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Márcio
Coutinho Moraes
Porto
Alegre / RS
O
cozinheiro
Deu uma virada radical na sua vida. "Foi uma coisa totalmente
maluca", disse a sua mulher na época. "Um despropósito".
Tentaram dissuadi-lo de todas as formas daquela idéia. Mas
quando viram que estava dando certo, que o dinheiro estava entrando,
e principalmente que ele não se arrependeu e estava satisfeitíssimo,
arrefeceram-se as críticas e começaram a elogiar sua
coragem.
Ele sempre foi resoluto e teve muita iniciativa. Era um cara que gostava
de frequentar bons restaurantes, comendo do bom e do melhor, apreciando
inclusive lanches e pratos simples bem feitos e com qualidade. Ele
era gordo, não obeso, e gostava de beber, mas com moderação.
E toda essa ingestão de calorias, modificara seu corpo. De
um raquítico na adolescência, para um "fofinho",
como ele dizia.
Aos quarenta anos, sendo um bem sucedido administrador
de empresas, resolveu repensar a sua vida. Não estava satisfeito
com seu trabalho. Não lhe dava prazer àquela vida que
antes, logo que iniciou, ou, até antes disso, como já
queria ser como seu pai. Ou melhor, competir com ele. Ser melhor do
que ele. Ganhar mais dinheiro. Fez vários estágios.
Cursou especializações. Era "fera".
Conheceu
sua mulher na faculdade em uma cadeira de cálculo que ele fez
no curso de arquitetura, pois não havia mais vaga no seu curso
para aquele semestre. Sua futura esposa, e também futura arquiteta,
no intervalo da aula, pediu-lhe um cigarro. Começaram a conversar
e se tornaram amigos. Trocaram telefone e passaram a sentar juntos
na sala de aula. No final do curso, já estavam morando juntos.
Ele, trabalhando numa multinacional; ela, numa empresa de decorações
de interiores especializada em cozinhas personalizadas. Não
tinham filhos e nenhum dos dois queria ter. Ela não gostava
de crianças.
Ele começou a exagerar na comida e nos
jantares com os colegas, dizendo que aqueles momentos eram muito prazerosos.
Não tinha dia que ele passasse sem churrasco no almoço
ou no jantar. Eles tinham parado de fumar depois de várias
tentativas frustradas, mas com insistência conseguiram. A sua
mulher tinha sido demitida em função de uma retração
na sua área de serviço, que refletiu em contenção
de gastos na empresa. E sobrou para ela, para a telefonista e uma
secretária. Ela pegou o seu currículo e foi procurar
emprego e, além disso, falou com professores de faculdades
conhecidos seus. Depois de um tempo, foi chamada para dar aula, mas
apenas em um período por semana. Ficou desesperada e, ainda
por cima, seu marido "enlouqueceu". Avisou-lhe que ia largar
o emprego e ia junto com ela para uma cidade balneária, onde
abriria um restaurante. A mulher estava mais desesperada ainda. Falou-lhe
que não tinha cabimento, não era possível, que
ele tinha surtado e que deveria procurar um psiquiatra. Ela pediu
para que os sogros intercedessem. Pediu. Quase chorou. Mas não
teve jeito. Ele disse que tinha uma boa economia e que ela usasse
o seu dinheiro da rescisão da empresa, e que eles iam. Afinal,
ele era o cabeça do casal. O chefe da casa. Ela tinha que o
obedecer. Estava resolvido. E não tinha volta. Ela que ficasse.
Ele já tinha falado com uma cozinheira conhecida dele, e o
marido dela, que era um excelente assador, e eles concordam. Ela ficou
preocupada e perguntou o que ele tinha tratado com eles. Ele não
deu maiores detalhes. Apenas disse que eles iam ser sócios,
e a praia já estava escolhida, só faltava ela decidir
se ia junto. "Ah não. Agora que estou vendo. Tu deve estar
drogado. Não é possível". E ele foi, e ela
ficou. Ele disse: "melhor assim, essa mulher tá muito
chata. Tem medo de aventura. Tá desempregada, ganha uma merreca
dando aula e ainda tá me trancando a vida".
