nº5 - 1º de Fevereiro de 2010 - 4 páginas
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Autores Contemporâneos em Destaque

Iara Clarice Sabino Alves
Guaramirim / SC


Outro dia

Enquanto almoça, Marina lembra dos assuntos que tem para resolver. Está ainda mergulhada em seus pensamentos, quando percebe que é hora de voltar para o trabalho. Ela ocupa o cargo de gerente administrativo numa agência bancária.

Mal coloca os pés na agência, e o Tavares a chama:

- Marina! Ligue para a Estela da seguradora, para saber se o contrato foi aprovado. - e enfatiza:

- Isso é pra ontem! - diz, puxando as alças do suspensório.

Tavares é o gerente-geral. Até é uma boa pessoa, mas consegue estressar todos que trabalham com ele. Ótima pessoa, péssimo profissional, pensa Marina ironicamente. Além do que, nunca vi alguém tão antiquado. Só ele mesmo para usar calças com suspensórios, camisa com abotoaduras, óculos aro de tartaruga e relógio de algibeira, aliás, o relógio era um acessório dispensável, para uma criatura que parou no tempo. O cabelo então, sempre aquele penteado "a vaca me lambeu".

Marina vai para a sua mesa, e lá, continua analisando Tavares sarcasticamente, enquanto procura a agenda entre os papéis espalhados na mesa. Sente os olhos arderem. Finalmente encontra a agenda, e a folheia procurando o número do telefone de Estela. As letras parecem borradas. Preciso ir ao oftalmologista, pensa Marina. Vamos ver... Estela... Achei! Liga:

- Alô, quem fala?
- Estela.
- Estela, é a Marina. Tudo bem?
- Tudo...

Marina prossegue:

- Pois é, estou ligando para saber do contrato.
- Mas...

No entanto, Marina não dá chance para a outra responder e continua falando:

- Sabe como é o Tavares, ele está preocupado com essa aprovação...

Estela interrompe:

- Marina, aqui é a Estela, sua manicure.
- Desculpe Estela, me enganei! - diz Marina rindo.
- Percebi que o assunto não era comigo.
- Ai menina! Estou estressadíssima!
- Estou vendo!
- Mas já que eu liguei, posso marcar um horário para sábado?
- Sim, qual horário?
- Ás dez... - Só então Marina percebe o Tavares batendo na sua mesa com uma caneta.
- Certo, tchau Estela!
- Está com tempo hein Dona Marina! - e continua:
- O relatório das contas novas está pronto?
- Sim, vou imprimir.
- Já não era sem tempo! - diz, ajeitando os óculos.

Depois disso, Marina tenta ligar para Estela, mas é interrompida a todo o momento. E a tarde vai passando. Só muito tempo depois ela consegue ligar:

- Alô, posso falar com a Estela?
- Aiô... Tia... - diz uma voz de criança.

Era só o que faltava, agora liguei para um jardim de infância, pensa Marina.

- Tudo bem, tchau nenê! - Marina desliga, e diz em voz alta:
- Hoje é o dia!
- Dia do quê? - pergunta Tavares, se aproximando. Mas ele não espera resposta e fala:
- Marina, eu estou saindo para uma reunião. - e emenda:
- Não esqueça de conferir os cadastros novos.

Marina olha para ele desanimada.

- Vamos Dona Marina, o tempo urge! - diz, já saindo da agência.

Urge! Não bastasse a aparência antiquada, também o seu modo de falar é arcaico. Museu ambulante! Marina remói sua raiva, enquanto trabalha.

Finalmente, ela consegue falar com a Estela, para resolver o assunto do tal contrato. Porém, o seu dia continua agitado.

Urge... Urge... As palavras de Tavares ainda estavam ecoando em sua mente, quando vê que já passou meia hora do seu horário de trabalho. Então, ela lembra que tem dentista. Pega a bolsa e sai às pressas, porque ainda tem que passar em casa.

