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Edison de Oliveira Lima
Salvador / BA


O cheiro das flores

 


O cheiro das flores recém-depositadas no caixão impregna o ambiente. Há um silêncio sepulcral que se estende da lápide fria ao desbotado âmbar das paredes do necrotério e permeia os semblantes desolados dos presentes. Mas a pergunta recalcitrante espezinha-me os pensamentos:

- De quem se trata?

Quebrando repentinamente o silêncio, um brado ecoa o desespero da mulher envolta em negro véu:

- Ai! Meu Deus. Ainda tão jovem... Ai! Deus, meu Jesus, como vou viver sem ele?

Alguém lhe envolve os ombros e a consola.

- Tenha fé, Melissa, Nosso Senhor precisava dele.

- Eu preciso mais, meu Deus. Ai! Por que logo ele? Ai! Eu também vou morrer...

Silenciosamente chega e para à frente do ataúde um jovem alto e cheio de vida, porém abatido pelo pesar e fita os olhos no defunto; contempla pensativo em despedida ao irmão que jaz à sua frente.

- Quem dera eu pudesse ficar em seu lugar, meu irmão! - Lamenta.

Conhecido, familiar aquele rosto de olhar altruísta.

Pouco a pouco os presentes àquele lúgubre local desfilam frente ao esquife e observam, impotentes, brevemente e uma derradeira vez o rosto pálido do falecido. Em seguida, cerimoniosamente seis dos seus mais íntimos enfileiram-se, três à esquerda e três à direita, apanham a caixa pelas alças, erguendo-o.

Por entre as lápides flui um gélido vento. E vai o cortejo mole mole na direção da urna onde repousará em definitivo.

Surpreso e aterrado, desperta da catalepsia no escuro e dá-se conta de que não sonhara: estivera mesmo ali, inconscientemente percebendo, desde o início, o seu próprio funeral. De quem se trata? Sinto bem pertinho o cheiro das flores.

 
Autores Brasileiros do III Milênio- Edição Especial - Setembro de 2009