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Carlos
Eduardo Von Doellinger Manhães
Niterói
/ RJ
O
broche
Guardava com um cuidado e com um carinho aquele broche, que parecia
ser feito do mais puro metal precioso incrustado de pedrarias da antiga
coroa espanhola. Na verdade era bijuteria, antiga, mas bijuteria.
Sua avó havia lhe dado como parte de uma herança de
bugigangas que ela mesmo colecionara durante uma vida.
Certa feita, sua mãe resolveu fazer uma limpa no seu armário,
catar roupas velhas para doar e "coisas inúteis"
para jogar fora. Engraçado que o critério que define
o que é imprestável para um não é para
o outro. Foi nisso que o bicho pegou. E não largou.
- Mããããeeeeeee!!!!!!!!!! Você mexeu
no meu armário?
- Não grita menina! Que coisa! Parece que eu e seu pai não
te demos educação! Mexi menina, tirei umas roupas para
dar e joguei umas bijus velhas fora.
Bastou. Na verdade, a coisa estava esquentando que nem panela de pressão
entre mãe e filha há alguns dias. Desde que a mãe
lhe proibira de encontrar com um menino do terceiro andar do bloco
b, afamado por ser a pedra no sapato do síndico geral, a jovem
estava nos cascos.
- Mãe, não me diz que você jogou aquele broche
que a vovó me deu fora?
- (...)
- Mãe?!?!
- Ué, você falou pra eu não dizer! Eu não
disse! Então?
Os olhos da guria pareciam duas bolas de fogo, prestes a envolver
a mãe e torrá-la. Ficou ali, estupefata um bom par de
minutos, quando do fundo da sua alma brotou-lhe dos olhos lágrimas,
que não só apagaram as labaredas que teimavam em lhe
arder, como acenderam em sua mãe um remorso tremendo.
- Que isso filha, vai chorar por causa de um broche velho de plástico?
E as lágrimas desciam em profusão, os soluços
entrecortavam qualquer tentativa de falar.
- O... bro...che...da...vo...vó.... Buááááááááá!
A mãe já estava a ponto de chamar um médico,
a SAMU, os bombeiros, a NASA, enfim, qualquer um para fazer sua filha
melhorar, quando o interfone tocou.
- Mãe, gritou o mais novo, que assistia, de rabo-de-olho, o
drama da irmã! A vovó tá subindo.
O desespero da filha triplicou, além de chorar começou
a andar de um lado para o outro, falando coisas sem nexo.
- A,i meu Deus, me ajuda! A vovó, a vovó, ai meu Deus
do céu!
Correu para os fundos, revirando os sacos de lixo, parecia um vira-lata
faminto. A mãe a seguiu sem saber o que fazer. Achou melhor
seguir a velha máxima, aquela que diz que louco não
se contraria.
De repente um grito eufórico:"- Achei, achei, achei!"
Entre uma lata de ervilhas e restos de macarrão do almoço
do dia anterior, emergiu meio sujo, mas intacto, o broche. A alegria
era incontida, a menina pulava de alegria.
- Ora veja, que empregada danada, não despachou o lixo de ontem.
Disse a mãe, meio que sem saber se ficava feliz pelo entusiasmo
da filha ou se continuava a procurar no livreto do plano de saúde
um psiquiatra para marcar uma hora para a filha.
Rapidamente a filha limpou o broche e sapecou-lhe no peito.
- Filha, eu...
A campanhia tocou. Era a vovó. A menina atravessou a cozinha
e atirou-se a porta numa velocidade que quase levou a mãe ao
chão. Abriu a porta com um sorriso de canto a canto da boca.
Nem parecia aquele poço de lágrimas e soluços
de minutos antes.
- Oi, vó!
- Oi, minha netinha. Nossa, você esta cada vez maior, uma verdadeira
mocinha! Ora veja, o broche que lhe dei. Você o está
usando, mais que mimo! Já lhe contei que foi com esse broche
que conheci seu avó? Que homem! Vestido naquela farda da marinha,
meu Deus, até hoje fico sem fôlego!
- Verdade, vovó? Disfarçava a adorável netinha,
que na verdade havia escutada a mesma história da boa senhora
uma semana antes.
- Você é um doce, meu bem. Fico admirada do cuidado que
você tem com as coisas que lhe dou. Mostra que você se
importa. Olhe, tome aqui, sei que o que faz é de coração
e que nunca pediu recompensa por isso, mas eu quero lhe fazer um agrado.
Tome este adiantamento da sua mesada.
E estendeu-lhe uma nota de R$ 50,00, que a inocente mocinha a princípio
recusou, e depois, por insistência da vovozinha, aceitou.
- Brigada vó. - Disse num tom brando e delicado. E retirou-se
para o quarto, toda serelepe.
A mãe, refeita do susto e entendo o enredo do drama, fechou
o livrinho do plano de saúde e foi ter uma conversa com a vovozinha
ludibriada. E o irmão, na sala, fingindo-se distraído
pelo videogame, aprendia com o talento da irmã, a artista da
família.
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