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Conto publicado no Livro "Contos de Arrepiar" - Edição Especial 2012 - Março de 2012

Romilton Batista de Oliveira
Itabuna / BA

 

Quem pulou o muro?

 

Certa feita, dois irmãos afrodescendentes, um de pele branca, outro de pele negra, dirigiram-se a uma farmácia baiana a fim de comprar um remédio para a sua mãe que se encontrava enferma. O dono do comércio e farmacêutico conhecia Afrohíbrido (o irmão de pele branca) desde sua época quando trabalhava no banco Baneb – Banco do Estado da Bahia –, mas não conhecia o seu irmão Afrolúsono que por muito tempo morou em São Paulo, e estava agora a visitar a cidade.
Afrolúsono e Afrohíbrido pertencem a uma família muito extensa. Seu pai Desterritorilde da Costa Silva era de pele negra, descendente de uma família de pais negros, sua mãe era descendente híbrida, ou seja, por parte de pai seu avô era caboclo, de longos finos cabelos pretos, e por parte de mãe, sua avó era de estatura baixa, magra e de cabelos curtos e encaracolados. Já a sua mãe Memoriana Anchieta Alburquerque, era de pele branca, descendente de pais estrangeiros. Era uma portuguesa de lábios secos e corpo feito violão. E seu pai nasceu no Brasil, mas era filho de mãe brasileira e pai angolano, mas criado no Brasil. Enfim, eles vinham de uma família de descendência compósita.
Afrohíbrido, dirigindo-se ao farmacêutico, mostrou-lhe a receita. Mas havia dois tipos de remédios, um dos quais seu irmão já havia comprado. Então, foi aí que Afrolúsono interrompeu o diálogo e, apontando para a receita, disse ao farmacêutico:
– Senhor! Queremos apenas o remédio que está sublinhado com uma caneta preta.
O farmacêutico, ao olhar para Afrolúsono, disse:
– Quem é você?
Mas Afrohíbrido tomou a palavra e o respondeu dizendo:
– Esse é meu irmão.
O homem, de um olhar perdido e confuso, cheio de imaginações e certamente preconceitos internos que se externalizavam através de seu espanto manifestado, assim respondeu, com um tom bastante irônico:
- Deus! Se você não dissesse que é seu irmão, eu jamais descobriria!
E num suave maléfico sorriso, assim disse:
– Vá lá Afrohíbrido, quem foi que pulou o muro?
Como a farmácia tinha alguns idosos que estavam a esperar para comprar seu remédio, Afrohíbrido pagou a conta, e foi aos poucos se afastando, dizendo:
– Foram os dois, ambos pularam o muro dos desejos em nome do amor. E por incrível que pareça meu pai é de pele negra.
Num outro momento, ele, Afrohíbrido, chamou-o em silêncio e tiveram uma longa conversa. E Afrohíbrido deixou bem claro que não haverá a próxima vez, que ele tivesse cuidado porque já existem leis no Brasil que condenam a prática do racismo. E que, quem sabe, da próxima vez quem vai pular o muro será ele, mas não o muro da metáfora preconceituosa, mas o muro que cerca as prisões.


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