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Vicência
Maria Freitas Jaguaribe
Fortaleza
/ CE
Por um trabalho de Penélope
Empurrou a porta como fazia todos os dias, cedinho. Abriu a janela
e deixou que os primeiros raios solares acrescentassem alguns pontos
à rica toalha de labirinto, que estava sendo bordada. Um belo
trabalho de Penélope, a tentar modificar os planos do destino.
Penetrou no quarto do ex-marido - o pai de seus quatro filhos - e
deu-lhe o bom dia meio frio de costume. Ajudou-o a ir ao banheiro
e, após reacomodá-lo na cama, foi à cozinha preparar-lhe
o café. Era essa a sua rotina há mais de dois anos.
Se não fosse por ela ele estaria abandonado, e abandonado morreria.
Pôs a água do café no fogo e olhou para a janela
da sala. A toalha esparramava-se no chão, enquanto a claridade
solar, filtrada pela ramagem do fícus benjamim, desincumbia-se
de seu trabalho diário. Um belo fruto da audácia de
Penélope, a tentar contrariar as determinações
do destino.
Ao voltar do quarto do ex-marido, com os restos do desjejum, experimentou
a sensação de desfalecimento seguido dos arrepios da
febre. Sofria aqueles sintomas há alguns meses, mas escondera-os
dos filhos e dos irmãos. Ninguém sabia - e ninguém
tinha nada com isso - ela se deitara com o Vasco, mesmo depois de
o médico confirmar nele o vírus HIV.
Olhou para a sala de entrada. O sol mudara de posição,
e a bela toalha de labirinto, que há pouco cobria parte do
assoalho de cimento, fora dobrada e esperava pela manhã do
dia seguinte. Um belo produto das mãos de Penélope,
a tentar desviar o curso do destino.
Puxou um cobertor pendurado no varal da pequena área que separava
a cozinha do quintal, cobriu-se e encolheu-se na espreguiçadeira.
Vasco! Vasco e sua irresponsabilidade e arrogância. Vasco e
sua grosseria e desamor. Vasco e seus vícios - suas conquistas,
suas drogas, sua bebida, seu jogo. Vasco e seu autoritarismo e sua
falta de confiança. Vasco e sua Aids. Vasco e sua incontestável
loucura. Vasco e o amor cego, incondicional e inconsequente que ela
sentia por ele. Principalmente esse amor... doentio, obcecado e obsessivo.
Casara-se depois de seis meses de namoro e logo nos primeiros dias
ele revelara-se. A lua de mel fora uma demonstração
inequívoca de que ela - uma jovenzinha delicada e afável;
de traços aristocráticos emoldurados pelos longos cabelos
louros; de corpo esbelto e inteligência vivaz - caíra
nas mãos de um psicopata. Mas caíra é modo de
dizer. Caminhara conscientemente, com seus pés saudáveis,
para aquela armadilha labiríntica. Só decidira pela
separação, depois que os filhos, crescidos e donos de
seus narizes, obrigaram-na a abandoná-lo.
Deixando a casa limpa e o banheiro asseado; uma parte da roupa lavada
e estendida, e a outra parte engomada; comida preparada para o almoço
e para o jantar, foi para casa. Até... até o dia seguinte.
Empurrou a porta como fazia todo dia, cedinho. Abriu a janela e deixou
que os primeiros raios solares reiniciassem o trabalho do dia anterior
- a grande toalha de labirinto iniciada já há alguns
dias. Uma bela tecedura dos dedos de Penélope, a tentar mudar
o rumo do destino.
Uma ordem, porém, da Secretaria de Urbanismo e Obras Públicas
fez cortarem a árvore frondosa, por meio de cuja ramagem eram
filtrados os raios do sol. Sem eles e seus caprichosos desenhos, o
traçado labiríntico da toalha não seria concretizado.
E o processo estaria suspenso. Seria realmente aquela toalha uma réplica
do mágico trabalho de Penélope a evitar que o destino
fechasse seu ciclo?
Sim, estaria suspenso, não fosse a tela protetora da janela,
que definira um outro traçado labiríntico. E os raios
do sol já se preparavam para reiniciar a peça penelopiana,
cujo término, sem dia nem hora previstos, seria anunciado pelo
solene dobre dos sinos da matriz.
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