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Glória Brandão
Itabuna / BA


Perdoei Abelardo

 


- Boa noite, senhor Renato! Tem álcool em gel?
- Boa noite, dona Cecília, infelizmente, ainda não recebemos. A senhora poderá encontrar na farmácia Saúde.
- Já passei por lá e me informaram que já acabou.
- Mais essa agora, com tantos problemas que já enfrentamos, com tantas doenças de difícil cura e agora vem essa pandemia. Maldita gripe suína!

Nunca duvidei do amor de Abelardo. Um marido dedicado. Trabalhador, correto... Nesses vinte anos de casada, nunca tive desconfiança dele. Briguinhas bobas e comuns a todos os casais, sim, já aconteceram inúmeras vezes. De uns tempos pra cá, Abelardo fez amizade com um sujeito boêmio, piadista, cheio de estórias fantasiosas e bordadas com mentiras, o Paulo. Conhecido como Paulo Serelepe.

Abelardo sempre gostou de assistir o jornal das oito, mas com essa amizade nova, passou a sair pra dar umas voltinhas, como diz o amigo: vamos dar umas voltinhas Abelardo, clarear as idéias, esse jornal só passa notícia triste, e agora essa tal de gripe do porco. Nem precisava chamar duas vezes, o sonso do Abelardo, entrava no meu quarto e dizia: Cecí, eu vou dar umas voltinhas.

Com o passar do tempo, cada vez voltava mais tarde e passou a sair sem a companhia do amigo. Quando voltava sempre trazia algum presentinho pra mim, coisas que eu gosto. Dizia que caminhou um pouco e resolveu ir ao shopping. Um dia trouxe Estória Sem Data, livro de Machado de Assis que eu comentava sempre que tinha muita vontade de ler. E me trazia presentinhos diversos.

Outro dia, ele saiu à tarde e quando retornou eu já estava dormindo. No dia seguinte, ao acordar, me disse que foi com o Paulo visitar um amigo que tinha chegado de viagem. Mais tarde, o Paulo veio aqui em casa e eu perguntei: Paulo, o seu amigo está aqui a passeio ou veio para ficar? E qual não foi minha surpresa, não tinha amigo nenhum. Quando caí em mim, Abelardo já estava muito mudado. Por trabalhar fora, voltava para casa muito cansada, caia na cama e logo dormia. Até que um dia chamei Abelardo e perguntei o que estava acontecendo, por onde ele andava todas as noites? Ele me disse que a rua está cheia de homens que saem à noite e não há nada demais nisso. Concordei e deixei-o a vontade.

Abelardo amanhece espirrando e com febre. Com essa pandemia da gripe, aconselho-o a ir ao pronto socorro. Lá chegando, é examinado e o médico diz que é melhor ele ficar em observação. Deixo-o lá no hospital e venho em casa pegar alguns objetos. Ele esqueceu o celular no carro. Antes de chegar em casa, o celular toca. Não atendo. Ao chegar em casa, o celular toca novamente, resolvo atender e algo passa pela minha cabeça. Atendo rápido.
- Alô!
- Alô, quem está falando?
- Você gostaria de falar com quem moça?
- Eu quero falar com Abelardo!
- Quem gostaria?
- É Vera! Uma amiga dele!
- Aqui é a esposa dele e eu não conheço nenhuma amiga dele com esse nome...
- E aqui é Vera a namorada dele, sua idiota!
Desligo o telefone, perco a noção do que tenho que fazer. Sento no sofá e faço uma viagem mental no comportamento de Abelardo nesses últimos dias. Penso: como confiei nele, mesmo não gostando da amizade dele com o Paulo. Falso! Tomo uma decisão, vou cuidar dele no hospital e na volta para casa vejo o que fazer e o que dizer. Não sei se me sinto forte para esperar ou se me sinto segura o suficiente para ser fria ao lado dele. Decido ser a esposa de sempre. Calada, dedicada, segura... A cópia fiel da minha mãe. Tem mulheres que brigam, que gritam, dizem nomes feios. Eu não conseguiria fazer um escândalo, mesmo com toda dor no meu coração. Abelardo é o meu marido, o homem que eu amo, dou carinho e gosto dos carinhos dele. Seja o que Deus quiser, mas dividir ele com outra não aceito nunca. Junta a preocupação da suspeita da gripe, mas essa Vera que não sai da minha cabeça, fico tensa e mais calada ainda.

Dois dias depois Abelardo recebe alta do hospital. Felizmente não foi a gripe suína. Já em casa, Abelardo pensa que voltará a rotina de sempre. Ele deita no sofá e tem o pensamento longe. Resolvo interromper. Prolongar o meu silêncio é muito sofrimento.
- Abelardo, quem é Vera? Ele dá um salto, senta-se rapidamente, fica pálido, gagueja...
- Não sei quem é. De que Vera você está falando?
- Estou falando da sua namorada. É por isso que você sai todas as noites?
- Calma Cecília! Calma, deve ter sido um trote. Alguma desocupada que gosta de...
- Poupe suas suposições e suas desculpas. Agora, tudo faz sentido. Você estava saindo muito, eu é que fui cega.
Conto pra ele sobre o telefonema e ele abaixa os olhos e confessa sem me olhar:
- É uma amiga do Paulo, mas não tenho nada com ela, foi só uma fraqueza, passou!
Nada mais eu digo, vou para o quarto, arrumo as roupas dele dentro de algumas malas e trago-as para junto dele na sala. Ele não acredita no que vê.
- Abelardo, você pode ir ficar com sua... Acabou!
Volto para o quarto rapidamente. Começo a chorar e não quero que ele me veja chorando. A dor de uma traição é algo muito doloroso. O dia está cinzento, tudo é triste. Que direi a Carlinha? A nossa filha que está estudando na capital ficará muito triste. Abelardo não sai de casa. No final da tarde, entra no nosso quarto com as malas e as desfaz.
- Cecí, me perdoa. Sei que errei, mas será a primeira e ultima vez.
Sinto seu abraço carinhoso, ele seca as minhas lágrimas. Eu peço um tempo pra pensar.
Abelardo passa a dormir em outro quarto. Conversamos muito pouco, e eu tenho vontade de acabar com esse sofrimento, mas reluto. Procuro ler, ver algum filme até o sono chegar, mas tenho vontade é de estar com meu marido na nossa cama.

Essa "separação" durou um mês. Perdoei Abelardo e estamos felizes novamente. Posso ter sido uma boba, mas sigo o exemplo da minha mãe. Zelo pelo meu lar, pela harmonia da minha família, mas ficarei mais esperta, se Abelardo me trair de novo, não haverá mais perdão. Nossa filha está chegando e estamos felizes.
- Vamos Ceci, está quase na hora de Carlinha chegar.
- Já estou indo Abelardo, calma, a rodoviária é tão perto...

 
Autores Brasileiros do III Milênio- Edição Especial - Setembro de 2009