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Eder
Mariano Vogado
São
Paulo / SP
O
quarto
Apesar de ser um quarto, a brancura de suas paredes dava-lhe uma pureza
inquestionável. O lençol branco-neve com anjos bordados
na barra o tornava imaculado mais ainda. A imagem de cristo entalhada
no jacarandá posta na parede sobre a cabeceira da cama o deixava
sacro.
O grito contido ao se ver surpreendida por cenas nunca esperadas lhe
cozia por dentro, não os órgãos internos, mas
a própria alma. As imagens, rápidas, lhe passavam pelos
olhos em flashes alucinantes, tirando-lhe as forças das pernas,
tirando-lhe o juízo. Entontecida, ela se apoiou no batente
da porta do quarto para não cair.
Tudo que havia de santificado no quarto diminuía, somente os
dois corpos nus, entrelaçados na cama ganhavam uma dimensão
gigantesca maculando o lençol a ponto dela enxergar os anjos
bordados caírem.
Frenéticos, ora na cama, ora fora dela, eles se davam como
se não se conhecessem, como se para tanto fosse preciso percorrer
todos os poros de seus corpos em uma busca incontrolável ao
prazer supremo, como se uma força descomunal os repelisse e
os atraísse, amiúde, ao mesmo tempo, e no encontro desse
sentido às suas vidas, como se a vida de cada um tivesse sentido
somente pelo físico. Ora as mãos, ora os pés,
dependendo da posição que cada um se encontrava, apoiavam-se
na parede do quarto, a manchando, para que os seus corpos continuassem,
impetuosamente, a se saberem até que pudessem decorar todos
os caminhos neles contidos. Sabendo-se pela superfície, eles
não se conheceriam profundamente.
O quarto havia perdido o seu aroma característico, o sândalo
não mais exalava do incenso, as flores nos vasos murchavam,
secas, ia-se o perfume; uma névoa perceptível apenas
por ela impregnava o ar, irrespirável, com o cheiro de sexo
mundano. Mapeados, os corpos nus exsudavam, aquietados, eles já
se sabiam poro por poro.
O quarto, silencioso, a incomodava. Eles, ainda nus, estirados na
cama de braços abertos, um sobre o outro, mãos coladas,
em plena felicidade, entre risos silentes, se beijavam. As lágrimas
silenciosamente escorreram pelo rosto dela acusando o quanto era doído
vê-lo nos braços de outra mulher, feliz. Ela saiu trôpega
sem apoiar nos móveis para não ser percebida, ao alcançar
a rua, ela perambulou por rumo incerto até se ver diante de
uma igreja. Não entrou, apenas jogou as mãos para o
céu como se esperasse que o céu lhe desse respostas,
mas o céu havia caído aos seus pés. Tentou se
apoiar e não conseguiu, ela não tinha, também,
mais chão. O vazio, tanto intrínseco, como extrínseco,
dava a dimensão do quanto escuro tornou a sua vida.
O azul-escuro tomava o céu para si dando a entender que a noite
estava chegando. Fosse qual hora do dia, no quarto sempre seria noite.
Chegando em casa ela desviou do quarto, mas este a chamava. Ela entrou
e sentiu o mesmo cheiro de sexo mundano, as mesmas manchas estavam
impregnadas em suas paredes. O choro, copioso, em soluços intermitentes
trazia consigo o grito de dor que atravessava as paredes do quarto
e se perdia na noite. Agora, silente, a noite dava significado a si,
em trevas, como se nenhuma vida houvesse. Os ventos característicos
da estação se emudeceram. Os passos do seu marido entrando
em casa quebraram o silêncio da noite. Os dois na cama travavam
consigo mesmo uma luta desesperadora de como um se livrar do outro,
ele para ficar com a amante, ela movida pela vingança. Os dois
teriam como testemunha a noite, e ela veria os dois derrotados.
A morte além de ser a ausência de luz significava o silêncio
eterno. No quarto o silêncio era maior do que o da noite, a
escuridão, ainda mais. Sozinhos entre si, os dois, estranhos
na mesma cama, tinham como companheiro os seus pensamentos. Ela não
sabia se resignava aceitando a traição, ou... Dele qualquer
leitura dos seus pensamentos seria trágico.
A ausência de luz e som agora era mais intensa. Similar à
morte, a noite dava sinal de que não havia vida, como se o
tempo houvesse parado. No quarto parecia ser assim, aparentemente.
O estampido de um tiro fez com que os pássaros na árvore
próxima da janela do quarto batessem asas em um movimento elíptico
ascendente, e refeitos do susto com o mesmo movimento no sentido descendente
voltassem à árvore. A brancura da parede do quarto com
suas manchas de mãos e pés eram cobertas por gotas de
sangue. O cheiro da pólvora permanecia no ar. Quando enfim
se pensava que o silêncio tomaria conta da noite, as gotas de
sangue que tinham cessado de espargir pela parede e perdida a sua
coloração, o vermelho e enegrecida, significando que
o tempo estava tomando o seu curso normal, e que logo amanheceria,
um novo tiro foi ouvido, cobrindo o sangue coagulado na parede com
um novo sangue.
As nuvens matizadas em tons róseo-alaranjadas pelos feixes
de luz solar, a balbúrdia vindo da rua entrando pelo orifício
aberto na janela do quarto quando a bala ricocheteou, anunciava que
estava amanhecendo. Se não fosse pelo barulho externo, no quarto
permaneceria um silêncio eterno, a ausência de luz já
era sempiterna.
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