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Antologia
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Giulia
Martinovic O espírito de Natal
Agora, oitenta anos depois, não sentia somente a ausência da atmosfera nevoenta, mas também, daquela vibração inexprimível fluindo por dentro, a qual podia ser sentida cada vez mais intensamente à medida que a grande data ia se aproximando. Será possível que o espírito de natal tenha sumido por completo, e ninguém saiba mais o que ele é, e nem para onde partiu? Cadê os sorrisos, a paz e aquelas inefáveis canções entoadas pela família reunida em volta do pinheiro enfeitado? Ao invés disso, um som extremamente grosseiro fazia-se escutar por toda a casa, todos falavam e gritavam uns mais alto que os outros, como se competissem para serem ouvidos. Uma confusão! Olhou para seus netos, esperançosa de vê-los menos insensíveis que os adultos. Mas não: comportavam-se como se fosse um dia qualquer. Alguns deles estavam amontoados em volta do computador, brigando pelo seu monopólio; os outros, comparavam seus presentes, lançando mão de argumentos sobre o preço e a marca de cada um. Para eles, este dia significa somente ganhar os incontáveis objetos modernos que vêem nos comerciais de televisão - mais nada. Quando tinha a mesma idade, passava toda a véspera embrulhando seus brinquedos antigos, para no dia seguinte, distribuí-los às crianças pobres das redondezas. Enchia-se de beatitude e júbilo, ao ver o sorriso nascer em suas faces. E, quanto àquilo que ganhava, nunca foi exigente em demasia; o fato de ter vindo de um parente ou amigo, mesmo sendo um singelo cartão com palavras bonitas, tornava-o aos seus olhos dádiva divina. Na hora de trocar presentes, percebeu que os seus não agradaram deveras. Por mais que se esforçassem para não demonstrar, proferindo frases de agradecimento, a decepção se estampou em seus rostos tão logo descobriram o que havia dentro dos embrulhos coloridos. Pegou um deles, a boneca de pano jogada de modo displicente sobre o sofá, com a qual presenteara Clarice, colocando-a no colo como fazia em sua infância. Logo em seguida, lágrimas juntaram-se abundantemente nos seus olhos. As doces lembranças dos dias que não mais existiam, eram o único meio através do qual reencontrava o espírito natalino. |
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Publicado
na Antologia "Os mais belos Textos de Natal" - Edição
2008 - Novembro de 2008 |