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Rozelene
Furtado de Lima
Teresópolis
/ RJ
A
matilha
Lorde e Condessa viviam juntos, nada os separava. Andavam pelas ruas,
ora lado a lado, ora Condessa à frente e Lorde atrás.
Ele de porte médio, pelo preto liso e brilhoso, ela de porte
pequeno com cor amarronzada com algumas marcas brancas. Os dois de
raça indefinida. Qualquer um conhecedor de cães classificaria
os dois como "tomba latas". Conhecidos por todos os moradores.
Não incomodavam ninguém. Passavam como se estivessem
num desfile, iam pelo cantinho das calçadas, não rosnavam
nem latiam. Comportamento de nobres fazendo jus a seus nomes.
Numa manhã quando cheguei ao açougue, dois cães
pararam na entrada e deitaram num cantinho, eu comentei com o açougueiro:
- Cães de rua é um problema. Ao que ele respondeu: -
Esses dois eu considero como amigos. Chegam aqui às onze horas
todos os dias, deitam e assim que dá uma folga eu dou um pedaço
de carne para cada um, eles olham para mim, pegam a carne comem e
vão embora, é assim todos os dias. - É... Interessante...
comentei.
Alguns dias depois fui fazer uma visita a Rhenna, vizinha da rua paralela
a minha. Quando estávamos conversando ouvimos dois latidos
vindo do portão, ela foi até a cozinha pegou dois pães
abriu o portão e deu um para cada cachorro, eu reconheci os
cães. - Todos os dias às quinze horas em ponto eles
latem e eu dou o pão para eles, são meus amigos.
Em outra ocasião eu os vi na padaria da esquina e o padeiro
alimentava-os. _ Não tenha medo, esses cães vem aqui
sempre no final da tarde, sem fazer confusão. Dou comida e
eles vão embora, são meus fiéis amigos.
Lorde e Condessa sem saber falar nem bajular conquistaram respeito
e amizades sinceras.
Davam oportunidade aos outros de serem bons e de demonstrarem amor
e solidariedade aos animais.
Início de noite quando os cães chegaram à padaria,
o estabelecimento estava com as portas fechadas, um aviso colado à
porta. Não adianta avisos nas portas, cães não
sabem ler.
No clarear do dia seguinte, triste cena: Condessa estirada morta,
Lorde no afã de salvá-la lambia-lhe o sangue, que escorria
de sua frágil cabeça, e uivava baixinho. Quem tentava
chegar perto ele rosnava. E as cenas seguintes foram mais chocantes.
Ele puxava com os dentes o corpo inerte pelo rabo, os carros pararam
admirados com o triste espetáculo, ele conduziu a companheira
ao outro lado da rua até um terreno baldio. Muitas pessoas
que acordaram cedo presenciaram a dor de animal pela perda da sua
fiel amada amiga, a parceira constante que no jogo da amarelinha da
vida dividia com ele o prêmio de ter alguém ao seu lado.
Os animais também amam. Ele arrastou o corpo até um
canto do terreno. Ainda uivando foi cavando um buraco, levou mais
ou menos duas horas cavando, parava lambia a amiga se lamentava e
continuava a cavar. Depois de pronto, puxou o corpo enrijecido até
cair dentro da cova, ajeitou-o e foi jogando terra com as patas traseiras
e só parou quando o corpo ficou totalmente coberto. Alguém
colocou uma vasilha com água a sua frente, ele agradecido saciou
a sede e deitando-se em seguida encima da cova ganindo baixinho. Passou
ali três dias, só aceitava água. Todos consternados
acompanhavam o sofrimento e a solidão de Lorde. Depois, o cão
desapareceu. Ninguém mais viu o Lorde e a Condessa.
Numa tarde cinzenta o vizinho da padaria, que morava sozinho, comentou
com o padeiro: - Aquele dia que a sua mãe faleceu e você
não abriu a padaria, eu cheguei cansado em casa e logo depois
uns cachorros vieram latir e batiam com as patas no meu portão
como se quisessem entrar, ah... eu peguei meu revólver subi
numa escada até a altura do muro, olhei para fora, mirei e
atirei bem na cabeça de um. Pararam de latir e eu dormi até
tarde, pois era a minha folga no dia seguinte, rapaz, eu odeio animais,
cachorros então, já matei um monte. Seu Joaquim suspirou
fundo, passou a mão pela cabeça descendo pelo rosto
e para não perder o cliente calou-se.
Juvelina já morava no bairro há alguns meses. Ela que
sofria de insônia, ia para janela olhar a rua ver o pouco movimento
da madrugada. O prédio de três andares e ela morava em
um apartamento no segundo piso. Ficava exatamente em frente à
padaria. Numa dessas noites insones observou um cachorro atravessando
a rua e indo para o terreno baldio, e depois outro e mais outro contou
uns vinte cães. Preciso ligar para prefeitura amanhã
para pedir que mandem limpar esse terreno, está ficando perigoso,
pensava assim, quando viu um homem alto, parecendo jovem, caminhar
em direção a padaria, e logo a seguir os cachorros sem
fazerem barulho, foram saindo um a um do terreno baldio. Atravessaram
também a rua, e a marquize não deixou que ela visse
mais nada. Não ouviu um barulho sequer, cansada foi dormir
resolvida que no dia seguinte ligaria para pedir a limpeza do terreno
abandonado.
Quando seu Joaquim foi abrir a padaria, ao raiar do dia, deparou com
uma cena horripilante! O vizinho que odiava animais, estava totalmente
dilacerado, braços, mãos, pernas, pés, abdômen
e o pescoço, as únicas partes que não foram mordidas
- a cabeça e o rosto. Parecia ter sido atropelado por um trator.
Ninguém viu ou ouviu nada. Só uma pessoa tinha uma suposta
resposta, a Dona Juvelina, que disse ter visto cães entrarem
e saírem do terreno baldio. Ninguém deu muita atenção
à nova moradora do bairro.
No enterro pouquíssimas pessoas e uma matilha de cães
de várias raças, tipos e portes, distanciada em procissão
silenciosa, seguiu até o término da cerimônia.
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