nº16 - 14 de Julho de 2010
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Seletivas de Julho Seletivas de Junho

Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos
Vol. 68

100 Grandes Poetas Brasileiros
Edição 2010

Contos - Imitação da Vida
Edição 2010

Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos
Vol.67

PLENITUDE
Versos de Encantamento
Edição 2010

"Ab absurdo"
Fé - Misticismo - Fanatismo & Fantasia
Edição 2010
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Autores Contemporâneos em Destaque
Rozelene Furtado de Lima
Teresópolis / RJ


No ritmo do passacale

Sou natureza
Tua presa
Com planícies e montanhas,
Cerrados, ilhas e lagoas
Na sedução tu não me ganhas
Eu oferto e tu me doas
Escalas os picos, passeias no vale
Mapeias no ritmo do passacale
Descortinas o véu
Exibo meu céu
Nadas em mim
Exalo jasmim
Deitas nas pedras
A seiva medra
Sorves nas fontes
Gritas nos montes
Ecoa num rio de paz
Cavaleiro audaz
És minha presa
Sou tua natureza


Danielle Trindade
Rio de Janeiro / RJ


Flor de inverno

Nascida da esperança de viver
Brotaste em solo gelado
Desejando somente crescer

Rosa minha!
Ainda que única
És bela e fria...
És frágil e dura...

Quer olhar para sol
Quer desabrochar
Apenas sensibilizar
Para poder transformar...

Amordaçada pelo frio
Sonha em se libertar
Impedida pelo medo
Vive somente o desejo

Sheilla Liz Cecconello
Curitiba / PR

Os nove


Chego na sombra da figueira. Mantenho as medidas do trampolim na cabeça. O Cabalista já me aguarda na escuridão. Reconheço sua silhueta, parece uma coruja fumegante.
Trampolim. Não posso esquecer. Suas origens respousam na Idade Média, nas performances dos acrobatas de circo. O que preciso lembrar: comprimento de 5 metros, largura 3 e altura: 1. Era com esses números que eu havia sonhado e essa era a regra de ouro: jamais esquecer os números do sonho.
Sou uma Sonhadora. Uma escolhida.
O Cabalista se aproxima soturno. Traga o cigarro. Indago:
-Tem um desse pra mim?
Ele estende maço e fogo. Acendo. A fumaça se estica languidamente. Nicotina balança minhas veias. O Cabalista é frio, parece talhado em gelo. Pergunta zombeteiro e afiado:
-Não tinha parado?
-Depois do que sonhei essa noite, acredite... não é pra qualquer um.
-Quer me contar?
-Você não entenderia, é impossível ser descrito.
-Tente.
O Cabalista têm olhos cinzentos. Olhos de lobo e chuva. Eles me encaram agudos e diante meu silêncio prosseguem:
-Sempre admirei você Sonhadora, dizem que não é fácil... encarar a noite escura da alma.
-E eu nunca entendi você Cabalista. O que faz com os números?
Ele repetiu minhas palavras:
-Você não entenderia, é impossível ser descrito.
A noite parece crua e gotas começam a cair. O Cabalista abaixa apoiando-se no tronco da figueira. Eu me protejo com o capuz da minha jaqueta.
