nº2 - 11 de janeiro de 2010 - 4 páginas
informebrletras@gmail.com
Webjornal enviado por email semanalmente
para 180.000 leitores cadastrados na CBJE
| Ver edição anterior |
1 2 3 4

Contistas Contemporâneos em Destaque

Isabel Cristina Silva Vargas
Pelotas / RS
Destinos

Kika sempre foi uma pessoa curiosa. Quem a vê não imagina a sua maneira de pensar, nem suas convicções das quais não se afasta por nada.

A aparência é avançada. Fora dos padrões normais. Nos conceitos de família, vida pessoal é mais regrada. Apesar de não ter religião respeita a crença dos pais e não deseja criar maiores conflitos além das desavenças habituais pela sua aparência física, para eles muito ousada. Decidiu, então, morar sozinha. Sua situação financeira é estável. A banda já lhe rendeu algum dinheiro que guardou para realizar o sonho de comprar um apartamento. Assim poderá receber os amigos sem problemas. Seu pai não os tolera. Não pela aparência um tanto exótica, mas pelo fato de , eventualmente, utilizarem maconha. Fazem isto em qualquer lugar. Kika é contrária a este hábito. Não faz uso disto. Nunca. Não conseguiu dissuadi-los de utilizarem.

Foi uma terça-feira que foi ao encontro do corretor com quem tratou por telefone ao ligar para uma imobiliária para se informar de um imóvel que vira em anúncio no jornal. Edmilson era seu nome. Combinaram encontrar-se na imobiliária e de lá seguirem juntos para ver o apartamento.

Lá chegando foi direto na recepcionista a quem informou que desejava encontrar o corretor Edmilson.

Ele, que vinha entrando na recepção, mal olhou no rosto de Kika. A aparência "gótica" da moça não o levou a imaginar que aquela era a cliente. A voz suave não condizia com a aparência.

A recepcionista informou que a moça desejava falar-lhe.

Edmilson, sem olhar para ela informou que não poderia atender ninguém, pois estava ocupado. Sem dar atenção à cliente entrou na sua sala.

Kika já estava acostumada a ser alvo de discriminação em virtude da aparência nada convencional. Pediu licença e foi entrando escritório à dentro sem bater. Soltou de um fôlego só uma enxurrada de palavras.

- Olha aqui seu tratante. Não me desloquei de ônibus, sem café para cumprir o compromisso agendado e chegar aqui na hora marcada, para encontrar um corretor irresponsável, bobalhão que nem na minha cara olhou e que por certo deve achar que não tenho condição de comprar nenhum apartamento. Agora quem não quer sou eu. Vou procurar outro corretor. Deve haver profissional mais educado e competente.

Virou-se e saiu com o mesmo ímpeto que entrou na sala, sem dar tempo para que ele esboçasse qualquer reação.

Passaram-se dois dias.

Edmilson achou que deveria ligar para Kika e desfazer o mal entendido. Não tivera a intenção de agir de forma preconceituosa. Afinal, ele próprio não era nenhum "Gianechinni da Globo" e sabia o que era não se enquadrar no estereótipo de beleza. O mercado de trabalho se abre para jovens, belos, altos, sarados, bem falantes e que vendem uma bela imagem. Aos demais resta um corpo a corpo diário para comprovar competência, embora esta nada tenha a ver com aparência física.

Mesmo sem intenção pisou na bola, como se diz na linguagem de futebol.

A moça não parecia muito convencida, mas aceitou as desculpas e marcaram uma nova data para examinarem o apartamento. Desta vez se encontrariam na porta do edifício. Ele já estaria à sua espera.

Assim foi feito.

Fazia questão de olhá-la bem nos olhos ao lhe falar assim tentaria desfazer a primeira impressão.

Saudou-a com um sorriso estampado no rosto.

Ainda desconfiada, Kika respondeu ao cumprimento com um meio sorriso.

Subiram.

Ele falava o tempo todo sobre as vantagens da localização do apartamento, do tipo de construção, suas características, o tipo de morador dali, as conveniências do entorno.

