Regulamentos Como publicar Lançamentos Quem somos Edições anteriores Como adquirir Entrevistas

 
Antologia on line
 
     
Volta Página Principal
 


Marina Moreno Leite Gentile

Salvador / BA



Esquecida ao extremo


O filho de Larene estava às vésperas de viajar. Ela não sabia quando o veria novamente. Possivelmente retornaria ao Brasil somente depois de cinco anos.

Larene estava ansiosa, as poucas horas precedidas da partida dele eram angustiantes, ainda faltavam alguns detalhes, coisas a incluir na bagagem do filho.

O filho sempre foi um apreciador de sua lasanha, pediu para a mãe preparar no horário do almoço. Ela deveria comprar a matéria-prima.

Ela entrou no mercado sem bolsa, com a chave e o dinheiro em uma das mãos, o celular foi acomodado embaixo do sovaco. Era necessário uma das mãos permanecer livre, para escolher.
Larene dirigiu-se até a seção de carnes, pensou em substituir a lasanha por carne do sol, analisou uns três pacotes, mas nada adquiriu.

Passou para a seção de verduras, analisou um item, depois outro, também nada escolheu. Dirigiu-se para a seção de frios, analisou alguns pacotinhos, de queijo e de presunto, mas tudo estava além do preço ideal, o dinheiro não seria suficiente.

Seguiu para a seção de congelados, olhou, analisou, calculou e finalmente decidiu adquirir duas lasanhas prontas, a promoção compensava. Não havia tempo a perder, Larene escolheu um caixa para pagar os produtos. Neste momento, sentindo concluído o compromisso, olhou para suas mãos, percebeu a falta do celular. Nas mãos estavam as chaves, o dinheiro e as lasanhas. Desesperou-se rapidamente. Assustada, falou sozinha na fila:

- Ai, meu Deus, perdi meu celular! E agora, e agora?!

Ficou louca, pois havia comprado o celular no dia anterior, com serviço de conta. E agora, como faria para trabalhar? Ela dependia do celular para suas atividades profissionais. Pensou mil coisas, entre elas, o que a vendedora do celular pensaria? Seu marido italiano e encrenqueiro a criticaria por uma semana !!!! E o dinheiro do celular? Como faria para pagar outro? Quem seria honesto naquele lugar a ponto de devolver o seu celular? E agora, e agora?

Muitas outras coisas ela pensou, então iniciou a sua peregrinação por todos os cantos que passou pelo mercado, freneticamente correndo.

Ela correu para a banca das verduras, remexeu tudo, foi nos frios, na seção de carnes, na seção de congelados, virou de um lado, foi para outro. Coitadinha da Larene, estava muito desesperada, começou a chorar.

Ela começou a falar sozinha:

- Era só isto que me faltava, somente isso mesmo ! Que coisa! Que merd.... ! Bem hoje isto me acontece !

Passados alguns minutos de desespero total, Larene desistiu de procurar. Seguiu para a saída, visualizou um lugar para deixar as mercadorias. Não queria levar mais nada, o filho que viajasse sem as lasanhas. Ela estava muito triste, desolada. Certamente a perda do celular antecipou o choro contido, coitada daquela mãe. Ela não conseguia parar de chorar, as pessoas que a viram certamente ficaram curiosas com tal comportamento.

No momento que ia largar os pacotes, em um movimento com os braços, ligeiramente entreabertos, levemente alongados, sentiu algo ao ponto de cair. Adivinhem! Ela lembrou do celular no sovaco! Quase que ele cai no chão. Larene disparou a rir e a falar sozinha:

- Meu celular! Que alegria! Ainda bem, meu Deus !

O celular esteve muito bem guardado, apertado, foi encontrado bem quentinho.

Certamente aquela mãe distraiu-se ao extremo motivada pela despedida do filho. O episódio do celular descontraiu a família, todos riram muito até o momento da despedida, idem a esquecida.

Mas nem as brincadeiras fizeram aquela mãe deixar de chorar no último abraço, lá no aeroporto, afinal, mãe é assim mesmo.

 
Antologia de Contos Fantásticos - Fevereiro / 2010