Regulamentos Como publicar Lançamentos Quem somos Edições anteriores Como adquirir Entrevistas

 
Antologia on line
 
     
Volta Página Principal
 


Larissa Nascimento Sátiro
Feira de Santana / BA


Um conto novo

 


Eu era uma menina branca. Eu era amarela. Eu andava pelos cantos distraída. O meu pai não me amava. Minha mãe era conivente. Conivente com a falta de amor que ele tinha por mim. E por ela. Minha mãe nem mesmo se amava. E eu não compreendia. Queria fugir pela janela mas não tinha pra onde ir. Minha prisão domiciliar era meu vínculo com a vida. Tudo o que eu sentia era dor e medo. E chorava, angustiada, enjoada, enojada... Teria que haver uma forma, uma maneira de me libertar. De ser liberta.

Na mesa a comida. E era tudo. Eu só queria um gesto de carinho. Mas não havia carinho, não havia filhinha. E pintei o cabelo de vermelho. E me olhei no espelho e me vi sozinha. Sem nada pra me fazer companhia, pois de alguém já havia desistido. Peguei meu melhor vestido, aquele mais curto, com cores e brilhos que já não havia em mim mesma.

Peguei o vestido e vesti minha fantasia. E já não era eu... Era um personagem que eu criei pra fugir da minha realidade dura. Crua. Nua!!! Ou quase nua, saí pra a rua. Eu queria um amor e não achava nunca. Porque meu amor próprio, minha estima por mim mesma a muito se perdera.

Um espantalho eu era. Pra espantar essa dor de fera que rugia no meu peito. O que foi? Era o meu jeito. O meu jeito de espantar a dor. De espantar o medo. De espantar o dissabor de ser...ou não ser. Eis a questão!

Minha irmã mais velha há muito se fora... se fora para a sua própria vida. E não queria me levar com ela porque não podia. Não podia passar por tudo de novo. E porque não entendia. Não entendia o meu dia a dia. Não entendia como doía, como sangrava, como eu temia, como eu gritava calada por socorro. Como eu pedia e precisava da ajuda que eu temia. Eu queria ter coragem pra romper com tudo isso. Tentei jogar fora um dom que me deram quando fui gerada. O dom da vida. O dom de ser amada.

Mas não pude. Porque a chama que vibrava em mim de repente fez pegar fogo em todo o resto e em chamas descobri que queria viver.

Eu li um conto, de uma menina como eu. Ela estava presa numa torre, ela estava presa ao sono por um feitiço, ela comera uma maçã envenenada, ela se perdera na floresta e enfrentava sozinha o lobo mau. Ela foi abandonada pelos pais, ela teve medo. Teve muito medo. Era medo. E eu me sentia aquela menina sem final feliz. Eu não queria um príncipe encantado. Eu queria mais. Queria ficar só. Queria me descobrir.

Não tinha como fugir e até então, por não saber o que fazer, não me mexia. Nem um músculo, nem um piscar de olhos. Eu tinha medo do final da minha história. Até que peguei um lápis e um papel e resolvi que iria escrever meu próprio final.

Comecei por amassar várias folhas, ainda meio sem jeito com as palavras primeiras. Depois comecei pelo mais importante ali. Eu. Minha primeira frase foi: "Eu decidi escrever o final da minha história que está só começando." E daí pra a frente o texto fluía e eu não sabia por onde. Se pelas minhas mãos, se pelo meu coração, se da minha boca, se do meu perdão... Eu já tinha vencido meu maior inimigo. E meu maior inimigo era eu. Eu me venci e venci o mundo. Minha história está só no começo. Mas independentemente de qualquer coisa, ela já tem um fim. Um que eu escolhi. Só preciso agora ir atrás dele. Porque sei que ele está lá, esperando por mim. E ele é mais ou menos assim: "Tudo vai terminar bem. Eu vou sorrir quando sentir vontade de chorar. Vou lembrar de como sou especial, de como fui criada com perfeição, de como sou amada todas as vezes que me disserem que meu esforço foi em vão. Que incrível essa frase. Significa que eu me esforcei. Dei o meu máximo. E isso é o que importa. Fui em busca dos meus objetivos mesmo quando todos disseram pra eu ficar. Eu fui mais longe do que eu pensava. Fui feliz e serei ainda muito mais feliz, mesmo depois desse final. Eu criei meu próprio carnaval. Eu dancei ao som dos tamborins mágicos que sempre ouvi. Eu quis e consegui. Tentei e descobri... que a minha verdade e o meu mundo eram bem maiores e bem melhores pra mim do que as verdades e os mundos dos outros.

E depois disso, tudo o mais era pouco. Eu corri como um louco eu desci as escadas sem corrimão sem medo de cair. Eu fui lá pra ver no que ia dar. Eu "fulana de tal" fui FELIZ! Foi por um tris, mas eu consegui." E assim, escrevi para mim,e só para mim,um conto novo.

Agora,com licença. Preciso ir. Preciso fazer com que tudo isso aconteça. Virar a cabeça. Jogar fora esse mundo banal e partir com tudo. Correr mil léguas mesmo sem saber quanto é que isso dá... Fazer sem me perguntar. Ir além. Vencer. Ser. Ser feliz...

 
Autores Brasileiros do III Milênio- Edição Especial - Setembro de 2009