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Elizabeth Maria Chemin Bodanese
Pato Branco / PR


Lembranças que jamais quero esquecer

 


Neste inverno de 2009, um dia frio, escuro, de chuva fina, quando as nuvens baixas pareciam querer me sufocar, a vida estava triste, veio-me à mente uma passagem na vida de nona Rosa, contada na década de 1980.

Sentada perto do fogão a lenha, nos seus 90 anos, com um pedaço de pão, uma fatia de salame e um copo de vinho, narrou que, em 10 de janeiro de 1920, em Guaporé, Rio Grande do Sul, casou-se com um "bello ragazzo" de nome Fermino.

Pouco tempo depois do casamento, em 1922, durante a Revolução de 22, Fermino foi convocado a servir à Pátria por dois anos. Quando voltou do Quartel, ele e Rosa juntaram um dinheirinho para comprarem terras um lugar chamado Tapir. E para lá foram os dois.

Durante a viagem a pé (pois o único cavalo que tinham carregava alimentação, ferramentas e uma trouxa de roupas), para chegarem ao destino tiveram que subir e descer muitos morros, atravessar pinguelas, enfrentar a chuva, o frio, e por fim, passar se curvando no meio de um taquaral.

Vencida a viagem, na terra adquirida tudo era mato. E ali estavam apenas os dois, Fermino e Rosa, ainda machucados pelos espinhos. Assim mesmo abraçaram-se felizes porque estavam na terra deles.

Terminada a empolgação desse primeiro momento, e todo o tipo de perigos escondidos na mata, o sonho maior era construir uma casa para morar. E construíram. Fermino e Rosa tiveram que serrar os pinheiros, colocar os cepos, pregar e até amarrar com cipó as tábuas formadoras das paredes. As janelas eram duas tábuas que se abriam cada uma para um lado. E o telhado de tabuinhas, foi feito por Rosa.

Depois de a casa pronta, semearam no pequeno chão já carpido durante as horas que seriam para descansar. Na primeira colheita não deu quase nada. Com pena dos dois, um vizinho que morava a uns cinco quilômetros dali, deu a Fermino e Rosa, um pouco de banha e um pedaço de carne de porco. Todos os dias comiam polenta. Quando a farinha de milho faltava, ralavam o milho tirado da roça.

Certo dia, receberam a visita de Theresa, mãe de Fermino. Rosa não tinha comida. O que fazer? Às escondidas, colocou no rio a panela de polenta, uma panela de ferro em que, depois de a polenta tirada, ficava uma casca de farinha de milho grudada. A panela encheu de lambari. Ah, que felicidade! Fez lambari e salada colhida na horta. Então a sogra disse:

- Nossa Rosa! Quanta fartura!

Não sabia ela a dura realidade por que passavam. Realidade compensada pelo desejo de realizar o grande sonho do casal: começar uma nova família.

Nesse lugar nasceram os filhos. Inclusive, Ary, que recebeu do pai o apelido de Poeta, pois o menino, de postura sempre elegante, declamava lindas poesias nos lugares onde passava. Isso era uma honra para o pai Fermino.

Naquele dia, ao redor da mesa, em que vó Rosa contou-me parte da sua história, disse também que por já estar tão velhinha, arrumara um cantinho para ela junto ao túmulo onde jazia o seu amado Fermino. Comprara antecipadamente como provisão, um caixão e a roupa para ser vestida no dia em que morresse.

Depois dessas lembranças, embora o dia continuasse frio, chuvoso, nuvens espessas no céu, senti o coração bater mais forte e a serenidade envolver a minha alma. Peguei um casaco, quebrei totalmente a minha rotina, e saí na chuva. Abri os braços e agradeci aos céus pelas lembranças que tive em um dia em que a melancolia tomara conta de mim. Agradeci a Deus por poder continuar aprendendo enquanto continuo a viver.

A paz tomou conta de mim.

 
Autores Brasileiros do III Milênio- Edição Especial - Julho de 2009