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Romilton
Batista de Oliveira
Itabuna
/ BA
Quem
pulou o muro?
Certa
feita, dois irmãos afrodescendentes, um de pele branca, outro
de pele negra, dirigiram-se a uma farmácia baiana a fim de comprar
um remédio para a sua mãe que se encontrava enferma. O
dono do comércio e farmacêutico conhecia Afrohíbrido
(o irmão de pele branca) desde sua época quando trabalhava
no banco Baneb – Banco do Estado da Bahia –, mas não
conhecia o seu irmão Afrolúsono que por muito tempo morou
em São Paulo, e estava agora a visitar a cidade.
Afrolúsono e Afrohíbrido pertencem a uma família
muito extensa. Seu pai Desterritorilde da Costa Silva era de pele negra,
descendente de uma família de pais negros, sua mãe era
descendente híbrida, ou seja, por parte de pai seu avô
era caboclo, de longos finos cabelos pretos, e por parte de mãe,
sua avó era de estatura baixa, magra e de cabelos curtos e encaracolados.
Já a sua mãe Memoriana Anchieta Alburquerque, era de pele
branca, descendente de pais estrangeiros. Era uma portuguesa de lábios
secos e corpo feito violão. E seu pai nasceu no Brasil, mas era
filho de mãe brasileira e pai angolano, mas criado no Brasil.
Enfim, eles vinham de uma família de descendência compósita.
Afrohíbrido, dirigindo-se ao farmacêutico, mostrou-lhe
a receita. Mas havia dois tipos de remédios, um dos quais seu
irmão já havia comprado. Então, foi aí que
Afrolúsono interrompeu o diálogo e, apontando para a receita,
disse ao farmacêutico:
– Senhor! Queremos apenas o remédio que está sublinhado
com uma caneta preta.
O farmacêutico, ao olhar para Afrolúsono, disse:
– Quem é você?
Mas Afrohíbrido tomou a palavra e o respondeu dizendo:
– Esse é meu irmão.
O homem, de um olhar perdido e confuso, cheio de imaginações
e certamente preconceitos internos que se externalizavam através
de seu espanto manifestado, assim respondeu, com um tom bastante irônico:
- Deus! Se você não dissesse que é seu irmão,
eu jamais descobriria!
E num suave maléfico sorriso, assim disse:
– Vá lá Afrohíbrido, quem foi que pulou o
muro?
Como a farmácia tinha alguns idosos que estavam a esperar para
comprar seu remédio, Afrohíbrido pagou a conta, e foi
aos poucos se afastando, dizendo:
– Foram os dois, ambos pularam o muro dos desejos em nome do amor.
E por incrível que pareça meu pai é de pele negra.
Num outro momento, ele, Afrohíbrido, chamou-o em silêncio
e tiveram uma longa conversa. E Afrohíbrido deixou bem claro
que não haverá a próxima vez, que ele tivesse cuidado
porque já existem leis no Brasil que condenam a prática
do racismo. E que, quem sabe, da próxima vez quem vai pular o
muro será ele, mas não o muro da metáfora preconceituosa,
mas o muro que cerca as prisões.
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