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Teresa Cristina Cerqueira de Sousa
Piracuruca / PI
O
ratinho adotado
A tarde
prometia ser longa, ou talvez o som dos passos de Papai Rato no corredor
do hospital parecesse não acabar mais. Ele estava apreensivo.
Mas qualquer coisa era perdoável para um rato que ia ser pai.
Com muita calma, Mamãe Rata observou a enfermeira chegar com
um ratinho. De início, os olhos pequenos. Depois o corpo tão
frágil com ar de abandono, pedindo um colo. Então, foi
coberto com a manta que Mamãe Rata trazia numa maleta, e Papai
Rato o recebeu nos braços.
A caminho de casa, Papai Rato, em particular, não escondia sua
alegria, lutando para não falar alto e acordar o filho.
_ Como é lindo! _ sussurrou _ O nome dele será Nino.
Os olhos de Mamãe Rata tiveram reações naturais
de uma mãe quando ganha um filho. Sorriram num alvoroço,
à luz das emoções. Muito satisfeitos alcançaram
o olhar coruja de Papai Rato. E com certeza, se falassem, a palavra
era filho.
Em casa, os dias foram passando num fôlego. Quando os pais viram,
era dia de Nino ir à escola.
O ratinho não escondia sua satisfação de o pai
estar indo com ele no primeiro dia de aula. Numa das mãos Nino
segurava a lancheira, na outra, uma das mãos do pai. Os dois
iam calados. E ambos eram movidos por uma secreta cumplicidade de ternura.
É claro, havia também a sensação do gostoso
lanche feito pela mãe. Como podia esquecer uma coisa dessas?
A escola era antiga, de aparência quase de um velho casarão.
O pai explicou que todos os ratinhos da região estudavam lá.
Mas que no tempo do bisavô dele ali tinha sido uma fazenda de
açúcar.
No portão, entreolharam-se. O ratinho quis soluçar. Por
um instante, o pai apertou-lhe a mão, como que fosse dizer que
voltariam para casa. Não o disse. Em vez disso, o sino tocou
e, então, devagar, Nino seguiu os outros ratinhos para a entrada
da escola.
_ È... está chegando o dia do piquenique da escola e da
família _ disse a professora _ e como não posso deixar
de cumprir minha promessa, vamos fazer um cartão para lembrar
aos pais de vocês dessa ocasião.
Eric, o ratinho mais novo da sala de aula, quis saber se poderia levar
o pai, a mãe e os dois irmãos.
A voz macia da professora chegou com uma afirmação. Podiam
levar toda a família.
O ratinho Quic, o melhor corredor da escola, chegou a dizer que levaria
seus dois primos, pois morava na casa dos tios desde que nascera e estes
não podiam ir.
Foi quando a professora falou que hoje existe uma diversidade muito
grande das configurações de família. O importante
era os responsáveis participarem cotidianamente da criação
do filho.
À noite, Nino olhou para a mãe aquecendo um pedaço
de queijo para ele comer antes do jantar. Nunca sentira vontade de saber
quem eram seus pais biológicos, mas sabia que se um dia os encontrar
pela vida, será bom, sem, no entanto ser algo para pensar agora.
Quando o pai se pôs de pé perto da mesa de jantar, Nino
o imitou e ficaram por uns instantes bem perto. Ainda era pequeno. Que
fosse, cresceria. Eram pai e filho.
E a fome falou mais alto. Ou, pelo menos, era o que importava no momento.
(Para
Artur e Ana Letícia, que adoram contos infantis)
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