- Chegando mais cedo! - diz a mãe.
- Não!
- Mas agora são cinco horas, Marina.
- Não acredito! E eu saí correndo, porque tenho dentista hoje.
- A sua consulta não é amanhã?
- Mãe, hoje não é dia 31?
- Não, hoje é dia 30.
- Nossa! Preciso de férias! Tive um dia horrível. O chato do Tavares me chamou a cada minuto. Você acredita que ele... - Toca o celular. Marina atende:
- Alô, Marina! Aonde você está? Eu exijo uma explicação, e...

Enquanto ouve, Marina imagina o Tavares todo alterado ao telefone, repetindo pela milésima vez o seu ritual diário de puxar as alças do suspensório, ajeitar os óculos, olhar o relógio de algibeira e conferir se as suas abotoaduras estão no lugar. Ahh... Tavares... Provavelmente ele coloca naftalinas nos bolsos, para preservar a sua antiguidade. Marina voa em seus pensamentos. De qual período da história ele saiu? Tavares continua falando, desfiando o seu rosário de reclamações. Tavares e suas expressões antiquadas... Antiquadas... Antiquário... Ela continua divagando. Mil pensamentos dançam em sua mente em frações de segundo. E em seus devaneios, lá está Tavares, como um padre discursando seu sermão. Tavares e seu sermão em latim... Latim... De repente, vem a sua cabeça a expressão "carpe diem". Eu deveria era aproveitar o meu dia... Mais um dia... Menos um dia... O que não tem remédio, remediado está... Então, ela interrompe Tavares bruscamente:

- Aqui não é a Marina. - fala com voz de taquara rachada.
- Desculpe, foi engano... - diz Tavares desconcertado.

A mãe a olha espantada, e pergunta:

- O que é isso?!

Marina senta tranquilamente no sofá, ainda lembrando de tudo que havia acontecido naquele dia, e tem um ataque de riso. Ri até chorar. Claro que o Tavares vai encher a caixa postal do seu celular, e amanhã ela terá que dar mil explicações. Mas isso acontecerá amanhã. E amanhã é outro dia...

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"o Pequeno Príncipe"
Alunos da 6ª série do Colégio Couto Magalhães
Organizadora:
Ana Maria de Brito
78 páginas
Editora CBJE

