nº2 - 11 de janeiro de 2010 - 4 páginas
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Contistas Contemporâneos em Destaque

Ricardo Gnecco Falco
Rio de Janeiro / RJ
Oito de copas

Ernesto suava sem parar diante da churrasqueira...

Estava com a turma da faculdade em uma espécie de confraternização de fim de período. O sítio do colega anfitrião ficava ao lado de uma enorme pedreira e, além do calor absorvido pela gigantesca montanha de pedra durante todo aquele dia, somado ao bafo oriundo das brasas sobre as quais eram assadas as carnes, havia ainda o abrasivo efeito da meia dúzia de caipirinhas que já tinha tomado.

Tudo isso, no final daquela típica tarde de verão, fazia Ernesto sentir-se realmente desconfortável. Mas, mesmo consciente de todas estas variantes, o rapaz sabia a verdadeira origem das infindáveis gotas que brotavam por toda a extensão de seu corpo; uma infinita nascente viva...

Ernesto tinha um pronunciamento a fazer.

Iria abandonar o curso de engenharia que já estava em reta final para, surpreendentemente, mudar de forma radical sua futura carreira. Ernesto queria graduar-se na área de humanas. Na verdade, já havia até feito a prova para ingressar na nova faculdade. Sentia uma incontrolável vontade de entender o comportamento das pessoas.

Psicologia...

E abriu para todos ali que a decisão tomada devia-se ao ocorrido naquele mesmo sítio; na mesma mesa de madeira que agora servia de base para os incrédulos olhares de seus amigos, que lhe fitavam num silêncio típico de quando se conhece a imutabilidade de um fato concreto.

Concretamente absortos.

Também fora ali, naquela mesa, após algumas latinhas sorvidas numa noite quente do verão passado, que Ernesto experimentara pela primeira vez a estranha sensação que tentava agora, um ano após, definir em palavras para seus amigos...

Onisciência.

Foi a única palavra encontrada. Assim como apenas um fora o número visualizado em sua mente; na forma de uma curiosa sombra a projetar-se sobre a fina parede de plástico que tinha à frente. Jogavam baralho naquela mesma mesa incrédula de agora, na qual outrora Ernesto, inacreditavelmente, concebera a imagem do número pintado do outro lado da carta.

Era um oito; escuro.

De paus ou espadas... Um oito negro. A carta estava apoiada de lado sobre a mesa, segura pelas mãos de uma colega de turma; hoje ausente. Mais do que ver, Ernesto, inexplicavelmente, "pré" sentira o que existia do outro lado daquela matéria...

Um oito de espadas.

Pensara tratar-se de algum estranho efeito etílico. Mas já no dia seguinte, durante o café da manhã, a ressaca apresentar-se-ia ainda mais poderosa, fazendo Ernesto passar toda a primeira metade daquele revelador domingo sentado sozinho diante da piscina, numa cadeira na varanda, brincando de embaralhar aquelas bizarras cartas esquecidas no canto da cozinha.

Todas transparentes...

E das cartas passara então a intuir os números discados nos telefones celulares dos amigos, mesmo quando virados de costas para ele. Visualizava os algarismos no mesmo ritmo de pensamento dos autores das discagens.

Já lhe surgiam de forma quase natural.

Sua brincadeira predileta tornara-se a adivinhação. Mandava os amigos, familiares, a futura noiva... Cada um sentar-se diante dele e, concentrando-se, pedia para pensarem em um número. Qualquer número...

Ernesto adivinhava.

No início, ainda restavam algumas dúvidas. Mas, seus amigos mais próximos, e principalmente sua noiva, acabaram aceitando aquele instigante fato. Ele acertava mesmo... Vez ou outra tentavam encontrar alguma falha, algum "defeito". Sem prévio aviso, mostravam-lhe nas ruas carros desconhecidos, de ângulos pré-determinados; qualquer carro...

Ele falava os números da placa.

O jogo na televisão começava e era só o placar aparecer zerado pela primeira vez no canto da tela; qualquer jogo...

Ele predizia o saldo de gols da partida.

Rápida e faceira, Raquel - a noiva - apareceu certa ocasião com um canhoto de loteria vazio. Deixou-o, como quem não quisesse nada, em cima da mesinha de cabeceira do quarto de Ernesto, após uma intensa, voluptuosa e atípica noite de sexo.

Raquel estava com um sorriso misterioso...

Mas foi somente naquele momento, contando para os amigos sobre o histórico que o levara à decisão há pouco anunciada, que Ernesto atentou-se para o significado do primeiro número adivinhado naquela mesma mesa, um ano atrás. O primeiro presságio...

Um explícito agouro.

Um oito, invertido e negro. Tenebrosa alegoria. Genuíno símbolo de infinito. Infinitamente sombrio. Uma enfadonha profecia sobre seu futuro e inglório relacionamento com Raquel, colega de turma que empunhava aquela carta e por quem era apaixonado, desde o primeiro período. O representativo fiel de seu trágico noivado...