-E agora? Vamos procurar abrigo?
-A árvore nos protejerá da chuva. Vamos ao que interessa. Quais são os números?
Sempre que eu sonhava com números ligava para o Cabalista e marcávamos um encontro. Os números só podiam ser ditos pessoalmente e ele fazia questão de que fossem sempre ali, no palco da portentosa figueira. Eu queria um lugar mais no centro, um cafezinho ou pizza, quem sabe.
-Por que nossos encontros são sempre aqui? Podíamos mudar de cenário, não?
-Você já se colocou no lugar dessa árvore? Ela é centenária! Sempre esteve no mesmo cenário. Nunca se moveu, mas imagina quanta coisa ela viu mudar ao seu redor. Você não precisa sair do lugar para ver algo diferente. Já pensou nisso?
Olho para os grossos galhos. Lembravam uma mão com dezenas de dedos. A chuva para e a árvore chora mais algumas gotas. Parece cansada. O Cabalista continua:
-As coisas nunca são as mesmas menina. Por mais igual que pareçam, é uma equação que tende ao infinito.
Ele acende mais um cigarro, dessa vez a fumaça rola estabanada. Pergunta entre um trago e outro:
-E então? Os números?
-531.
Retira uma caderneta de couro pardacento do bolso. Anota o número cuidadosamente.
-Ótimo guria... muito bom.
Fico admirando a brancura das mãos dele. Sempre quis saber o motivo de nós dois sermos escolhidos. Qual o critério daquela seleção? O que nos tornava diferente dos outros? Nove pessoas. Fomos encontrados pelo Instrutor que ensinou a cada escolhido o que realizar. Nós, os Nove, éramos responsáveis pelo equilíbrio do mundo. Por que o Instrutor nos escolheu?
Quando conheci o Instrutor achei que ele era louco, um pirado completo. Depois ele me mostrou a Essência e tudo mudou. Virou meu guru. Foi ele que me ensinou como percorrer a dimensão do sonho e capturar os números sagrados. Reclamo para o Cabalista minha recompensa por realizar aquele trabalho.
-E então? Onde está? Eu preciso da Essência.
-Calma... não é você que precisa dela. A Essência que precisa de você.
Ele estende o pequeno receptáculo de ônix contendo o que há de melhor nesse mundo. A Essência. Como explicar algo assim? É como se Deus pudesse ser engarrafado.
-O Instrutor disse que deve durar até a próxima lua nova.
Me agarro ao frasco da forma mais delicada que posso. Abro a exótica tampa em formato de gota e cheiro o conteúdo místico. Imediatamente sinto a explosão de orgasmo potencializada alguns megatons. Minha consciência se dilata como uma grande onda e devora tudo ao redor. Toma conta do mundo. Sinto o choro dos inocentes. Ouço a risada mais bela do mundo. Vejo tudo que a figueira viveu. Cada folha que caiu. Cada suspiro dissipado. Depois o tudo deságua em nada numa fração de segundos. A riqueza inominável. O absoluto.
Por um instante sou Deus.


