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Andressa Le Savoldi
Rio de Janeiro / RJ


O pensador

 


Um olhar tênue se espalhava pelo ar, pensativo, encantador... Pude ver quando esse mesmo fixou-se ao meu. Disfarcei como se nada fosse diferente, como se não o houvesse percebido. Mas eu vi.
Passou-se pouco tempo... Aquele mesmo olhar vinha ao meu encontro me levar à um lugar lindo, como o desenho que lhe entreguei em mãos: a sombra de um casal entrelaçado debaixo de um luar, num céu cheio de pontos estrelados, e o mar cuja luz da lua era refletida.
Estava ali, com aquele homem pensativo, ouvindo o jazz tocado no quiosque. Como era agradável aquele momento, quanto mais a presença daquele que me trouxe um sorriso nos lábios, e sim, um raio de esperança no peito. Pois até então, tinha desistido de amar. Eu, que ainda era uma menina.
Quantas desilusões o passado me trouxe. Fechou-me para um mundo só meu, cheio de mistérios, incompreendido. Mas agora, aparece alguém disposto a se entregar de coração. Alguém que desde cedo foi acostumado a montar quebra-cabeças, estava à minha frente para decifrar-me e trazer a luz que um dia era viva em meus olhos. Um homem que simplesmente amava viver! Grande contraste para essa pálida menina que enxergava a si mesma apagada...
Fomos para o píer. Quantos casais sorridentes e apaixonados por ali. Podia-se ver a água movendo-se com o vento, agitada. E ainda, lindamente, o reflexo das luzes sobre ela. Era noite, o céu pouco estrelado. A cidade em perfeito brilho dava o toque final à imagem da Lagoa. Parecia o desenho, o próprio desenho... E ali estava ele e eu.
Falávamos meio que sem jeito, mas sem perder a pose. Só queríamos a aprovação um do outro, até que as palavras foram ficando mais silenciosas e aproximamo-nos... "Espera, preciso tirar o chiclete" afirmei. Ele riu pouco, mas chegou-se mais perto e beijou-me trêmulo, confesso. Não era eu que tremia para tudo? Mas não ali, não àquela hora, não naqueles braços pelos quais me sentia protegida!
Admirávamos aquela maravilhosa cena, quando me dei por conta de que já fazia parte, como todas aquelas pessoas, dos apaixonados pela Lagoa Rodrigo de Freitas. Não havia como evitar, aquele lugar, como aquele homem, trazia paz para minha alma, como um refúgio... "Estamos namorando?" perguntei. Ele riu tanto, mas não me desprezou, disse "Sim" com gosto nos lábios, porque de fato, até hoje, aquela frase faz parte de suas melhores lembranças.
Tudo começou com um olhar... Precisava conhecer-me, descobrir quem era aquela menina que o mexia tanto. Talvez fosse o jeitinho diferente que possuía, ou simplesmente, a curiosidade do que poderia estar detrás daquele olhar doce, que por vezes parecia esconder algo no fundo...
Sei apenas que estávamos vivendo no mesmo lugar sem nunca se quer termos nos notado, até que o Destino escolheu sua hora. E foi pouco tempo, para muito. Pois aquele simples início meio que incerto, desencadeou uma grande história, cheia de emoções...
Foram as palavras que nos uniram, e através delas que nos encontramos! Surgiram como que em resposta a paixão, sem jamais deixarem de ser ditas... Foi assim que ele pode ler-me e eu, entendê-lo.
Trocamos sempre palavras sinceras de amor... Mas descobri que estas nada são sem os atos! Então, demonstrei cada dia o que era isso que ele antes não sabia, até descobrir que pelos seus próprios atos, me amava.
Sempre paciente, enquanto, por meu coração agoniado, punha-me a fugir de todos e de tudo, buscava-me onde estivesse. Um homem que sabia pensar, que soube me conquistar! Homem que, na verdade, pela sua razão, jamais se interessaria por uma menina, mas ali estava, comigo no colo, com todo respeito e abnegação do próprio eu. Pois sabia que de nada adiantaria viver se ao menos não fizesse diferença a alguém! E muito mais... Se não aprendesse (descobrisse) o amor verdadeiro...
Assim esforçou-se para deixar-me livre do quarto em que vivia trancada dia após dia, sem rumo algum. Eu precisava de sol, de uma simples atenção planejada. E esse homem com toda devoção tentou mostrar-me a graça de se viver, fazendo-me sentir-me aceita... E eu, ainda pensava que homens assim não existissem... Mas existem!
Claro que houve momentos pelos quais, tudo parecia acabar-se. Mas eu, olhando para aqueles olhos, mel esverdeados, trazendo tanto de dentro de si através de suas lágrimas, enchia-me de bondade e corria para seu aconchegante abraço. Não poderia deixá-lo só, na verdade, se assim o fizesse, abandonaria a mim mesma. E ele, prometeu jamais me abandonar.
Passou-se um mês. Quando entrei no carro, um gesto simples fez o dia inteiro ter valido a pena; por toda à parte da frente estava um monte de papelinhos grudados nos vidros com mensagens como: "Você e especial", "Um mês, uma história"...
E naquele dia, levou-me para aquele lugar maravilhoso onde tudo havia começado: a Lagoa... Sentamos no píer mais uma vez, como era gostoso aquele vento fresco, mas a noite era o que dava magia ao momento, onde podemos relembrar a parte interessante que a vida nos traz, a de se apaixonar perdidamente e/ou de se viver um grande amor. Felizmente sentimos correr em nossas veias os dois sentimentos como que em igualdade!
O interessante de tudo isso, é que um homem ensinou a uma menina qual era a beleza da vida e como encontrar a felicidade nos pequenos detalhes, nas coisas mais simples.., enquanto uma menina ensinou a um homem que a paixão não era apenas um conto, e que o amor verdadeiro simplesmente existia.
Vivi num mundo em que acreditei que as coisas poderiam se realizar enquanto sonhássemos, mas que estes deviam partir de nós. Sim, mesmo desfalecendo-me com a doença levada em meu próprio sangue, tentava me encontrar dentro de mim mesma. E esperava apenas uma resposta do Céu...
Ele sabia. Mas ainda mais, um enigma... Mais uma peça do quebra-cabeça existente no coração de uma menina secreta, que agora, fazia parte dos tantos que ele já montou... Só que nenhum, nenhum se comparou nem se compara a esse: à profundidade do coração dessa menina, amarela.
O tempo se esgotava como seus próprios pensamentos que agonizavam... Era dele que devia vir a solução para esse enigma, ele devia me entregar o que esperava receber como um ato singelo e que comprovaria esse amor. Mas seu medo, não sabendo o que poderia ser, era, se não conseguisse encaixar a última peça, que eu o deixasse... No entanto, olhou para o Alto em excelência e pediu para que a resposta viesse no que eu lhe entregaria dias antes da determinada resposta, pela qual eu, aguardava ansiosa, mas desconhecia esse pedido. Quando viu o cartão que dei em mãos, seus olhos mais uma vez lacrimejaram... Compreendeu que não bastava pensar, refletir em como formar a imagem peça por peça, se o foco eram meus olhos... Ali, havia uma menina com uma rosa na mão, algo tão singelo e simples para mim mesma; o que me tornara à seus olhos, incrível. Eu só queria uma única rosa branca... Queria que ele me encontrasse...
E ali estava, diante de mim, no momento em que esperava, olhando em meus olhos... aquele homem pensativo, que descobriu a essência daquela menina que desejava apenas um amor não apenas singelo, mas eterno... E este, foi homem para me amar!

 
Autores Brasileiros do III Milênio- Edição Especial - Setembro de 2009