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Bruno
Resende Ramos
Teixeiras
/ MG
Inomináveis
criaturas
Phillipe
Carter no inverno de 2010 visitara o Farol de Grierdal na Ilha Stornoway
na Escócia. Isso se deve a existência de um baú
mantido por seu avô e suas inscrições. Para Carter,
que desde criança se via metido nas aventuras ficcionais e
contos do avô, isso não passaria de mais uma das peças
ilustrativas das suas histórias, por isso queria uma experiência
real de contato com suas lembranças, era uma busca de inspiração,
porém como pesquisador reconhecido pela comunidade científica
não poderia ignorar que tudo deixava de ser uma mera coincidência
para tornar-se uma grande evidência histórica: existiu
num certo tempo, na América Latina, o que chamavam de "Parque
dos monstros".
A arca deixada pelo seu avô possuía um belo talhe em
madeira e ferro e guardava uma pequena inscrição na
tampa. No interior, máscaras de ferro e cerâmica insinuavam
ao seu entender inicial que se tratava de elementos ritualísticos.
O apegado avô recusava sempre destiná-los a pesquisa
ou a museus. Ele os achara incrustados em meio às pedras onde
está edificado o modesto farol. Era marinheiro e bom prosador,
uma raposa dos mares. Reuniu arca e máscaras e os depositou
em seu sótão.
Hoje de volta às Américas percebia se tratar de um achado
arqueológico de incalculável valor histórico.
Certo dia, depois de ser tomado por grande tédio, vendo suas
pesquisas não darem em nada, Phillipe Carter resolveu distrair-se
com suas lembranças. Ao passar uma folha sobre as dobras do
relevo na arca, teve a idéia de com uma grafite transferir
o desenho para o papel e enviou por e-mail a uma amiga estrangeira
o resultado da impressão. Ela parecia uma bela espécime
latina. Constatou-se para sua surpresa que aquelas impressões
eram de um dialeto INCA. Sua amiga cujo nome era Ana Montserrat tomou
dos signos lingüísticos para maiores estudos, o que era
uma brincadeira ficava cada vez mais intrigante.
Ana contou-lhe a lendária história do Parque dos Monstros
e mostrou que a arca era mais do que um objeto de encenação
Inca, ou ritualismo religioso. As máscaras e a arca datadas
da mesma época que foram produzidas inscrições
em uma lápide da realeza revelavam grande verossimilhança
com a história narrada pelos Incas em seus portais e palácios.
A senhorita Montserrat enviou traduzidas as expressões e lendas
deste período ao jovem Phillipe e esses trouxeram à
luz acontecimentos que podem ajudar-nos a construir a história
do planeta.
As mudanças climáticas afetavam as civilizações
daquela época. Numa avaliação feita à
base de Carbono 14, os especialistas consideravam a sua confecção
coincidentemente simultânea às alterações
do clima na Mesopotâmia e no Egito. Atingidos por uma praga
descomunal e doenças típicas do clima a que se viam
submetidos, boa parte da população teve a face deformada.
O culto à beleza e a imposição da realeza a este
atributo para agradar aos deuses fazia-os crer amaldiçoados.
Como no Egito, também entre os Incas verificavam-se as mazelas
do seu povo. Do mesmo modo havia partidários e opositores ao
regime. Em seus relatos a perda da produção agrícola
por infestação de insetos, escassez e inutilidade da
água, bem como erupções e úlceras no corpo
das gentes. As máscaras serviriam para ocultar dos deuses a
face corrompida pelas moléstias do tempo.
Na Itália a explosão do Vulcão Santorini, ali
o Deus Sol castigava-os promovendo desgraça incomum à
população. Ofereceram sacrifícios humanos. Por
incrível que parecesse, ofereciam justamente os saudáveis,
as virgens, aqueles que não se haviam contaminado com as doenças
venérias, o pecado. Restaram nesta aldeia apenas os chamados
Inomináveis. Para a cultura do povo remanescente "os montros".
Sobreviveram enquanto conseguiram carne fresca, imaculada e o seu
rei manteve sua realeza. Os fugitivos e dissidentes de tal ordem convenceram
outros do povo a segui-los e fugiram do abate criminoso feito pelos
inomináveis monstros Incas. Muitos ainda eram alcançados
pelos subalternos do rei. A doença lhes caíra como benção,
alcançando o favor de estarem vivos enquanto tinham ainda alguma
esperança de sobrevivência e cura, contudo, os deuses
não lhes respondiam. Certos da recusa de tantos sacrifícios
acabaram por matar uns aos outros.
Para Ana representante da Sociedade para a Ciência e Cultura
Inca da América Latina (SCIAL), era uma revelação
inconsciente do que acreditava. Não haveria como ocultar toda
a história de seu povo.
- Esse rapaz tem algo para nos dizer. - Informou ao conselho.
- Acalme-se, Ana. O que saberia esse mísero defensor dos gibis
de ficção científica que não fuja aos
nossos domínios? - Indagou o presidente Sr. José R.
Prado
-Esse rapaz a quem você tanto subestima detém conhecimentos
fartos sobre a fenomenologia climática de todas as eras, é
um expert. Só não fez ainda a constatação
de que tudo se ensaia para uma nova ordem internacional de domínio
Inca, porque não teve tempo. Seu avô contou-lhe boa parte
de nossa história.
- Ele sabe que existimos?
- Acha-nos extintos.
- Temos de criar um novo parque, você sabe disso...
- Mais vítimas?
- Quantas forem necessárias... Começaremos pela família
desse novo herege.
- Que o deus Sol nos proteja!
- Assim seja!
- Como faço para atraí-lo ao Fosso dos Inomináveis?
- Você sabe como... Estaremos todos a sua espera... De máscara,
é claro!... Outra coisa: não o deixe tocar seu rosto.
O mundo ainda não sabe o que a tecnologia é capaz de
fazer por nós... Você pode, por um toque, querida Lady,
ser desmascarada e por tudo a perder...
- E o que faço se não resistir?
- Você sabe... Todo inominável sabe... O que eles fazem
com o que desconhecem?
- Sim, eu sei. Ele é um cientista... Eu sei o que ele faz...
- Então faça o mesmo com ele... Será para nós
uma grande fonte de estudo e para o Sol uma fonte de grande deleite...
Ahahahahahaaha.
A partir da descoberta da arca, Phillipe encontrara a maior razão
de seu viver, talvez também encontrará a razão
de sua morte. O seu avô escreveu para o "Contos das Almas"
a história que lhe contava todas as noites, lembrando que a
moral da história será sempre a de que a verdade se
impõe a arte humana de enganar. "Nem tudo que reluz é
ouro, meu filho. Os monstros estão dentro do homem querendo
sair... Quando cede à vaidade, ao orgulho, a prepotência,
à promiscuidade, ele encontra sempre uma forma de parecer bom...
Usa máscaras para esconder o seu interior, mas sabe-se que
tudo isso é vão para o verdadeiro Sol, Aquele que tudo
vê. Você, eu vejo agora sem nenhuma máscara, transparente
feito um cristal genuíno... Sim, posso ver dentro de você
o mais belo coração".
Quanto á continuação dessa história, amigo
leitor, esperemos que não faça do Phillipe mais uma
vítima dessas INOMINÁVEIS CRIATURAS no Parque dos Monstros,
não é mesmo?
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