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Mamede Gilford de Meneses
Itapipoca / CE



Mensageiro da assombração



- Venho da parte de meu pai trazer-lhe informação sobre o mercado de compras dos produtos cera de carnaúba e algodão mocó.

Naquele instante o major Isnar tirou da boca o cachimbo e dirigiu-me a palavra:
- Quem é mesmo você, garoto, de onde e o que quer dar-me de presente?
- Meu nome é Francisco, mas me chamam Tico. Meu pai lhe mandou dizer que a cera de carnaúba feita de pó branco e o algodão mocó de primeira, estão em cotações elevadas quanto à torre da catedral de Itapipoca, sugere que o senhor os negocie hoje mesmo, - respondi.

Isnar tirou o chapéu da cabeça, guardou o cachimbo, puxou o tamborete e mandou-me assentar-se para quebrar o jejum e em seguida chamou a criada:
- Bilia corra aqui na sala para ver um tagarela branco!
Ela acelerou o passo para tempestivamente atendê-lo e o indagou:
- O que meu amo quer de mim?
Ele a respondeu:
-Já que você viu o visitante... agora vá a cozinha, passe café donzelo, corte queijo fresco em pedaços e traga-os para enganarmos nossas barrigas, antes que as tripas grossas engulam as finas.

Enquanto isso eu girava os olhos no teto do velho casarão e visualizava teias... esbranquiçadas que nem espuma de leite mugido. Nisso o velho perguntou-me:
- O que você tanto olha meu neto?
Respondi-o:
- Muito bem perguntado vovô! Estou realmente admirado com o véu que o senhor estendeu sob essa beleza, ou isso abrange a casa inteira?
Isnar desviou a atenção de seu falatório e bravejou:
-Bilia, tu ainda está torrando o café ou se queimou com água fervida, ao tentar coá-lo?
Novamente abordei-o:
- O senhor ainda não me respondeu sobre o tal véu, vou morrer de curiosidade sem essa informação!

De repente a moça riscou a sala com o solicitado e enchemos as barrigas, e o velho meio aborrecido disse:
- menino danado, aquilo branco que mexeu com teu juízo são teias de aranhas, não são criatividades de ninguém. Nelas moram as armas contra mosquito e percevejo.
Novamente me intercedi:
- Que arma é essa major?
- Veja só, parece até que estou sendo interrogado por delegado de praça!
- Filho de uma Ema, essa arma protetora é o batalhão de aranhas que, além de comer os citados insetos trabalham noite e dia tecendo a obra que tu enxergaste.
Sem delongas respondi-o:
- Desculpe-me seu Isnar. A ignorância pesou muito na minha cabeça, mas a sabedoria que ganhei do senhor levarei a meu professor de ciência e convida-lo-ei vir aqui, e com sua permissão prosearmos.
-Permitido garoto. Quanto à resposta ao recado de seu pai, cientifique-o de que amanhã cedo, estarei lá para fecharmos a venda dos referidos produtos, disse o velho.

Agradecido por tudo, despedi-me e regressei ao seio de minha família, convicto de haver cumprido aquela missão. E após uma semana do referido episódio, eu e o professor Neto, voltamos à casa do major, e em lá chegando, anunciamos a saudação de praxe: - que Deus esteja nesta morada! Então uma anciã abriu uma das portas... e nos contra saudou:
-"Se aqui chegaram, e são filhos de Deus, entrem, assentem-se nestes velhos bancos e digam a que vieram".
Na íntegra a respondemos:
- Nós pretendemos falar com o senhor Isnar, a senhora pode chamá-lo a vir até aqui?
Carinhosamente ela nos respondeu:
- Meus adorados filhos, nessa casa só reside eu. O homem que vocês procuram Deus o levou ao céu a mais ou menos cinquenta invernos. É impossível encontrá-lo aqui...; talvez dele não mais exista se quer os ossos.

Tal resposta deixou-nos de cabelo arrepiado. Eu amarelei como flor de algodoeiro e Neto caiu sobre o solo igual à manga madura quando sai do cacho. E quando nos recuperamos... procuramos a velha e lá nem a sombra dela estava; pois sumiu que nem álcool tragado pelo fogo, e como já era tarde da noite, e o tempo estava enevoado, apressamo-nos ao caminho de nossas moradas, levando em nossas memórias a impressão de incidentalmente termos contatados alma penada.



 
Antologia de Contos Fantásticos - Fevereiro / 2010