nº9 - 8 de Março de 2010 - 1 página
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Novos talentos da Literatura Brasileira Seletivas de Março


Excepcionalmente, esta nona edição do nosso Webjornal está saindo com apenas uma página, apresentando os poetas: Fernanda Mothé Pipas dos Santos, Julio Cesar Bridon dos Santos, Marcelo Ulguim e Rosival Lourenço da Silva , além da contista Flávia Prosdocimi de Castro Santos.
Estão abertas as inscrições para as seletivas de Março.
Lançamentos em
Maio de 2010:
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Poetas Contemporâneos em Destaque

Fernanda Mothé
Pipas
dos Santos
Campos dos Goytacazes / RJ


Ecos mudos

Minh'alma aflita
ouço vozes...tormentos!
ecos mudos dos sentimentos
imensidões de outro universo
meu avesso complexo


Vejo lágrimas que caem
percebo as cicatrizes que se abrem
pouco a pouco se esvai os sonhos...mera ilusão!
São gritos silenciosos, desta alma em ebulição


Na mente uma completa confusão
no abismo..eu e a paixão
Falo e ninguém me ouve
minhas palavras são mudas
perderam a exatidão


E num gesto louco
tento pedir socorro
em forma de canção
e na voz ecoa minha emoção
pois já não é meu esse coração
que pulsa em outro corpo
que atraca em outro porto
no cais da solidão.


 
Julio Cesar Bridon
dos Santos

Gaspar / SC


Paredes escuras

Apagam-se as luzes
a escuridão toma conta
de todo o espaço
pouco preenchido
de um lar abandonado
e esquecido
jogado à própria sorte.

Sem luzes ofuscantes
sem velas acesas
sem doces, brinquedos,
alegria e felicidade.

Paredes escuras
choro chorado, minguado
carente de carinhos
soluços trancados
gargantas apertadas
gelando os corações endurecidos
daqueles que apenas esperam
pela esperança
que lhes trará uma "luz"
que os guiará
pelas estradas da vida
em busca da felicidade eterna.

Marcelo Ulguim
Porto Alegre / RS


À procura

Pela noite saio a vagar,
A apreciar a brisa
Que promete a chuva vindoura.
Ando, ando,
Vasculho cada esquina,
Cada praça, cada viela
E não encontro.
Desce a chuva,
E eu molhado, perdido,
Com frio, continuo a buscar
O sentido, o passado, um motivo.
Quão mais escuras as ruas,
Maior é o alento que sinto,
Mergulho num caminho
Prazeroso e faminto,
Mas não encontro.
Me escondo,
Do mundo, de mim,
Do bem, do mal,
E continuo a vagar,
Mas devo encontrar antes que pare a chuva.
Caso ela finde antes do encontro,
Continuo a esconder-me,
Na noite, nas sombras, na névoa,
Nas vias escuras do eu, onde ando, onde chove,
Onde encontro o prazer
De viver a buscar,
Ao menos até me encontrar.


 
Rosival Lourenço da Silva
Maceió / AL


Domingo vésper

Dizei-me, Domingo vésper:
De onde vens,
Aonde irás?

Venho da noite
Escuso sábado
Incerto além.

Desci o rio
Pela manhã fria
- sigo feliz
As estradas da tarde
A aura do dia.

Para quê, dizei-me?

Para encontrar minha sina
Rotineira
E viver a solidão
Certa, verdadeira
De só voltar semana que vem.


Contista Contemporânea em Destaque
  Flávia Prosdocimi de Castro Santos
Rio de Janeiro / RJ


Enquanto

Enquanto as folhas caiam no chão. Neste breve tempo, enquanto as folhas bailavam ao vento, é que tudo se deu. Percebeu um pouco depois. Não imediatamente. Mas sentiu, à flor da pele, um leve arrepio gelado. Foi tudo num segundo. Num só instante. Enquanto as folhas se desprendiam do alto e chegavam, lentas, àquela superfície molhada. Não sabia muito bem o que estava fazendo ali. Ventava forte. Fazia frio. E mesmo assim; mesmo com tudo voando ao seu redor; mesmo com o vinho lhe nublando a alma; mesmo assim. O arrepio lhe percorreu a espinha, de baixo para cima, num átimo. Do lado de fora do vidro embaçado, a chuva. Sentiu-a como lágrimas, talvez suas, a se desprenderem calmamente de olhos já cansados. Já descrentes. Olhava fixamente. A janela, a taça, o palco, os olhos. Algumas notas cismando em povoar seus pensamentos. Algumas palavras. Tudo no mais perfeito silêncio. Harmonia. E de olhar, despreocupada, pro lado de fora, é que percebeu. Naquele instante. Entre o salto da folha, e sua chegada macia ao chão. Entre um gole e outro de vinho. Percebeu que o tempo passava, e que ela se ia com ele. Que estava desistindo, apesar da esperança. Percebeu que mudara. Mas foi naquele breve instante – não mais. Naquele limite tênue entre a decisão e a ação. Naquele suspiro. Foi ali que tudo se deu. Letras cantadas no tom exato, na melodia correta. Letras voando pelos ouvidos e poluindo sua alma. Naquele instante. Enquanto as folhas caiam e os olhares se cruzavam. Enquanto a música era cantada e sentida. Naquele exato instante. Nem um minuto a mais. Ela viu acontecer. Como quem assiste a um filme. E viu que não era possível voltar atrás, que aquele arrepio a lhe congelar a espinha duraria o tempo necessário de uma paixão. Tudo isso ela viu; mas sem querer. Porque não lhe foi possível fechar os olhos. Porque, mesmo se os fechasse, as imagens a povoariam por dentro, como nômades a vagar. Não pode conter, embora tentasse. Mas naquele instante; naquele breve instante; teve certeza de si. Viu-se em olhos alheios, perdida em palavras escritas por outros dedos; em canções de um amor tardio. Viu-se sorrindo de dor e chorando de prazer num futuro que custava a chegar. Viu-se. Como nunca havia se visto em outros olhos. Num instante fugaz, entre a janela e o microfone. Entre a boca, e os ouvidos. Enquanto tudo, as folhas. Sempre as folhas. Bailando, lentas, o compasso da ilusão. Voando suaves por entre olhos estranhos. Tentou evitar, mas não pôde. Teve a sensação de que o tempo acelerava, enquanto ela ficava para trás. Estava parada. Completamente paralisada. Enquanto as folhas caiam, e a música lhe acariciava os ouvidos. Enquanto o vinho corava suas entranhas, ferino. Desviou o olhar, insistente, mas aqueles olhos continuavam ali. Em algum lugar, dentro. E, naquele instante, teve certeza que o inverno jamais chegaria. Que ela continuaria acorrentada às grades daquele outono chuvoso. À lareira, ao cachecol, e àquele sorriso melancólico, contido num instante de olhar.


 
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