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Ricardo
Gnecco Falco
Rio
de Janeiro / RJ
Oito
de copas
Ernesto
suava sem parar diante da churrasqueira...
Estava com a turma da faculdade em uma espécie de confraternização
de fim de período. O sítio do colega anfitrião
ficava ao lado de uma enorme pedreira e, além do calor absorvido
pela gigantesca montanha de pedra durante todo aquele dia, somado
ao bafo oriundo das brasas sobre as quais eram assadas as carnes,
havia ainda o abrasivo efeito da meia dúzia de caipirinhas
que já tinha tomado.
Tudo isso, no final daquela típica tarde de verão, fazia
Ernesto sentir-se realmente desconfortável. Mas, mesmo consciente
de todas estas variantes, o rapaz sabia a verdadeira origem das infindáveis
gotas que brotavam por toda a extensão de seu corpo; uma infinita
nascente viva...
Ernesto tinha um pronunciamento a fazer.
Iria abandonar o curso de engenharia que já estava em reta
final para, surpreendentemente, mudar de forma radical sua futura
carreira. Ernesto queria graduar-se na área de humanas. Na
verdade, já havia até feito a prova para ingressar na
nova faculdade. Sentia uma incontrolável vontade de entender
o comportamento das pessoas.
Psicologia...
E abriu para todos ali que a decisão tomada devia-se ao ocorrido
naquele mesmo sítio; na mesma mesa de madeira que agora servia
de base para os incrédulos olhares de seus amigos, que lhe
fitavam num silêncio típico de quando se conhece a imutabilidade
de um fato concreto.
Concretamente absortos.
Também fora ali, naquela mesa, após algumas latinhas
sorvidas numa noite quente do verão passado, que Ernesto experimentara
pela primeira vez a estranha sensação que tentava agora,
um ano após, definir em palavras para seus amigos...
Onisciência.
Foi a única palavra encontrada. Assim como apenas um fora o
número visualizado em sua mente; na forma de uma curiosa sombra
a projetar-se sobre a fina parede de plástico que tinha à
frente. Jogavam baralho naquela mesma mesa incrédula de agora,
na qual outrora Ernesto, inacreditavelmente, concebera a imagem do
número pintado do outro lado da carta.
Era um oito; escuro.
De paus ou espadas... Um oito negro. A carta estava apoiada de lado
sobre a mesa, segura pelas mãos de uma colega de turma; hoje
ausente. Mais do que ver, Ernesto, inexplicavelmente, "pré"
sentira o que existia do outro lado daquela matéria...
Um oito de espadas.
Pensara tratar-se de algum estranho efeito etílico. Mas já
no dia seguinte, durante o café da manhã, a ressaca
apresentar-se-ia ainda mais poderosa, fazendo Ernesto passar toda
a primeira metade daquele revelador domingo sentado sozinho diante
da piscina, numa cadeira na varanda, brincando de embaralhar aquelas
bizarras cartas esquecidas no canto da cozinha.
Todas transparentes...
E das cartas passara então a intuir os números discados
nos telefones celulares dos amigos, mesmo quando virados de costas
para ele. Visualizava os algarismos no mesmo ritmo de pensamento dos
autores das discagens.
Já lhe surgiam de forma quase natural.
Sua brincadeira predileta tornara-se a adivinhação.
Mandava os amigos, familiares, a futura noiva... Cada um sentar-se
diante dele e, concentrando-se, pedia para pensarem em um número.
Qualquer número...
Ernesto adivinhava.
No início, ainda restavam algumas dúvidas. Mas, seus
amigos mais próximos, e principalmente sua noiva, acabaram
aceitando aquele instigante fato. Ele acertava mesmo... Vez ou outra
tentavam encontrar alguma falha, algum "defeito". Sem prévio
aviso, mostravam-lhe nas ruas carros desconhecidos, de ângulos
pré-determinados; qualquer carro...
Ele falava os números da placa.
O jogo na televisão começava e era só o placar
aparecer zerado pela primeira vez no canto da tela; qualquer jogo...
Ele predizia o saldo de gols da partida.
Rápida e faceira, Raquel - a noiva - apareceu certa ocasião
com um canhoto de loteria vazio. Deixou-o, como quem não quisesse
nada, em cima da mesinha de cabeceira do quarto de Ernesto, após
uma intensa, voluptuosa e atípica noite de sexo.
Raquel estava com um sorriso misterioso...
Mas foi somente naquele momento, contando para os amigos sobre o histórico
que o levara à decisão há pouco anunciada, que
Ernesto atentou-se para o significado do primeiro número adivinhado
naquela mesma mesa, um ano atrás. O primeiro presságio...
Um explícito agouro.
Um oito, invertido e negro. Tenebrosa alegoria. Genuíno símbolo
de infinito. Infinitamente sombrio. Uma enfadonha profecia sobre seu
futuro e inglório relacionamento com Raquel, colega de turma
que empunhava aquela carta e por quem era apaixonado, desde o primeiro
período. O representativo fiel de seu trágico noivado...
Oito de espadas.
Raquel por fim confirmaria aquele prognóstico, revelando sua
verdadeira face. E frieza. Com oito dígitos na conta, fugiu
não se sabe até hoje para onde com um ex-namorado, do
tempo do colégio. Deixou para trás apenas uma negra
espada fincada no coração atormentado de Ernesto, que
nunca mais se utilizou do dom recebido.
Sina.
Ernesto agora buscava conhecer a essência humana. A beleza da
alma. A mansidão. O atrativo e seguro caminho das virtudes.
O ser antes do ter. A imensidade e onipotência do Amor. Ilimitável;
eterno. Sim... Ainda procurava o infinito.
O que Ernesto queria mesmo era encontrar um oito de Copas.
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