|
|
|
Antologia
on line |
Ilda
Maria Costa Brasil Uma mágica manhã natalina
O desenrolar do dia era sempre o mesmo. Os carros buzinavam, a moça aproximava-se, entregava o jornal e recebia o pagamento. Ninguém falava com ninguém. Um e outro jogavam uma moeda para a menina que a recolhia e punha numa latinha. Os gestos eram mecânicos. Todas as manhãs um carro preto “bonito”, segundo o olhar de Maria, passava vagarosamente e o casal, ao pegar o jornal, sorria-lhe e a olhava com carinho; parecia não ter pressa para sair do local. Certo dia, enquanto Dona Luzia entregava o jornal a um novo freguês; o casal do carro preto bonito buzinou e Maria, rapidamente pegou um exemplar da Zero Hora e correu para entregar ao senhor. Esse abriu o vidro do carro e, ao receber o jornal, perguntou: - Como é seu nome, menininha?” - Maria. - Maria, Carmem. Ambos lhe sorriram e disseram: - Tão pequenina é já na luta ajudando a mãe. O sinal abriu e ela voltou ao seu lugar. No dia seguinte, a garotinha acordou indisposta e foi obrigada a ficar em casa. Recostada no velho sofá, pensou muito no casal. Eles a haviam tratado com carinho e respeito. Podia afirmar que nos olhos da mulher vira ternura e amor. - Oh, teriam eles notado a minha ausência ou nem perceberam que eu não estava ao lado de Dona Luzia?! No fim do dia, Dona Luzia apareceu em sua casa, trazendo um pacote de bolachas e uma caixa de suco que Dona Carmem e seu esposo haviam lhe dado para que entregasse a sua filhinha. A jornaleira explicou a Maria que o casal achava que ela, Maria, era sua filha. Juntas, riram bastante do mal entendido. A menina ficou encantada com o casal e seu coraçãozinho encheu-se de luz. Leu nesse pequeno gesto uma doce mensagem. No outro dia, embora não estivesse completamente recuperada, cedo pulou da cama, botou o melhor vestidinho que tinha e foi se encontrar com sua amiga e vizinha. Dona Luzia, ao vê-la disse: - Estás linda como uma rainha. Maria ficou muito feliz com a observação. Queria que o casal a visse bem bonitinha. Eles, ao verem-na, não conseguiram esconder a alegria. Estacionaram o carro e foram em sua direção. De imediato, a menina não entendeu nada. Nunca tinha sido abraçada daquele jeito. O abraço era quente e gostoso. Não dava vontade de soltar-se daqueles braços. Sentiu seu coraçãozinho bater rapidamente; uma sensação de felicidade, parecia estar vivendo uma das histórias que a professora contava no final no dia. A reação do casal conquistou a pequena Maria que passou a lhes aguardar cheia de emoções e sonhos. Tinha-lhes gratidão e amor. Três meses depois, na manhã do dia vinte e cinco de dezembro, o casal chegou ao local acompanhado de uma senhora de mais idade a qual a chamou e lhe fez muitas perguntas. A jornaleira ficou preocupada, pensou na possibilidade de um seqüestro. Maria era uma menina muito graciosa e encantadora. Dona Luzia, bastante desconfiada, aproximou-se e disse: - O que estão querendo? Quem são vocês? A senhora, que estava acompanhado o casal, explicou que era assistente social e que o casal não tinha filhos e almejava adotar uma menina e, se os pais de Maria concordassem, ela, Maria, seria a filha tão desejada. Dona Luzia pediu que esperassem e disse que os levaria a casa dos avós da menina, pois seus pais haviam falecido quando o casebre, em que moravam, pegou fogo. Concluídas as vendas, foram conversar com os responsáveis pela menina que aceitaram a idéia de imediato. Explicaram-lhes que o olhar da garotinha projetou, em seus corações, a idéia da adoção e o amor paternal. Enquanto Marcos e Carmem falavam, Maria não conseguia esconder sua alegria. Seu rostinho irradiava muita luz e beleza. E sob o olhar fraterno dos avós e de Dona Luzia, entrou no carro e acenando, partiram. |
|
Publicado
na Antologia "Os mais belos Textos de Natal" - Edição
2008 - Novembro de 2008 |