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Paulo
Cesar de Almeida
Andrelândia
/ MG
João
sem o pé de feijão
Secou tudo que era feijão do roçado. João sentiu
que não podia mais resistir a tanto sofrer. Então chorou
um choro seco de quem não acredita que lágrimas afogam
mágoas.
Seca indomável. Dor doída de fome funda. Nem uma avezinha
no céu, nenhuma nuvem sequer. Azul de machucar as vistas. Seca
de arder os olhos. Fome de secar a alma já esturricada por
estiagens antigas.
O chão trincava e João não molhava mais o pé
da cruz de cansado. A cruz também já rachava de seca.
Era o espectro da fome de braços abertos para a morte sem redenção.
A água usada na promessa fazia falta na quartinha. E nem fez
valer.
O gado morrera. Quatro vacas falhadas. Restou Esperança, uma
vaca magra, cria de mamadeira na porta da cozinha. Esperança
vingou, mas secava dia a dia.
"Leva essa bichinha na cidade, João, e vende. Troca em
modo di cumê. A criançada tá que num agüenta
mais. Ou será que tu qué vê fio morto, home?!"
João foi. Vendeu a vaca. Chorou como bezerro na desmama, mas
deixou a bichinha lá na cidade. Com o arrecadado comprou comida.
Voltou calado para casa. Protelou a morte. Passou o tempo. Empurrou
a fome para mais adiante.
Tinha também um rádio de pilha. Presente de casamento.
Foi à cidade e, num repente, vendeu o "radinho".
Trocou por pingo de comida a bem dizer. Foi barato. Barato até.
Quase dado. Valia o dobro pela estimação. A dor já
não foi tão grande como da perda de Esperança.
Comeram o fruto do rádio em piscar de tempo, que o buraco da
fome já era fundo demais e ainda tinha porão. Foi de
valia para viver um tempo mais.
Lá fora, nada de principiar o inverno. Tudo continuava seco.
Mais seco ainda. Esturricado de dar dó.
A filha de treze anos era moça bem formada. Tinha olhos úmidos,
cabelos negros, coxas lisas, cintura feita, tudo. Mesmo magra, dava
bom dinheiro. Era só chegar um trato nela. Uma boca de menos,
concordou a mulher. E filho a gente arranja mais, pensou sem pensar.
João foi, mais a menina. Mãe engoliu em seco na despedida.
Depois chorou. O pai trouxe um saco de comida e a promessa de mais
se a menina não desse trabalho. A dita ficou lá, soluçando,
na casa cor-de-rosa.
Passou mais tempo. Voltou a fome preta e funda. João tomou
resolução. Um gesto final de misericórdia, que
não tinha mais a que ou a quem recorrer. Nem filha, nem Esperança,
nem radinho de pilha, nem outro pertence, nada. Nem o céu dava
resposta a tanta lamúria. Estava longe demais. Sem resmungo,
pegou a imagem da santinha, passou a dita a todos para o último
beijo e voltou à cidade. Vendeu barato, tão pouco que
pareceu pecado. Tinha valido muito mais quando trocou na festa do
Divino. Não sabia se era justo, dispor da santa, depois de
tantos milagres e améns. Comprou um litro de cachaça
e um punhal para vencer o gigante. Tinha que matar a fera. Bebeu muita
coragem e matou o tal sem um gemido sequer, molhando o chão
com o próprio sangue.
Viúva e filhos ainda vivem com a fome que ficou. A saudade
do marido trabalhador e pai amoroso aumenta a cada dia, e nada é
capaz de preencher o buraco que a fome abriu entre o estômago
e o coração.
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