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Antologia
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Perdoei Abelardo
Nunca duvidei do amor de Abelardo. Um marido dedicado. Trabalhador, correto... Nesses vinte anos de casada, nunca tive desconfiança dele. Briguinhas bobas e comuns a todos os casais, sim, já aconteceram inúmeras vezes. De uns tempos pra cá, Abelardo fez amizade com um sujeito boêmio, piadista, cheio de estórias fantasiosas e bordadas com mentiras, o Paulo. Conhecido como Paulo Serelepe. Abelardo sempre gostou de assistir o jornal das oito, mas com essa amizade nova, passou a sair pra dar umas voltinhas, como diz o amigo: vamos dar umas voltinhas Abelardo, clarear as idéias, esse jornal só passa notícia triste, e agora essa tal de gripe do porco. Nem precisava chamar duas vezes, o sonso do Abelardo, entrava no meu quarto e dizia: Cecí, eu vou dar umas voltinhas. Com o passar do tempo, cada vez voltava mais tarde e passou a sair sem a companhia do amigo. Quando voltava sempre trazia algum presentinho pra mim, coisas que eu gosto. Dizia que caminhou um pouco e resolveu ir ao shopping. Um dia trouxe Estória Sem Data, livro de Machado de Assis que eu comentava sempre que tinha muita vontade de ler. E me trazia presentinhos diversos. Outro dia, ele saiu à tarde e quando retornou eu já estava dormindo. No dia seguinte, ao acordar, me disse que foi com o Paulo visitar um amigo que tinha chegado de viagem. Mais tarde, o Paulo veio aqui em casa e eu perguntei: Paulo, o seu amigo está aqui a passeio ou veio para ficar? E qual não foi minha surpresa, não tinha amigo nenhum. Quando caí em mim, Abelardo já estava muito mudado. Por trabalhar fora, voltava para casa muito cansada, caia na cama e logo dormia. Até que um dia chamei Abelardo e perguntei o que estava acontecendo, por onde ele andava todas as noites? Ele me disse que a rua está cheia de homens que saem à noite e não há nada demais nisso. Concordei e deixei-o a vontade. Abelardo
amanhece espirrando e com febre. Com essa pandemia da gripe, aconselho-o
a ir ao pronto socorro. Lá chegando, é examinado e o
médico diz que é melhor ele ficar em observação.
Deixo-o lá no hospital e venho em casa pegar alguns objetos.
Ele esqueceu o celular no carro. Antes de chegar em casa, o celular
toca. Não atendo. Ao chegar em casa, o celular toca novamente,
resolvo atender e algo passa pela minha cabeça. Atendo rápido. Dois
dias depois Abelardo recebe alta do hospital. Felizmente não
foi a gripe suína. Já em casa, Abelardo pensa que voltará
a rotina de sempre. Ele deita no sofá e tem o pensamento longe.
Resolvo interromper. Prolongar o meu silêncio é muito
sofrimento. Essa
"separação" durou um mês. Perdoei Abelardo
e estamos felizes novamente. Posso ter sido uma boba, mas sigo o exemplo
da minha mãe. Zelo pelo meu lar, pela harmonia da minha família,
mas ficarei mais esperta, se Abelardo me trair de novo, não
haverá mais perdão. Nossa filha está chegando
e estamos felizes. |
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Autores Brasileiros do III Milênio- Edição Especial
- Setembro de 2009 |