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Bia Weiser
Viena
/ Áustria
O
estranho
Descalço e com andrajos de fardas esfarrapadas, o louco seguia
em passos lentos pelas ruelas daquele povoado. Parecia desconhecer
qualquer ameaça, qualquer retaliação; seguia
calado e com os olhos voltados para um horizonte imaginário.
O sol, causticante, provocou sede. E fazendo jus ao seu direito de
louco, pediu água na primeira casa depois da Matriz. Agenor,
o sábio do lugar, prontificou-se a saciar-lhe:
- Tome, bom homem, a água é bênção
de Deus! E nenhum homem deve negá-la a qualquer dos seus irmãos.
Nem mesmo aos loucos e aos inimigos.
O louco pegou o copo, bebeu tudo de uma só vez, e pediu mais.
Agenor encheu novamente o copo e serviu. O homem bebeu, reservou dois
dedos do líquido e despejou-o sobre a cabeça, sacudindo-a
acintosamente espargindo chuviscos para todos os lados.
- Obrigado, homem de Deus! Você me alimentou para as próximas
cinco léguas.
Agenor, naquele momento, percebeu que não se tratava de um
louco qualquer. Aquele homem tinha alguma coisa para contar, para
falar, alguma coisa para revelar. Resolveu arriscar:
- Para onde está indo o amigo?
- Se eu lhe dissesse que estou indo para lugar nenhum, você
acreditaria?
- Sim... mas o amigo referiu-se às próximas cinco léguas...
E, já que está indo para oeste... lá fica o antigo
cemitério dos escravos... Não existe mais nada por lá
além de túmulos degradados. Só ruínas.
- Ruínas e histórias!
- Mas lá não encontrará ninguém, a quem
irá contá-las?
O louco voltou novamente os olhos para o horizonte perdido, pediu
permissão para sentar-se num tosco e convidativo tronco, à
sombra da parede, ao lado da porta. Agenor assentiu. Ele, pela primeira
vez sorriu.
- E quem lhe disse que estou indo ouvir histórias? Eu estou
indo para contá-las... contá-las àqueles irmãos
que em vida não experimentaram nada mais do que a dor da humilhação.
Agenor pediu-lhe que esperasse por alguns minutos, foi até
a cozinha e trouxe pão, um pedaço de charque cozido
e farinha.
- Tome, o senhor também deve estar com fome.
O louco tomou o pequeno farnel, baixou a cabeça e devorou aquele
alimento com a voracidade de quem há muito não via comida
à sua frente. Agenor, calado, assistia a tudo, e a cada instante
sua curiosidade aumentava a respeito daquele louco com farda esfarrapada.
- O senhor foi militar?
O louco, pela primeira vez, sorriu:
- Não, estas roupas eu peguei num lixão, estava com
frio... Nunca fui militar, nem seria, sou contra armas e guerras.
- Contra armas e guerras?...
- Sim, mas não só contra armas e guerras. Sou contra
a demagogia, não só dos políticos mas da sociedade
em geral, sou contra a imbecilidade de quem repete conceitos sem questioná-los,
sou contra a mediocridade dos arrogantes. Sou contra qualquer ilusão
de poder, contra a ganância, contra a burrice que parece tomar
conta do mundo.
- Burrice?
- Você ouviu bem, burrice! Burrice em achar que alguma coisa,
seja ela qual for, vale mais do que a vida de um ser humano. Burrice,
sim, sem lógica aceitável. Ganância barata, pobre
e inconsequente. Porque só um idiota mata por um bem de consumo
perecível e degradável.
E levantando-se, com a clara imponência de um louco:
- Obrigado pela acolhida! Preciso ir em frente para contar minhas
histórias. No mundo de cá, as pessoas não estão
interessadas em ouvir; querem, sim, ter e acumular, a qualquer custo.
E esta é a minha loucura; não aceito isso, e pronto!
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