| |
Vilma
Belfort
Rio
de Janeiro / RJ
Vestido
de baile
Uma simples bainha costura um destino à hora do baile.Esta
é uma história,dentre tantas outras histórias
dos trópicos,sobre um vestido imperfeito. A moça chorava
todas as lágrimas do continente à beira das horas do
baile.Não, não tinha mais tempo,nem o que lhe fosse
dado por todos os deuses. Teria que encontrar naquele átimo,um
gênio para que transformasse seu vestido em glórias.
Percorria de porta em porta,por toda a cidade,e aflita,falava: - “
Eu queria uma bainha no meu vestido,assim que fosse um modelo em curva,ovalada,mas
que apareçam os meus sapatos!”E seus olhos,como que punhais
certeiros fitavam a costureira, galvanizando o futuro da resposta!
“ – Mas,como, em cima da hora, e se eu não souber
fazer a gosto, se eu não souber cortar a bainha do seu vestido,às
vésperas da hora do baile?”
“ – Não quero ter a culpa de estragar o seu vestido”!
E,bateu a porta. Caía,um crepúsculo de Amarílis,
a moça suava de tanto andar,os olhos banidos de esperança,com
as mãos agarradas ao vestido rosa-pálido, como a craca
agarrada ao casco de um navio no fundo do mar. Sentia-se embargada
como uma estrêla-de- neutrino, no odeão daquelas palavras
cruas. Sentia-se, penhorada à existência daquele baile,à
efemeridade de sua alegria perpetuada naquele vestido.
E,assim,a moça com uma romaria de outras moças,se aventuravam
naquela busca à ajudá-la. Sem eira,nem beira,prostrada
com o vestido, já, umedecido por suas luminosas lágrimas
que fulguravam mais que as lantejoulas,as miçangas,os canutilhos,bordados
no fino tulê sobre a sêda rasa.
Mas,uma tesoura de prata e o ápice de uma agulha salva a moça
à hora do baile. Compadecido,uma atemporal pessoa surge como
uma epifania num momento de uma doce aparição! E, então,sartorialmente,disse
para a moça: “ – Eu corto a bainha do seu vestido!”
Um silêncio profundo se instalou, a moça ficou estarrecida,sentindo-se
salva! “ – Mas,o senhor,entende de vestidos, e de baile?”
Perguntou ela,atônita. Aquele senhor, sisudo, realmente não
tinha o cariz de quem entendesse do assunto, e não titubeou
ao respondê-la: “ – Apenas,coloque o vestido sobre
a mesa!” O senhor,então,estendeu o vestido sobre a superfície
do móvel,ajeitando os detalhes da roupa. Arremessou, a fita
métrica sobre os ombros, de quem teria sido um lindo cadete,
ou talvez fosse mesmo um alfaiate, um costureiro, um buteiro, talvez...
Em simetria de gestos, espetava os alfinetes como se espetam estrelas
nos céus, pousando-os languidamente sobre aquele vestido,sob
à mira da romaria de moças. O misterioso senhor da mais
pura alma feminina,cortava a bainha do vestido encantado.Reluzia aquela
tesoura de prata como a paz de suas sinceras mãos.Alinhavava
com a agulha gélida,os últimos detalhes,retoques que
iam tomando forma, o feitio sonhado.
Em compendiosa alegria, a moça experimentou o vestido diante
da cumplicidade do espelho e, já dançava com seu par
à hora do baile.
|
|
|