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Rogério
Jorge Paulo Ferreira Mendes
Belém
/ PA
Manhã
de chuva
Alguns toques no meu rosto, um pouco fortes, claudicantes, mas sim,
eram mesmo toques. Virei-me. Os toques continuaram, uma risada, havia
um cheiro muito gostoso não sabia o que era. A consciência
voltava muito lentamente, a luz invadindo minhas retinas, demoro a
entender quem sou, onde estou e quem são os estranhos a minha
volta, fui abrindo os olhos, bocejando, me espreguiçando e
vi o sorriso mais lindo deste mundo - quatro dentes numa boca desenhada
com cheiro de leite - mais um tapa na cara, uma mordida na ponta do
nariz e neste momento pude sentir o doce perfume de seu cabelo - não
sei se sabes, mas a experiência nos faz antever os detalhes
que vão nos lembrar de como éramos felizes e este perfume
com certeza vai acompanhar-me até o fim de meus dias - não
há nada tão maravilhoso como senti-lo, estupenda maneira
de acordar, não há dúvida.
Ele começou a conversar, fez milhões de caras e bocas,
estava me explicando algo muito importante numa linguagem altamente
complexa com dezenas de variações de entonação,
eu sabia que devia prestar atenção senão o deixaria
triste, era algo sobre a mãe creio, talvez não, no fundo
era uma fofoca.
Pegou minha mão, tinha pressa para me mostrar do que falava.
Na juventude somos muitos apressados, pois rapidamente esquecemos
do que queríamos e com ele não era nem um pouco diferente,
me levou para o quarto dele segurando com sua mão o meu dedo
indicador, tropeçando a cada passo, falando alto e sem parar
sobre a maravilha que eu veria. Após atravessar a porta parou
girando sobre o próprio corpo em passos afobados de soldado
e ao ficar de frente para a porta olhou para o alto, acima da porta,
apontou com o dedinho e disse: Zezus.
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