Documentário especialmente produzido para jovens pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores
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1958: Uma batida diferente do violão de João Gilberto faz nascer a bossa nova

Nasce, com João Gilberto,
"a música de carpete de apartamento"

Em 1956, no Bar Vilarino, que ficava atrás de uma mercearia, na avenida Graça Aranha (centro do Rio), um rapaz chamado Antonio Carlos Jobim - o Tom - foi apresentado ao diplomata e poeta Vinicius de Moraes. Depois de alguns chopes e empadinhas, ficou decidido que Tom musicaria a peça de Vinicius, Orfeu da Conceição que tinha sido premiada no concurso de teatro do IV Centenário de São Paulo, e que estava sendo adaptada para o cinema pelo francês Marcel Camus. E assim, no dia 25 de setembro desse ano, a peça estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Ao fundo, Castro Neves, Sérgio Ricardo, Ari Barroso e Tom. Em primeiro plano: João Gilberto e Ronaldo Bôscoli (extrema direita).

O primeiro LP de João Gilberto.

Luís Bonfá, 1956


Carlos Lyra, 1959
Vinicius ficou tão empolgado com as composições daquele pianista quase desconhecido, que aceitou escrever letras para suas músicas (Lamento do Morro, Se Todos Fossem Iguais a Você, Um Nome de Mulher etc.) que foram gravadas pela Odeon ainda em 1956, com o cantor Roberto Paiva, o violonista Luís Bonfá e orquestra.
No Vilarino reuniam-se, quase todas as tardes, jovens músicos e intelectuais, entre os quais Irineu Garcia, dono da etiqueta Festa, Luís Jatobá, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e, às vezes, Elizeth Cardoso. "E foi aí, entre bons papos e acaloradas discussões sobre jazz, que nasceu, em abril de 58, o LP Canção do Amor Demais, gravado por Elizeth, com composições de Tom e Vinicius, e com a participação do violonista João Gilberto que, em duas faixas (Chega de Saudade, e Outra Vez) lançou o estilo que viria a caracterizar a bossa nova: a harmonia repleta de acordes alterados, saltos melódicos inesperados com freqüentes modulações, a economia de instrumentos e da duração de cada música, a letra lírica e coloquial, e, acima de tudo, o leve ritmo quaternário com deslocamentos independentes da melodia." (Enciclopédia da Música Brasileira Art Editora, e Marcos Antonio Marcondes)
Na verdade, João Gilberto, baiano de Juazeiro, não era nenhum marinheiro de primeira viagem. Em 1953, a cantora Marisa havia gravado pela RCA Victor uma composição sua: Você Esteve com Meu Bem? E costumava apresentar-se na boate Plaza, onde se reuniam outros nomes que viriam a fazer sucesso, como Johnny Alf, Garoto e Luís Bonfá.
Mas o trabalho de João Gilberto que realmente chamou a atenção do público e causou a maior polêmica, foi um 78 rotações da Odeon, lançado em julho de 1958. De um lado Chega de Saudade(Tom e Vinicius), e do outro Bim-Bom, de sua autoria, que contrastava totalmente com a maneira da época.

Silvinha Telles, 1955


Johnny Alf, 1958
Em novembro do mesmo ano, João Gilberto grava outro 78, com Desafinado (Tom e Newton Mendonça) e Oba-lá-lá, de sua autoria. Desafinado, por sua referência às críticas dos compositores tradicionais ("isso é música pra desafinado cantar") e pela defesa do novo estilo, vira hino do movimento. Nascia assim, oficialmente, em 1958, a bossa nova.
Se João Gilberto foi o "menestrel desse novo canto", outros nomes formaram a linha de frente do movimento: Johnny Alf, Dick Farney, Lúcio Alves e, segundo alguns críticos, também Pixinguinha e Orlando Silva que, em algumas gravações, lembra do "gemedor" Dick Haymes.
Mas, sem dúvida, são alguns jovens universitários, quase meninos, que viriam levar à frente a batalha da bossa nova. Em 1959, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Nara Leão, Chico Feitosa, os irmãos Castro Neves (Oscar, Ico, Zeca e Mário), Carlos Lyra e Silvinha Teles, unem-se a Jão Gilberto, Tom, Vinicius, Alaíde Costa e Baden Powell e lançam o Festival de Samba Moderno, na Faculdade de Arquitetura do Rio de Janeiro.
Com o sucesso dos shows universitários, Ronaldo Bôscoli e Luís Carlos Miele produziram um show, apresentando, no Little Club, Odete Lara acompanhada por Sérgio Mendes e seu conjunto. A seguir, a dupla produziu outros shows no mesmo estilo, com Nara Leão, Silvinha Telles e o Copa Trio, que se transformaram em marca registrada das boates do Beco das Garrafas. Mas, sem dúvida, o grande feito da bossa nova foi o show no Carnegie Hall, em Nova Iorque, onde se apresentaram João Gilberto, Agostinho do Santos, Luís Bonfá e Tom Jobim, para um público de 3.000 pessoas. O crítico norte-americano Leonar Feather comentou a respeito: "A bossa nova foi a maior e mais importante contribuição que o jazz já teve, desde o seu início em Nova Orleans."

Dolores Duran compôs "A Noite do Meu Bem", uma das músicas mais bonitas da MPB

Maysa gravou "Ouça" que, em 4 dias, bateu todos os recordes de venda da época.

A "fossa" também marcou as rodas boêmias brasileiras nos anos 50. Duas, das mais expressivas representantes desse movimento foram Dolores Duran e Maysa.
Ambas morreram prematuramente: Dolores, provavelmente, vítima de uma dose excessiva de barbitúricos, e Maysa, em acidente automobilístico.


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