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Vanderlei de Souza
São Paulo / SP

Natal


Nesse ano eu vou querer que o Natal não chegue. Não é por nada, não. Nem por ideologia - algum tipo de protesto contra o consumismo capitalista. Acredite! Eu apenas não quero ouvir falar de Natal, só isso. Não é porque eu tenha perdido algum parente próximo e querido e ressinta sua ausência, quando toda a família supostamente estivesse reunida diante de uma mesa farta. Não! Todos meus familiares gozam de perfeita saúde física e razoável sanidade mental. Mesmo que fosse o caso, a ausência de algum parente falecido não seria mais inconveniente que a presença de alguns ainda bem vivos. Também não se trata de alguma mudança de credo religioso. Não porque eu seja menos cristão do que já terei sido um dia. Minhas divergências com o cristianismo nunca me impediram de usufruir de um peru assado, ou de boas taças de champanhe.

Se me encontrar no dia 25 de dezembro, na rua, na praça ou no supermercado, por favor, não se sinta na obrigação de me felicitar, apertar minha mão, ou me abraçar em razão das festividades natalinas. Faça-o por outro motivo, se quiser. Você que é meu parente ou amigo próximo não alimente mais ainda o saldo negativo de sua conta bancária, ou role sua dívida no cartão de crédito apenas porque se convencionou que eu devo receber um presente seu. Pense nisso, afinal você também não receberá nada de mim nessa ocasião. Assim, você está livre de mais esse belo ato de reciprocidade. Pense nos presentes caros que seus filhos exigirão impiedosamente, concentre-se neles, decerto não seria justo que você os privasse das últimas novidades em videogame, celulares e todas aquelas maravilhas que serão armazenadas no quarto de despejo alguns meses depois e lançadas no meio ambiente após alguns anos, para que possam degradar-se em alguns séculos. Não, não me presenteie.

Concedo minha anistia aos papais-noéis. Por mim, não precisam mais se vestir com roupas de inverno em pleno verão tropical, nem procurar por chaminés inexistentes na maioria de nossas casas. Aos perus, leitões e frangos, concedo o perdão no corredor da morte. Têm a minha palavra que não os comerei nesse ano. Libero meus patrões e colegas de serviço daquela fantástica brincadeira do amigo secreto. Que a empresa economize o dinheiro da festa ou do almoço tradicional da empresa para comprar dólar, aplicar na bolsa ou, quem sabe? Dar um aumentozinho para os funcionários. Quanto aos cartões de natal. Imagine quantos erros de concordância, acentuação e ortografia serão evitados se eu não tiver que recebê-los? Quantas árvores serão poupadas de virar celulose? Quantos carteiros serão poupados de mordidas?

De minha parte não terei árvores enfeitadas com luzes piscando em meu quintal. Deixarei que as árvores se contentem com suas próprias folhas, flores e espinhos. Terão que ostentar apenas aquela insossa beleza natural que lhes caracteriza e que cumpram apenas sua banal função de purificar o ar do nosso mundo. Poderão ainda, se enfeitar com monótonos ninhos que abrigam pequenas e insignificantes vidas indefesas. Concordarei, talvez, que minhas árvores apenas brilhem quando cobertas pelo tedioso orvalho da manhã ou pelas chatas gotas da chuva de verão sob os raios do sol.

 
     
 
Publicado na Antologia "Os mais belos Textos de Natal" - Edição 2008 - Novembro de 2008