos; cabelos grisalhos. As feições sorridentes, em tons de menino traquina desses que nos encantam ao primeiro olhar. Olhos grandes, inquietos, entre pálpebras grossas e negras. Usava uma camisa de malha branca.

Apenas se mostrou interessado em meus sentimentos. E enviando-me uma flor dos emoticons:

_Linda, você!

Ri. Algo cantou em meu peito. Ele ergueu a voz de seu coração, dizendo-me que pensava muito em mim. E com meiguice eu questionei como. Ele não me conhecia.

_ Conheço tuas palavras. Se eu pudesse te ver...

Recordo-me de ter sentido um frio no estômago. Foi necessário acender a luz da razão para não confessar ali que o queria já. Felizmente alguns voos não são tão altos e, eu abracei o meu com ambas as mãos. Pusemo-nos a falar de uma provável viagem minha a sua cidade. Um passeio rápido; eu não tinha como me demorar. Era pelo mês de junho e as férias do primeiro semestre do ano letivo só para o período de julho. Sugeri ir nessa data; aí sim ficaria mais dias. Ele argumentou que estava por demais ansioso em me conhecer pessoalmente. Bem... Tudo a seu tempo...

Era noite de julho, e não havia o luar nem a calma de meu sertão. Carros passavam loucamente, fazendo-me girar os olhos em várias direções sem nunca poder saber dos passos dele se viessem pela calçada. Os sons dos bares de cada rua por onde meus olhos se alargavam faziam-me sentir um peixe fora d’água. Como seria ele ao beijar? Perguntava-me interiormente. O receio de não agradá-lo com minha simplicidade jogava imagens difusas em minha mente. Na verdade eu também via casais a namorar em mesinhas postas às calçadas em frente a residências de famílias entre conversas soltas pelo ar. Resolvi me apreciar. Eu usava um vestido de algodão, fresquinho, bem próprio para o tempo quente. Sandálias rasteiras e pulseiras nos braços acetinados naturalmente. Eu era uma mulher de beleza singela na noite urbana.

Desceu de um táxi. Um homem depois dos quarenta tem seu charme, tem seu jeito de olngir o coração de uma mulher. A flor que ele me trouxe era mero detalhe de seu amor. Eu não me enganara: o sorriso de menino imperava nos cantos da boca. E era para mim. Havia também uma traquinagem; porém me reservo o direito de apenas comentar que eu amei. Ainda agora, que escrevo, tenho emoções vivas dos momentos que passamos juntos. E as férias estão novamente chegando... João!

 
Antologia de Contos Fantásticos - Fevereiro / 2010