Até parecia bem simpático, alegre, olho brilhante. Isto chamou sua atenção. Gostou daquele brilho no olhar. Prendia a atenção das pessoas. Era como um ímã. Não conseguimos nos desgrudar. É típico de quem tem luz interior e de quem faz o que gosta.

O brilho se expande pelo rosto e nos atinge. Atrai.

As mãos, que não paravam de gesticular mostrando a grande janela com uma linda vista para um pequeno parque, eram bem cuidadas, de unhas bem limpas e, apesar dele ter uns quilinhos a mais, eram longa e bonitas. Deviam ser macias também.

Quando percebeu, ao invés de olhar cada cômodo, olhava para cada parte do rapaz que lhe chamava a atenção: os olhos e as mãos.

Ela a tratava com gentileza e atenção, bem diferente da outra vez. Estava gostando. Tanto que ao saírem do apartamento , quando ele perguntou se poderiam se encontrar novamente para conversarem melhor ela logo assentiu. Desta vez com simpatia, um aperto de mão, que ele retribuiu com um longo sorriso, um olhar mais brilhante ainda e um longo e suave beijo no rosto.

Ela gostou.

Fechou os olhos. Será que estava apaixonada ?

Não podia acreditar.
Eritânia Brunoro
Rio Branco / AC
A lagoa

Todos os dias pela manhã, ela caminhava às margens da lagoa que ficava próxima à sua casa. Uma paisagem revelava-se tão imponente circundando a região, igualando-se a uma pintura feita a óleo como que saída das mãos de um artista. Era mágico, ela sabia. Sempre que se sentia triste e angustiada, andava por aquele lugar, escutando atentamente aos sons do campo, um pássaro, uma folha caindo, um graveto quebrando ao ser tocado por seus pés. Em dias ensolarados ou em dias de chuva. Essa era a cena que repetia-se.

Em seus passeios, refletia sobre sua vida e os anos que passaram depressa. Ainda era jovem nos seus 35 anos, porém sentia que não havia feito nada de importante. Olhava para trás, para os anos vividos e não encontrava grandes realizações. Era solteira, tinha um bom emprego, alguns amigos que considerava, gostava de ler, escrever, mas não era uma pessoa realmente feliz, sentia-se só. Era uma mulher radical em suas atitudes, muito rígida, cobrava excessivamente dos outros e de si mesma.

Porém, após ter se mudado para o campo por uma temporada, afastara-se do tumultuado cotidiano das grandes cidades, iniciando uma transformação em seus hábitos. Parar para avaliar sua vida em um lugar mais tranquilo, foi a melhor decisão que Lívia poderia ter tomado. Ela era o tipo da mulher que não apreciava pequenos gestos. Mantinha sua atenção voltada para situações mais elaboradas, era perfeccionista e muito exigente. Seu trabalho, estressante, lhe exigia demais. "Não posso, estou sem tempo, muitas coisas para fazer." - essa era a frase que dizia todos os dias ao telefone quando alguma amiga lhe ligava convidando para um passeio. Isolou-se! Não parava para ouvir uma música, o som de um pássaro, nem mesmo para dar um sorriso. E quando esboçava algo parecido com um, é porque a situação lhe obrigava.

Num dos seus passeios matinais, sentou-se à margem da lagoa onde repousavam algumas gaivotas. Deixou-se ficar ali, admirando. Seus pensamentos viajaram para longe, lembrou-se de seus pais, de sua infância e deixou escapar um pensamento: "Eu era feliz e não sabia." Crescer tinha sido difícil, ser adulta então, mais ainda: tomar decisões, conviver com pessoas diferentes, preocupar-se com coisas do dia-a-dia... Os anos passavam depressa e a vida era só aquilo. "O que me falta?" - questionava-se. Falta ser feliz! Mas não é uma felicidade qualquer, necessidade de uma alegria verdadeira, espontânea, sincera. "E onde estaria isso?" - esse era o grande problema.

