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Antologia
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Canastra limpa
- Aqui está - me entregando com certa ansiedade o envelope tão branco quanto sua roupa Éramos sete. Sempre fomos sete. Quatro homens e três mulheres, em uma matemática imperfeita, contrariando a Bíblia que tem no sete o número da perfeição. Mas, éramos perfeitos, mesmo com todas as nossas imperfeições, aliás, eram nelas que estavam escondidas toda a nossa magia como grupo, como amigos. Amigos coloridos, todos. Tão coloridos quanto as sete cores do arco-íris, que juntos, misturados, se transformavam em branco, em paz. Todos ali eram completamente apaixonados uns pelos outros, e nessa matemática imperfeita de nós sete, todas as probabilidades de casais - ou quase todas - já haviam sido testadas. Só existia uma coisa mais forte do que a irresistível atração física e cármica que sentíamos um pelo outro. A amizade. Por mais que brigássemos e nos atracássemos, fosse na cama ou na porrada, a amizade no final das contas sempre prevalecia. Sete. Número Primo. Indivisível, a não ser por ele mesmo, ou por um. Era assim que funcionava, sempre foi. As mulheres, as verdadeiras pilares de toda essa relação. O equilíbrio que aquele conjunto de pessoas que se amavam, precisavam. A trinca, o trio, a tríplice, o tripé que nunca deixava tudo desabar. Os homens, a consistência, a matéria que envolvia aquele mesmo tudo. A segurança, a volúpia, a tensão e tesão que faziam deles a soma ideal. Sete. Éramos sete. Por que todo esse mistério com esse número? Eu nunca gostei de sete. Meu negócio é com números redondos, no máximo o 5. Eu odiaria ter nascido no dia 7, ainda mais de setembro. Odiaria ter que dividir o meu dia com a Independência do país. Eu gosto mesmo dos números redondos. Por que as maravilhas do mundo não podem ser oito? Eu adicionaria com facilidade o sorriso dele, como uma das tais e isso me soa tão justo. Muito mais que considerar o Chichen Itza, no México. Muito provavelmente eu nunca vou ver isso na minha vida. Já aquele sorriso. Eu o amava tanto por aquele sorriso. Eu acrescentaria também, uma oitava nota musical. Duvido que qualquer músico se contrariaria de dizer que o "eu te amo" dele, sussurrado, não era uma nota perfeita e completa. Quem era ele? Ele era um dos quatro homens que nos faziam sete. Ele era o mais sereno entre nós - considerando inclusive as mulheres - a calma dele me encantava de uma forma que eu ficaria e ficava mesmo, em silêncio com ele por horas e isso bastava. Era a plenitude do sentimento amor. Era o único mineiro. Calado, observador. Só falava quando tinha certeza que suas palavras fariam alguma diferença e realmente sempre faziam. Lembro-me dele me dizendo quando eu estava triste que eu precisava aprender a rir de mim mesma e eu acabei aprendendo. Tarde demais para ele se orgulhar disso, mas aprendi. Eu sempre me irritava porque ele não levava meus dramas a sério. Só depois de muito tempo eu entendi que aquela era a forma mais doce de me proteger. Minha tristeza se transformava em raiva dele e eu o amava tanto que ele sabia que passaria logo, então eu estava livre de tudo que me fazia sofrer. Entre os casais que tantas vezes foram feitos e desfeitos nessa combinação restrita de sete, nós éramos os únicos que tinham verdadeiramente se encontrado e se encaixado em definitivo. Isso me daria margem para quebrar mais um estigma com o tal número sete, e além de inveja, ira, vaidade, preguiça, gula, avareza e luxúria, eu acrescentaria o ciúmes como um oitavo pecado. Era impossível querer que este sentimento, essencialmente humano, não estivesse presente naquele círculo de convivência. Ainda mais porque o casal era formado pelos dois mais admirados do grupo. Tanto ele, como eu. E eu não me passo por presunçosa em tirar essa conclusão. Nossa amizade é do tipo que não agüenta hipocrisia ou falsa modéstia. Também não era um sinal de superioridade. Era uma questão de oportunidade, de vivência, de maturidade e beleza que faziam de nós dois os mais requisitados em diferentes aspectos. Eu e ele formamos dois. Mas nós sempre fomos sete. Não tínhamos dúvidas de que, se aquele relacionamento, por qualquer situação que fosse, colocasse em perigo aquela amizade, nós abriríamos mão um do outro para ganharmos novamente a maior preciosidade de nossas vidas. Como abrir mão de um coringa para formar a canastra limpa, a que vale mais, as sete cartas na seqüência correta. Mas isso não foi preciso. Quem tem amigos sabe que a amizade é feita de compreensão, cumplicidade e muito amor. Elementos esses suficientes para selar a harmonia naquela nova conjuntura. Éramos sete. Sempre fomos. E, olhando assim, agora, eu nem me importaria se Deus não tivesse parado para descansar no sétimo dia. Eu odeio domingo mesmo. Deus se cansa? Seja que ele cansou de nós em algum momento? Eu me contentaria de bom grado com uma semana que do sábado fosse para a segunda. Eu curtiria as melhores ressacas na aula chata de Teoria da Comunicação e talvez, a sonolência até me ajudaria a compreender aquilo. E eu odeio gatos. Não acharia ruim se eles morressem logo de cara. Sete vidas? Por que para eles e não para nós? Por que para eles? Se nós, humanos, tivéssemos a chance, quem sabe ainda seriamos sete. Nós sempre fomos sete. Por que Deus resolveu descansar quando ele pegou aquela moto? Por que tínhamos que deixar de ser sete? A morte também gosta do sete? Faz sete dias que ele morreu. Nem no enterro nós conseguimos ser seis. De alguma forma sabíamos que os seis estariam e estiveram lá, mas cada um apareceu em um horário diferente. Não fomos capazes de nos olharmos sendo seis. Nós não éramos seis. Éramos sete. Sempre fomos...) - Positivo - disse em voz baixa, entre lágrimas e lembranças. - Parabéns mamãe! - a moça de branco disse feliz Grávida. Dele. Voltaríamos a ser sete. Como sempre fomos. Como éramos. Deus nunca se cansa. |
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Autores Brasileiros do III Milênio- Edição Especial
- Setembro de 2009 |