Comprou um
restaurante que há muito estava fechado. E pensou "agora
eu vou juntar o útil ao agradável. Tenho prática
em administrar; e com este local, e dois cozinheiros de mão
cheia, contrato mais um garçom para começar e vou ganhar
dinheiro e comer do melhor. Vou me dar bem".
Passando alguns
dias o restaurante ajeitado e limpo, já em ordem com a fiscalização.
Estoque cheio... e o administrador estava estranhando o movimento
dos concorrentes. No seu restaurante não entrava ninguém.
Passado mais um tempo descobriu que pra ele não tinha vez.
O pessoal era super bairrista e eles não iriam entrar nunca
no seu restaurante.
Voltou para casa "com o rabinho no meio das
pernas". Estava quebrado, mas não ia desistir. Tomou a
decisão de fazer um curso técnico de cozinheiro, à
noite, e durante o dia trabalharia em uma empresa que um amigo da
faculdade lhe conseguiu através de contatos. Ganhava pouco
e trabalhava quase que sem vontade, só o suficiente para não
ser demitido. O padrão de vida do casal baixou muito. Ela já
estava lecionando três períodos da semana.
O curso de
cozinheiro entrou no período dos estágios. E como ele
conhecia vários restaurantes na cidade não foi difícil
estagiar como auxiliar de cozinha. Em seguida, quando terminou o curso,
recebeu uma proposta para ser cozinheiro. Largou sem pensar o emprego
na empresa imobiliária A essa altura sua mulher não
reclamava mais. Estava conformada com a decisão enlouquecida
do marido. Ela começava a melhorar, sendo chamada para trabalhar
em uma empresa, numa cidade bem próxima, onde trabalharia de
dia, e, à noite, dava duas cadeiras, ou seja, três períodos
na semana.
O bom cozinheiro, contradizendo a situação,
estava bem magro e abstêmio. Aventurou-se a dar algumas dicas
na parte burocrática e administrativa do restaurante, e essas
foram aceitas pelo proprietário. O dono do estabelecimento
impressionado com a competência e a versatilidade de seu empregado,
que lhe deu uns proveitosos palpites em aplicações financeiras.
O cozinheiro estava na sua praia, cozinhando, isto é, aperfeiçoando-se
no ofício e, além de tudo, foi convidado a ser sócio
do restaurante. E todos estavam felizes com, e por ele. Sua mulher
ganhava melhor e ele também. Estavam mais felizes profissionalmente
e isso se refletia em sua vida afetiva, apesar de quase não
terem tempo um para o outro. O ex-administrador, que ainda dava umas
sugestões interessantes ao empresário do ramo gastronômico,
aceitou o convite de ser sócio da empresa. Além disso,
propôs que fizessem uma reforma no visual, tornando um pouco
mais sofisticado e aconchegante. Foi aí que ele falou da "arquiteta
que eu tenho lá em casa", que nos ajudará, e, com
certeza, melhorará o estilo do restaurante. E a coisa foi indo
cada vez melhor, e ele atacando em todas as frentes, menos no caixa
e como garçom. Passados alguns meses, após a reforma,
o movimento de clientes foi aumentando, eles resolveram arriscar,
contratando um tecladista para os happy-hour de terças aos
sábados. Deram-se bem. Foi quando o chefe, que estava velho,
teve um infarto e morreu dormindo. O empresário-cozinheiro
resolveu arriscar mais ainda, e comprou a parte do ex-patrão.
Pagou à família herdeira, e decidiu, através
de seus conhecimentos adquiridos neste ramo, sendo cozinheiro e administrador,
tocar a empresa, que ia cada vez melhor. Depois de um tempo, falou
com a sua mulher, que ele queria abrir um outro restaurante, e que
ela fosse trabalhar com ele. Ela que estava novamente desempregada,
resolver abraçar a empreitada. E o que parecia uma loucura
no início, ela teve que concordar com ele que deu muito certo,
e pediu desculpas ao seu marido-cozinheiro-administrador e patrão.
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