Oito de espadas.

Raquel por fim confirmaria aquele prognóstico, revelando sua verdadeira face. E frieza. Com oito dígitos na conta, fugiu não se sabe até hoje para onde com um ex-namorado, do tempo do colégio. Deixou para trás apenas uma negra espada fincada no coração atormentado de Ernesto, que nunca mais se utilizou do dom recebido.

Sina.

Ernesto agora buscava conhecer a essência humana. A beleza da alma. A mansidão. O atrativo e seguro caminho das virtudes. O ser antes do ter. A imensidade e onipotência do Amor. Ilimitável; eterno. Sim... Ainda procurava o infinito.

O que Ernesto queria mesmo era encontrar um oito de Copas.
Laly Cataguases
Belo Horizonte / MG
A perfeita imperfeição

A primeira mulher era linda, tinha um corpo escultural, mas um mau hálito surreal. Ficaram juntos apenas algumas horas, 137 minutos para ser mais exato. A segunda não era nada bonita, no entanto detentora de uma mente brilhante, inteligentíssima. Alcançaram dois dias. A próxima era frígida, porém de uma meiguice contagiante, e, ironicamente, muito fértil. Um mês e meio. A outra, de um caráter irrefutável. E também uma loba na cama, incansável. Dominava o Kama Sutra e o sexo tântrico melhor que as orientais. O menos era por ser tagarela. Mesmo se alimentando, falava pelos cotovelos. Assistir a um filme com ela era árduo sacrifício. Duas semanas. A última tinha sorte nos negócios. Festas badaladíssimas, patrimônio invejável, conta bancária abarrotada. Ah, mas suas flatulências... Suas flatulências eram de um fedor estonteante. Não havia um "pum" que se passasse despercebido. E só se era possível entrar no banheiro meia hora depois de sua estada, um horror! Cinco dias.

Cansado de tanto procurar, havia apenas uma coisa a fazer, afinal de contas não queria se tornar um ermitão. Raptou a primeira e subtraiu-lhe a beleza. Da segunda, a rara inteligência. Da próxima, a meiguice e a fertilidade. Da outra, o caráter e a libido desavergonhada. E, da última, o talento em fazer fortuna, pois ninguém é de ferro. Misturou tudo, mexendo sempre para o mesmo lado, para não desandar. Depois agitou bem, enformou, pôs ao forno à temperatura média e vigiou, para não passar do ponto. Em seguida deixou quarar ao sol; era preciso processar a vitamina D, essencial a todo o processo. Assim, estava criada a musa perfeita, capaz de lhe proporcionar mil prazeres e saciar todas as suas necessidades para o resto da vida.

Mas só ao cabo de algumas horas ele percebeu que havia alguma coisa errada com sua criação: apesar da beleza atordoante, ela era inexpressiva, maquinal, carecia de traços humanos. Isso lhe deixou frustrado novamente. Mas não vencido. Refez os cálculos. Teria sido a temperatura do forno? Não. O tempo de exposição? Também não, estava tudo correto. "Ah!... excesso de vitamina D!" Recolheu rapidamente amostras de sangue e pôs-se à análise. Também tudo perfeito. Depois de muito pensar, constatou que não tinha mais o que pensar. Não sabia mesmo onde errara. Frustrado mais uma vez, jogou a musa ao forno. Para exterminá-la. Pegou também todas as partes "negativas" de todas elas, jogou sobre a musa e fechou a portinhola. Depois foi arrumar as trouxas; mudaria para o alto de um morro distante. O mundo ganharia um novo ermitão.

Pouco tempo depois, o aviso sonoro do forno foi acionado automaticamente, o processo chegara ao fim. Antes de abrir a portinhola, pegou um saco de lixo e a pazinha para remover os restos da incineração, não queria deixar sujeira para trás. Qual não foi a surpresa, quando viu que não havia cinzas e, sim, uma nova musa. Mas apenas ela, os defeitos haviam-se incorporado à sua personalidade. Meiga que só ela, abriu um largo sorriso ao vê-lo, lançou-se ao seu pescoço, abraçando-o e beijando-o voluptuosamente. Foram afoitos para a cama. Transaram por um mês e meio, que loba!

Mas no mês seguinte ela não queria saber de sexo, voltando à ativa apenas 47 dias depois. E quando começou a se incomodar com o mau hálito dela, lembrou de suas outras qualidades. Quando o uso do banheiro passou a ser uma tortura, lembrou de suas outras qualidades. Com o tempo aprendeu a conviver com os "menos" que ela possuía. E descobriu que a intolerância dele, talvez seu maior defeito - sim, ele também tinha defeitos - havia diminuído consideravelmente. Descobriu ainda que alguns problemas dela poderiam ser solucionados com a ajuda da medicina. E foram. Os outros, com o tempo, deixaram de ser relevantes.

E assim foram bastante felizes.

Chorou ao enterro dela, muito, muito tempo depois, 50 anos, seis meses e 20 dias para ser mais exato.

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