À beira da lagoa, de água tão clara, começou a perceber o som muito sutil da água se movendo, como uma valsa. Os pássaros, por vezes agitavam-se, e ela, então, sentiu o ardor do sol na sua pele. "Que dia lindo, nem percebi como tudo está tão iluminado hoje." "Faltava magia, era isso! E onde estaria?"

Quando Lívia resolveu levantar-se da grama e retornar para casa, avistou do outro lado da lagoa um homem. "Não me lembro de tê-lo visto aqui." - pensou. Enquanto olhava aquela imagem que mais parecia miragem, ele acenou, virou-se e foi embora. Ela ficou intrigada, não lembrava-se dele. A curiosidade aumentou enquanto andava, era um tipo interessante, alto, cabelos negros. "De repente ele estará aqui amanhã e eu poderei tentar contato."

A rotina alterava-se, pela visão, após aquele dia. Ele não aparecera novamente. Ela agora ia até a lagoa não mais para pensar, e sim, para esperar por alguém que nem mesmo sabia quem era, mas que depertava-lhe certa inquietação. Duas semanas passaram-se e nada. Um dia Lívia estava novamente à beira, atirando pedrinhas na água. Ouviu um barulho, como um arrastar entre folhas secas, ficou terrivelmente paralisada, um medo súbito lhe subiu, "poderia ser uma cobra!", não conseguia se mover. Depois de alguns segundos, num movimento brusco, o ruído aumentando, chegando cada vez mais perto, ela assustou-se e gritou.
- Meu Deus! - respiração forte, toda a adrenalina em seu sangue, quase caiu.
- Perdoe-me. Não queria assustá-la. Você fica muito distraída aqui. Se fosse uma cobra teria lhe picado. - falou o homem segurando seu braço e sorrindo gentilmente. Ela, ainda assustada, olhos arregalados, não pôde dizer nada. Apenas olhar bem dentro dos seus olhos negros.
- Eu não vi você chegar. A propósito, você mora por aqui? - Lívia foi se acalmando e sentando-se na grama e fazendo sinal para que lhe acompanhasse.
- Sim! Mudei a pouco tempo, menos de um mês. Ah! Desculpe-me, eu não me apresentei. Roberto, e o seu? - disse estendo a mão em sinal de cumprimento.
- Lívia! - Apertou sua mão e sentiu um calor subir-lhe. Ele era muito interessante e tinha um olhar diferente.

Inciaram uma conversa que durou horas, sobre tudo, todas as coisas. Ele tinha impressões simples da vida. E à medida que o diálogo ia avançando, parecia que ele a conhecia muito bem. Era como se a desvendasse, mesmo que não dissesse muito sobre si.

- Sou uma pessoa feliz! Olhe à sua volta! Tudo isso que está vendo é motivo para ser muito feliz, quantos momentos assim já teve em sua vida? - ele perguntava e continuava sua explanação. Esse silêncio, esses pássaros, as folhas caindo das árvores, tudo isso Lívia, é mágico. Do que mais você precisa? - ela não sabia ao certo. Você foge do seu passado, esqueça-o! O importante é o que você pode fazer agora por você, e só você pode!

Ela passou uma tarde toda ouvindo ele dizer como a vida podia ser maravilhosa se observasse mais as pequenas coisas. Um estranho, que parecia ser um conhecido de muito tempo, fez sentir a magia dentro de si. À medida que os dias iam passando, percebia como eram importantes as tardes em que observava a paisagem e ouvia Roberto explicar como precisava-se de pouco para ser feliz. Bastava que ela colaborasse consigo mesma, deixasse que as oportunidades chegassem em sua vida, abrindo seus olhos e seu coração.

Aqueles dias foram muito felizes, mágicos. Acreditava que um anjo havia descido à Terra para fazer-lhe companhia. Ao voltar para a cidade, Lívia já não era mais a mesma, e a vida agora fazia todo o sentido.

Este webjornal está sendo enviado para 180.000 leitores cadastrados pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores. Para conhecer outros trabalhos dos autores aqui publicados, acesse nosso site http://www.camarabrasileira.com
1 2 3 4