Contato com os autores:
profleonardorodrigues@
yahoo.com.br


Carlos Américo Kogl
São Roque / SP


O observatório

Juvenal arrumou um emprego novo. Nada extraordinário, mas por ter sido concursado, sabia-se de futuro garantido. Já tinha passado dos trinta e cinco e havia tempos andava preocupado com as coisas da vida. Desde a ampliação de sua casa na periferia de São José, passando pela escola dos filhos e a saúde da mulher. Agora, mais aliviado, até conseguia acompanhar um ou outro jogo de seu time, desde que passado na tevê aberta. Mas, com este concurso, para o qual estudou com a ajuda de muitas pessoas, Juvenal estava mais tranquilo. Agora era funcionário municipal, com cesta básica, salário em dia certo, assistência médica e garantia de vaga na escola. Ficou mais contente ainda, quando foi designado como faxineiro do observatório de São José. A prefeitura mantinha um convênio com uma série de outras entidades, cujas siglas o Juvenal nunca entendeu ou soube dizer da sua serventia. E lá foi ele conhecer seu novo local de trabalho. Ficou pasmo, tudo era limpo, quase que brilhando. Assim, pensou, iam logo perceber que sua presença era desnecessária e ele logo teria de voltar para o almoxarifado. Tratou de lambuzar o chão logo na primeira meia hora. Depois de uns três dias, apareceu por lá uma pessoa estranhíssima, se visto pela ótica do Juvenal. Um cara que fala sozinho, apaga o lápis no cinzeiro e deixa o cigarro aceso sobre a dobra do livro, não pode ser normal. Deve ser maluco. Maluco não, meu caro, cientista. Seguiu-se sonora gargalhada. Olhe meu caro Juvêncio, Juvenal, certo. Olhe meu caro Juvenal, aqui não precisa limpar muita coisa, mas precisa estar atento ao painel de instrumentos e ao radar. Nós solicitamos que nos fosse mandado um auxiliar, na bem da verdade fui eu que pedi e me lembro bem de que a pessoa perguntou se era pra fazer de tudo um pouco. Este cientista nunca imaginou que lhe fossem mandar um auxiliar de serviços gerais. Mas como quem não tem cão, caça com mata moscas mesmo, o Cientista muniu-se de toda a paciência de que foi capaz e passou a ensinar o Juvenal. Primeiro ele aprendeu sobre as estrelas, os cometas, os asteróides, as galáxias. Depois, pouco a pouco, passou a entender dos instrumentos e da sua serventia. Adorava ir trabalhar, levava os filhos, lhes explicava tudo, mesmo que não se lembrasse direito. Ia até em dia de folga. O tal cientista só aparecia umas duas vezes por semana, e fora este, Juvenal nunca conheceu mais ninguém. Os meses foram passando e Juvenal já estava até ficando parecido com o cara. Aliás, era o que repetia sempre que podia: "Este é o cara!" Me ensina e não me desdenha, não me diminui. Uma noite de sábado, daquelas noites de lua cheia em que o telescópio serve para atrair a namorada, tal e qual faria uma arapuca, Juvenal levou a esposa para que ela visse com "os próprio zóio as maravilha do universu". Zoraide caiu de joelhos e agradeceu a Jesus a benção do marido, do emprego do marido, dos filhos e desatou a orar. Não queria nem saber de olhar no buraquinho que o Juvenal insistia em lhe mostrar. Deve ser o cano do Demo, se bem que tanta coisa que se está agradecendo, não pode ser coisa ruim. Mas e se for ardil. O Demo é cheio de enganos, sempre a espreitar para depois dar o bote. Na Bíblia está escrito. Já deveria ser do conhecimento de todos, mas a humanidade insiste em não prestar atenção nas sagradas escrituras. A única vez em que parou de orar foi para alertar o marido de que a presença dela por lá talvez não fosse bem vinda. Claro que é "muié"! O Dr. Cientista, aquele do nome estranho de quem lhe falei, me autorizou a vir sempre e com quem eu achasse digno de conhecer este lugar. Uma luz começou a piscar. Primeiro era verde, mas rapidamente se transformou em laranja. Logo a seguir um sinal sonoro insistente e bastante "perturbento" também passou a inundar o ambiente. Zoraide, à beira de um "colápis" principiou a gritar. Juvenal correu para o telefone e apertou o botão vermelho, igual lhe haviam ensinado. Alguém atendeu: "Quem está aí?" Ora quem... Juvenal, oras! Dentro de minutos, duas viaturas da polícia estavam levando o Juvenal e a mulher dele para a delegacia. Preso por invasão de propriedade privada. Explicou-se, mostrou sua credencial de funcionário municipal, o crachá do Instituto e a cópia da chave. Apesar de o lugar ser todo automatizado, não carecendo sequer de quem o limpe, as dúvidas pareciam desfeitas. Mesmo assim, o Delegado quis saber mais e reteve o casal. Enquanto isso, o funcionário do Instituto que cuida do observatório por monitoramento remoto, que havia ficado por lá, após a saída da polícia, apavorou a todos que pôde. Mandou e-mail, telefonou, enviou fax e gritou. O sinal do qual foi alertado pelo Juvenal, era o sinal de uma aproximação de um meteoro, que vinha feito bala em direção a São José. Iria destruir tudo e pelo que apontavam os instrumentos seria dentro de no máximo duas horas. Nunca mais se soube de nenhum destes personagens, todos pulverizados pelo impacto. Sobraram remotos registros das comunicações do funcionário do Instituto, armazenadas nos servidores das Universidades e órgãos outros que ele manteve contato. Como este nunca se identificou e apenas mencionava o nome do Juvenal, a depressão originada pelo impacto acabou conhecida como Cratera do Juvenal. Hoje, passados mais de cem anos do fato, dois historiadores descobriram que o cientista insistentemente lembrado, na verdade, havia falecido uns bons dez anos antes do nascimento do nosso auxiliar de serviços gerais...
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"Estações do Vale - Haicais"
Cândido Paulo Domingues
88 páginas
Editora CBJE

Contato com o autor:
can.pd@uol.com.br

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