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Railda Dias
Matão / SP


Flor branca

 


Todas as tardes, mesmo andando pela multidão, sentia-me solitário .Por mais que quisesse não tinha tempo para preencher o vazio que havia em minha alma. Cada pôr-do-sol, cada onda desmanchando na areia, cada flor que via fazia me sentir forte diante dessa solidão.

Os anos foram passando e a solidão aumentando. As experiências adquiridas ao longo desses anos não preencheram esse vazio no meu peito. Sempre me senti um quebra-cabeça faltando uma peça, uma música sem ritmo.

Mas foi numa dessas viagens que sempre fiz que encontrei uma flor branca em cima de um banco. Olhei para ela mas resolvi deixá-la ali, talvez sua dona voltasse para apanhá-la.

Durante a viagem fiquei pensando em quem poderia ter deixado aquela flor. Com certeza seria de uma adolescente ou de uma mulher apaixonada. Cheguei no meu destino e a flor continuava ali. Sua dona não voltou para apanhá-la .Antes de descer daquele trem resolvi pegar e guardá-la no meio da minha agenda. Comecei a não me sentir mais sozinho naquela multidão.

Os anos passaram. Meus cabelos embranqueceram e aquela flor também envelheceu ali no meio da minha agenda.

Todos os dias chegava em minha casa e encontrava a mesa arrumada. Minha ajudante fazia questão de deixar meu jantar pronto antes de ir embora para sua casa. Nunca a encontrava. Minha comunicação com ela era totalmente eletrônica. Contratei-a através de uma agência. Ela já trabalhava para mim havia muitos anos e devido a minha falta de tempo nunca sentei para conversar e conhecer um pouco de sua história. Certamente ela não era tão solitária assim como eu.

Numa véspera de Natal saí e resolvi comprar um presente para ela. Olhei várias coisas mas não encontrei nada porque descobri que realmente não a conhecia de fato. Resolvi ir até minha casa e convidá-la para jantar comigo naquela noite. Ao chegar em casa tive uma surpresa. A mesa não estava arrumada. Chamei-a, mas ela mas não me respondeu. Fui até a cozinha, coisa que nunca fiz e encontrei um diário aberto com as seguintes palavras:

"Naquela tarde de outono, de 1950, deixei naquele banco aquela flor branca, na esperança que algum homem a encontrasse e a guardasse no meio de um belo livro e jamais sentisse tão solitário assim com eu sempre fui."

Não aguentei desabei a chorar.... gritei por ela mas era tarde. Aquela mulher já não estava mais ali. Somente vim a saber seu nome pelo atestado de óbito. Descobri que ela era aquela menina do colégio que sempre amei silenciosamente.

Depois disso tudo que me aconteceu, resolvi dedicar a uma plantação de rosas brancas em homenagem ao meu grande e eterno amor e a essa mulher que dedicou grande parte da sua vida a mim.

 
Autores Brasileiros do III Milênio- Edição Especial - Setembro de 2009