Nena Medeiros
Brasília / DF

Silêncio

Desacerto, desconcerto e as palavras me abandonam
E eu que tinha até jeito com elas fico só sorrindo, muda
Pra preencher o vazio do silêncio que ecoa em meu silêncio
Você fala
Desconcentro, desentendo o abre e fecha dos seus lábios
A sua voz vibra em meu corpo como se eu fosse meio oca
Mas suas palavras fluem soltas sem sentido para mim
Porque me perco na ideia: me perder na sua boca


Odyla Paiva
Rio de Janeiro / RJ

Chuva


Dia chuvoso dá preguiça
Vontade de nada fazer
Ver tevê, ler um livro
Olhar gota a gota descer.

Biscoito recém-cozido
Conversa sem pé nem cabeça
Bolo de fubá bem quentinho
Café fumegando na mesa.

Andar na chuva é lavar a alma
Sentindo prazer sem igual
Chuva no rosto então,
É sensação abissal.

Não fico triste em dia de chuva,
Pelo contrário, me sinto bem.
Momentos preciosos de paz,
Quem se preocupa com quem?

Chuva é bálsamo de alma
É música para embalar
Acarinha os sentidos
E sempre faz sonhar.

Mauricio dos Santos
Paranaguá / PR

Meu vizinho, um lobisomem


O dia transcorreu maravilhosamente bem. Como de costume corri pelo enorme espaço onde se localiza a casa de vovô José, bem ali, na Ilha dos Valadares, atravessando o Rio Itiberê. Somente pelo fato de atravessar o rio, nem parece que eu estou na mesma cidade, em Paranaguá.
Fomos até a plantação de mandioca, colhemos todas as que estavam no ponto, levamos para a cobertura, descascamos, ralamos e colocamos em cestos para deixá-los em descanso no riozinho que passa próximo, uns cinquenta metros da casa. Para tirar o veneno.
Quando a noite chegou todos nos aproximamos do forno onde a mandioca é torrada, virando farinha. Um local bem aconchegante, pois a noite já se fazia bastante fresca, devido à proximidade do final do verão, e a lua cheia, linda, clareava tudo em volta da casa de farinha. Meus pais, meus tios, meus avós em conversa animada estavam a trabalhar, e conversa vai, conversa vem, o meu avô começou a falar de um tal de “seu” Turíbio, que morou numa casa próxima, alguns anos atrás.
– O Turíbio sempre saía à noite, para ir ali na venda do Maneco tomar uns tragos, e voltava logo para casa. Numa noite de lua cheia, o homem demorou um bocado para voltar, a mulher ficou preocupada, e resolveu sair para ver se ele não estava caído pelo caminho. Deparou com um cachorro preto, enorme! Deu meia volta e começou a correr feito doida de volta para casa, sendo alcançada pelo animal, já perto da porta. Ele deu uma bocanhada, alcançado a barra do seu vestido de “chita” vermelha. A mulher conseguiu trancar-se em casa. Depois de algum tempo, o Turíbio volta meio pálido, a mulher perguntou porque ele demorou? A resposta é que a prosa com os amigos estava boa. Ela falou do ataque sofrido pelo cão. Ele esboçou um sorriso, dizendo que isso era pura tolice. Ela viu os fiapos vermelhos presos em seus dentes, não teve dúvidas, ele era o tal. Começou a bolar uma maneira de livrar-se do infeliz. Ou deixá-lo, ou cozinhar o seu cérebro? Noutro dia, a casa estava fechada, nunca mais se ouviu falar do “seu” Turíbio e da esposa.
Não preciso nem contar que naquela noite não consegui dormir. Qualquer barulhinho lá fora fazia com que até as minhas sobrancelhas ficassem arrepiadas.
Não havia entendido bem a história, do porquê todos olhavam para mim e riam aos montões. Será que fiquei tão apavorado assim? Ficou estampado em meu rosto o desespero?
Até hoje, depois de tantos anos, décadas, ainda lembro da história. E nem precisa ser noite de lua cheia.
Vou vivendo a vida com a história do lobisomem na minha cabeça, sem medo ou receio, porque sei que meu avô era um grande contador de histórias.


Marta Trevisol
Frederico Westphalen / RS

 

Angústia

Nem amor, nem sonhos.
Tenho tudo, nada tenho.
Entre as estações
Chuvosas e ensolaradas
Perdi meu amor, perdi para a vida.
Deixei minha historia
Marcada pelo sofrimento
Marcada pela fama
Numa noite chuvosa, com orgulho,
Mágoa incontida, ciúme desmedido.
Amor que sentia quente como o solo do sertão
Seco como o deserto deixou o meu sentimento.
Meu orgulho tomar a decisão
Noite chuvosa vingança sentia.
O sertão do meu coração
Já não mais era seco.
Lágrimas amargas rasgavam minha alma.
Sob o peso de mim mesmo, medo e tristeza.
Deixo meu corpo, depósito infeliz...
Manchado de sangue
Do amante minha amada.
Triste e só, olhava do alto meu corpo.
Depositado no piso molhado...
Enfim,
Foi o início de um infeliz reinício.
De um amor sem sonho...


Sheila Assis
Londrina / PR



Rosa casta

Rosa orvalhada cor de ninfeta
Cheiro de chuva e grama molhada
Quisera ser colibri, borboleta
Quisera ser bolha arada

Rosa cor de rosa sutileza
Desejos efêmeros enraizados
Quisera ser do verde a beleza
Quisera ser a adaga dos caules

Rosa casta de saiotes de seda
Bailarina faceira, quimera poética
Quisera o perfume que a ti aqueda
Quisera o glamour de tua estética

Rosa com colar de esmeraldas
Maquiada de frio e seiva de orvalho
Quisera ser a textura em caldas
Quisera ser do amor o atalho




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