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Antologia
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Faces de uma noite
Saindo de casa, cumprimenta a vizinha e, ao descer o beco, depara-se com dois caminhos, resolve optar pelo trajeto mais rápido, que aparentava ser o mais escuro, o sol parecia não ter efeito - era iluminado por uma única luz trêmula que saía do poste. Escolhida a direção, segue feliz com seu MP3 no bolso, fones no ouvido, as músicas que tocavam eram às mesmas que ele escutara em casa. O caminho
era apertado, um beco, cheio de batentes e postes, que mais serviam
para segurar os gatos do local, um emaranhado de fios terrível.
Na primeira casa que Leonardo passa vê-se o desenho de uma face
bonita na lateral da parede, talvez desenhada por um desses jovens
pichadores. Do seu lado direito depara-se com uma outra face, dessa
vez de um jovem, cuja a imagem transmite alguém com um sorriso
elísio. Mais uma face adiante, a de uma mulher aparentemente
loira, nariz formoso, mais à frente outra face, e outra face,
passavam como em um filme em câmera lenta, sempre do lado esquerdo
para o direito de Leonardo. Aquilo começou a ficar estranho,
as faces bonitas dão lugar a rostos desfigurados, com olhos
sangrando, boca costurada, sem nariz. O rapaz começou achar
aquilo tudo enigmático. A cada momento as faces pareciam mais
reais. Leonardo para diante de uma em que a boca sangrava, quis analisá-la,
o rosto parecia querer se aproximar, saltar para cima do jovem, mas,
como já O rapaz agora tem certeza da anormalidade daquela situação, o coração impetuosamente querendo sair pela boca, as faces pareciam estar em seu encalço, totalmente deturpadas. Ele treme, transpira frio como o gelo mais sólido do Ártico, força passos largos que não adiantam muito, o tempo não passava, dando a impressão de que o lugar está ainda mais longe de seu fim. Tira os fones do ouvido, coloca-os no bolso, nesse momento as batidas suaves do pop dão lugar a gemidos assustadores, um relinchar de portas abrindo e fechando e o latidos de cachorros ao longe. Uma mão toca no ombro de Leonardo, o coração já pulsando em ritmo acelerado, agora parece mais o bumbo solitário no tom mais alto que consegue atingir, que até dava para ouvir no meio daqueles sussurros, gemidos e latidos. Olha para trás lentamente, o pavor toma de conta de suas pernas já trêmulas, não para de percorrer aquele beco escuro, virando por completo e caminhando de costas não vê ninguém. Quase que automaticamente começa a correr, olhando para trás segundo a segundo. - Ave Maria cheia de graça... Continua sua oração, correndo desesperado, as faces pareciam saltar da parede ao ponto de diversas vezes ele pular para o lado gritando apavorado, buscando delas se esquivar. - Meu Deus, o tempo não passa, me tira daqui, Senhor! - Grita. Ao longe enxerga luz, o cenário de terror fracamente começa a se dissipar enquanto Leonardo permanece correndo, as faces somem quando ele ultrapassa a fresta do beco que dá para a rua, mais parecendo romper com uma outra dimensão. Encontra-se agora no Valão, famosa rua da Favela da Rocinha. Com o coração ainda acelerado, percebe, do outro lado da rua, pessoas o olhando. Pálido e assustado recompõe-se e torna a caminhar com a cabeça inundada de pensamentos. Sequer olha para trás. Tira lentamente o fone do bolso e coloca novamente no ouvido. Uma mão toca-lhe no ombro, a mesma mão que tocou-lhe naquele momento. - Socorro!
- Gritou Leonardo. Caindo na gargalhada, Leonardo percebe que tudo não passou apenas de uma fantasia criada por ele mesmo. |
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Antologia de Contos Fantásticos - Fevereiro / 2010 |