nº10 - 15 de Março de 2010 - 4 páginas
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Novos talentos da Literatura Brasileira Seletivas de Março


Nesta décima edição apresentamos mais doze novos talentos da Literatura Brasileira: Alice Daniel, Bianca Celistre, Elaine Carelli, Jadson Simões, Jurcimá da Penha Soares, Letticia Cecy Correia, Luís Vidal, Mara Rita Guimarães, Maria do Carmo M. Ramos, Regina Souza Vieira, Rubo Medina e Vera Celms.

Estão abertas as inscrições para as seletivas de Março.
Lançamentos em
Maio de 2010:
<< Clique nas capinhas para ver quem já está selecionado.
Participe!!!

Autores Contemporâneos em Destaque

Alice Daniel
Salvador / BA


Borboletas no estômago

ah! essas borboletas...
sentindo a paixão chegar
num alvoroço instigante
rodopiam num instante
teimam em mim voejar

ah! essas borboletas...
ficam em estado de alerta
ansiedade
alma aberta
sentem seu cheiro no ar

ah! essas borboletas...
me fazem apaixonada
e eu que não era nada
de repente o estopim
sinto um frio, um arrepio
desejo você em mim
eu quero assim
nós dois, enfim
Bianca Celistre
Porto Alegre / RS


O que será que ele vê?

O que será que ele vê?
Quando, decifrando-me, olha.
Quando me questiona, curioso.
Quando escuta até meu grito silencioso...
O que será que ele vê?
São apenas membros compridos
E um rápido caminhar...
Imensos olhos inquietos,
Acompanhando o seu olhar.

O que ele vê nessa carcaça cansada,
Ora saltitante, ora destroçada.
Em um segundo, exultante,
Noutro, paralisada.

Apesar de tudo ele vê.
Vê algo que meu espelho omitiu.
Suponho que creia em uma doce menina,
Pois, deveras, sua intuição lhe mentiu.
Enxergo-me sem floreios,
Apenas mais uma dentre tantas mil!

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Saiba o que pensam, o que escrevem e veja seus conselhos para quem está começando.


Zuleide Valente
Santo André / SP


Vicência Maria
Freitas Jaguaribe

Fortaleza / CE


Valéria Victorino
Valle

Anápolis / GO

Jurcimá da Penha Soares
Caldas Novas / GO

Descaminhos


Pela fresta da janela, de estilo colonial, no casarão da rua do Cedro, na Vila de Mangabeiras, da então Província de Goyaz, Luana observa atentamente a vida passar, num estado de aflição que parece não ter fim. Ao lado de sua cama encontra-se um baú de pertences pessoais, que na verdade é mais de recordações do que qualquer outra coisa. Entre as fotos, além do álbum de família, ela vê a foto de casamento de Isabela (sua melhor amiga) com Feliciano, a quem sofria de amores por Luana, desde os tempos em que eram adolescentes. Eles chegaram a namorar, porém não por muito tempo.
Numa época em que a fotografia era muito recente no Brasil, ter uma coleção de fotos era um privilégio de poucos, mas o maior deles, era guardar um pequeno retrato de seu amado. Luana a mais cobiçada entre as belas donzelas daquela região, desde muito cedo recebera promissoras propostas (arranjos) de casamento. Rejeitara todas e também pudera; já na sua infância não era muito de aceitar imposições, embora estivesse sob o jugo de uma rigorosa tradição familiar. Entre os propensos candidatos, apareciam rapazes de boa índole e até aventureiros, mas em seu íntimo jamais deixara se levar por uma conversa e outra.
O destino foi implacável com Luana. Colocou bem na sua frente, Romualdo. Destemido, galanteador e descompromissado com os amores que a vida lhe havia presenteado. Ferreiro, muito requisitado pelas habilidades no seu ofício, nunca se importou em construir um patrimônio e sempre desdenhou as mulheres que tivera. Se existe amor a primeira vista, esse se transformou numa paixão avassaladora. Os dois se viam todos os dias, mesmo que à distância. Na primeira oportunidade que tiveram, selaram esse namoro até então só de olhares, num ardente beijo que parecia eternizar aquele momento único e inesquecível, pelo menos para a sonhadora Luana.
Mesmo sendo jovens maduros, mais pareciam dois adolescentes com juras de amor eterno e planos para um futuro próximo. Dona Mariana no seu coração de mãe temia pela iminente decepção de sua única filha. Por algumas vezes tentou alertá-la, mas para quem acha que está amando a pessoa certa, tudo pode mudar. Sem poder resistir aos encantos do jovem ferreiro, Luana enfim cedeu à sua sedução e tiveram uma noite inesquecível. Para Romualdo, era só mais uma que se entregou aos seus caprichos; já Luana tinha certeza que havia encontrado o amor de sua vida.
Não demorou muito para que a infidelidade de Romualdo viesse à tona. Luana queria tê-lo como seu marido por toda vida. Já preparava os enxovais acreditando nas mirabolantes histórias e incríveis promessas que ele fazia. A moça destemida e à frente de seu tempo, agora se tornara prisioneira de si mesma, por um amor que parecia ter fracassado. Tendo rompido com seu amado, não quisera mais conhecer rapaz nenhum. Cada vez mais se tornara introvertida e reclusa em seu quarto.
As lembranças foram muitas, mas uma delas despertou um profundo arrependimento por aquilo que não fez. Ela estava prometida em casamento a Feliciano, filho do coronel Dantas e de dona Damiana. Por razões da própria personalidade de Luana, ela não aceitou se casar com Feliciano o que abriu caminho para Isabela que era apaixonada por este rapaz, recém promovido na carreira militar e que mesmo sem ainda sentir nada por Isabela em nome da honra e da tradição aceitou casar-se com ela.
A não realização do casamento entre os dois foi motivo de rixas entre o coronel Dantas e o fazendeiro Rufino pai de Luana. Os negócios entre ambos ficaram comprometidos, considerando que casamento em pleno século XIX, estava mais para barganhas do que propriamente dito, um compromisso de amor entre duas pessoas.
Em pouco tempo, Romualdo percebera a ferida que causara no coração de Luana, mas parece que já era tarde demais. Bem que ele tentou por várias vezes falar com ela, e dizer do quanto ele havia aprendido a amá-la. Numa tarde chuvosa, ele foi para debaixo da janela de Luana e disse destemidamente tudo o que sentia por ela.
Num raro momento, ela abriu uma pequena brecha da janela movendo-a para fora, sem mostrar o rosto por inteiro, dando a entender que aceitava o pedido de perdão daquele que havia sido o homem de sua vida. Naquele instante acontecia o reencontro de duas pessoas bem diferentes. Dois caminhos que se cruzaram na mesma rua. Duas vidas apaixonadas, porém separadas, apenas pela fresta de uma janela.

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