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Morgana Gazel
Salvador / BA


Bicho excomungado

 


- Já dei de frente com um bicho desse, cumpade! Ocê num vai acreditar.
- Acredito. Ocê num é home de se gabar à toa. Foi ocê que deu fim nas onça que andava por essas banda!
- Ocê tá ixagerando. Só fiz correr à tapa aquela mardita, lá do cerrado.
- Entonce! Aquela uma contou a surra que levou de ocê pras outras de cá. E todas fugiu. Farejaram seu cheiro, cumpade.
- E foi?
- Apois.
- Pois ouça essa outra história. Vou lhe contar sem entremeio. Essa é de dá frio nos ossos e parar o sopro da vida.
- Conte! Já alimpei meus ouvido.
- Foi também no cerrado. Que boniteza aquele lugar!... De manhãzinha, tinha passarinho de tudo quanto é cor. Tudo cantano!... Um assoviava aquela música maviosa do sanfoneiro Justino. Juro pr'ocê, eu acordava, tava ele no pé de pau, assoviano.
- Acredito. Vi um cantar a Asa Branca. Vá adiante, cumpade. Não quero cortar sua palavra que é de boa fé.
- Já lhe disse, num foi, cumpade?, tem uma cerração braba no cerrado, antes que o dia acorde direitinho. E eu sempre me alevanto antes do dia acordar. Não gosto de ter de encontrar as alma da meia-noite nem de perder a brisa da madrugada. Ocê sabe, não é?... Na meia-noite, as alma passeia, procurano se acasalar. Quem quiser se livrar delas, tem de estar pregado num sono forte, que ninhum barulho consegue abalar. O sono leve é que elas gosta... o sujeito tá na fraqueza, nem bem no céu nem bem na terra... Pra defender meu isprito, é de costume eu ter um dente de alho amarrado na franja da rede. E vou cedo pra cama. Dispois de tomar um trago. Aí tô seguro, pro mode de que, antes que elas chegue, já entrei na escuridão de um mundo fechado, onde ninhuma alma penada consegue entrar. Não é por medo que faço isso não! Ora, eu um home bem apessoado, estudado, um macho com todas as letra, m, a, x, u, não vou dá trela a muié que num tem nadica de nada no corpo. É com muié de carne e osso, que a gente pode pegar e alisar, que eu gasto meu fogo. Por causa de me guardar pra coisa mais conforme com minha macheza, não quero tra-lá-lá, na escuridão, com essas uma do outro mundo. E como durmo com as galinha, acordo antes do sol raiar. Lá no cerrado, assim também era meu proceder. Eu esperava o sol pra apreciar a beleza que saía de trás da brancura do tempo. Antes de se dar esse esperado, parecia que as nuves tivesse engolido a terra. Tudo esfumaçado, com uma fumaça branquinha!... Alguma vez, ela se movia como fiapo. Cheguei a cismar, aqui na minha cabeça, que a brisa podia de ter espalhado, pra todo lado, o algodão do algodoal de sinhá Maria.
Mas então... num dia infortunoso... quando o sol tinha se apeado e a passarada ainda se danava a cantar, fiquei a matutar: "a carne de casa num dá pra dar de comer nem a um pinto... por causa de que não vou caçar? E fui. Peguei minha espingarda bem azeitada... assim que eu gostava de usar a danada. Não queria perder a caça nem dar um tiro mal e deixar o bicho que merece respeito a sofrer.
- Ocê tinha espingarda?!... Pru mode de que num carregava ela, quando deu de cara a cara com a marvada da onça, cumpade?
- Porque me deu esquecimento na cabeça. Aquele branco que tira tudo do miolo da gente.
- Ah, bom! Volte a seu contar. Já estou com um agoniado na boca do estômbago, quereno saber o que se passou com sua pessoa.
- Num se agonize não, home! Já, tá tudo explicado. Como ia dizeno, peguei a espingarda... Eu gostava de dizer que ela era a minha magrinha que num negava fogo. E era. Me dá dó de saber que ficou abandonada naquele lugar enfeitiçado e nunca mais vai ser minha. É dó aqui no peito, como se fosse dor de perder uma muié por quem a gente se arriou. Mas voltano pra o ponto de eu sair... Naquele dia, fui pras banda do riachinho. Lá tem um mato bonito!... dá gosto de ver. Tudo verde, frondoso, as graminha no chão. E tem caça boa de comer: veado, paca, tatu... É só ajeitar a pontaria no olho e no braço - nisso eu sou bom! - e atirar. Aí tem comida pra uma semana inteirinha!... Pois é, entrei no mato divagarinho, escutano, botano os ouvido e o olho no mesmo lugar. De repente, o que vi?... Um veado garbooso, comeno com a paciência de quem num acredita em perigo. Não pestanejei. PAPUM. Lá se foi a bala bem na cabeça do animal. Que vexame, cumpade! Ele sacudiu as oreia e continuou a se refestelar com o capim chão. Que foi isso? O tiro não errei. Cheguei a enxergar a bala entrano na cabeça do disgramado. Ainda bem, que bala eu tinha de sobra. Carreguei a arma outra vez de novo, e mandei ver. O bicho levantou as vista e me olhou... como quem quisesse ver quem atrapaiava sua refeição. Dispois, voltou a comer. Ele paciente, eu teimoso. Não podia deixar aquela vida vencer o meu querer carne, não vida lá nele. Armei minha magrinha, mas porém, quando olhei com o olho junto do cano, vi sem gostar do que via: o danado estava maior! Não me amofinei. Atirei outra vez. Ah, cumpade... é agora que ocê num vai acreditar, pois se eu, cá dentro de mim, num acreditei. O bicho, de vez de cair, agigantou!... do tamanho de uma jabuticabeira... sacudino as oreia: PLAF, PLAF... Joguei a espingarda longe, e perna que te quero, perna que te quero.
Só quando pisei fora do matagal, me prestei atenção. Tinha me servido de penico, sem ter o dito. Minhas carças ficaram encharcada. Num tenho vergonha de contar isso não... diante do excomungado, a coragem se aparta de qualquer um. Mas não parei, "te discunjuro", falava e me benzia, e andava e andava, doido pra me ver bem longe dali.
Graças a Deus dos homes, não dos bicho - esse tava contra mim -, em casa, havia de ter, e tinha, umas foia boa de limpeza que mãe Serafina me passou. Aí tomei um banho com o chá dessas foia. Foi o que me assossegou. Dispois me fartei com as ninharia do de comer, sobras de minhas fome ixagerada. Não voltei mais lá. Por causa desse e outros disconforme, agora prefiro ganhar uns trocado, que dê pra comprar a carne de bicho matado por quem de direito nasceu pra matar.
- Ocê tá pensano certo, cumpade. Neste mundo, cada um tem sua serventia.
- Pois, não é?

 
Autores Brasileiros do III Milênio- Edição Especial - Setembro de 2009