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Silvio
Lima
São
Paulo / SP
Resistência
O lençol branco estava remexido. Travesseiros ao chão
expunham alguém que gostava de flores, uns eram de estampas
de rosas, outros sutis folhas de jasmim.
A cama desfeita estava fazia e no banheiro ouvia-se somente o som
do chuveiro e no ar um frescor de sabonete de fragrâncias campestres.
A casa silenciosa parecia que ainda não acordara e no quintal
apenas o latido do cão brincando com uma bola abandonada por
alguma criança descuidada.
Do acabateiro, única árvore que sobrara de um pomar
de tempos atrás, frutos secos pendiam com o vento, e no chão
outros tantos caídos e não removidos serviam de adubo
à terra fértil.
Aquela moradia, modesta e pintada com tinta à cal, tinha um
quê de familiar e, no entanto, estava ali, no meio de um imenso
quarteirão ocupado por grandes prédios luxuosos e imponentes.
E seus moradores, luxuosos e imponentes, vindos de outras partes da
cidade àquele empreendimento, desconheciam os moradores daquela
modesta casa.
O cão que latia abandonara a bola e se dedicava a um gato persa
que fugira do apartamento 101 como em tantas outras vezes acontecera.
A rua que noutros tempos era de terra e servira de campinho para a
molecada ter seus embates futebolísticos, transformara numa
avenida cheia de bares e um comércio que se especializara em
arranjos de flores. A pequena padaria de tempos passados tornara-se
conhecida por seus pães, doces, bolos e a simpatia de seus
empregados. Tinha nas paredes fotos do bairro e dos antigos donos.
E os novos, seus herdeiros, eram os responsáveis por aquela
mudança fazendo-a capa de uma reportagem sobre as transformações
da cidade.
A pesca, antes feita no rio ali próximo, cedera lugar para
as idas ao supermercado de uma rede estrangeira. E a alameda de casas,
antes ocupadas por imigrantes italianos, deixou de existir para que
se construísse uma estação do metrô
Assim o bairro, como um adolescente que chega a maioridade e assume
seus riscos, transformara-se numa pequena cidade que, como o sangue
que oxigena o corpo durante sua vida, precisava de dedicados cuidados.
O lençol branco remexia na máquina e sobre a cama outro
estava caprichosamente esticado. Os travesseiros, tirados do chão,
repousavam sobre o parapeito da janela para receberem raios de sol.
O som do chuveiro não se ouvia mais, e o cão que se
esquecera do gato resgatado por sua dona, dava pulos de alegria ao
ver Dona Glória, senhora de 90 anos, que nascera e crescera
naquela humilde casa e era a pessoa mais antiga do bairro. E naquele
dia, cuja avenida estava toda enfeitada com flores e bandeirinhas
coloridas, Dona Glória ia ser homenageada na câmara de
vereadores, ocupada por antigos garotos que antes jogavam bola na
rua.
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