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Romulo Jose Ferraz
Cuiabá / MT


Aventuras do Rominho no Rio Mestre Falcão

 


No dia 8/02/1957, desembarca da Lancha Santa Rosa, no porto do Povoado Porto dos Gaúchos, a única família de Minas Gerais. José Dias Ferraz com 48 anos e Geny Prado Ferraz com 39 anos, e seus 8 filhos, Nelson Antonio, 16 anos, Rômulo José, 15 anos, Paulo Roberto, 14 anos, Odilon Francisco, 12 anos, Luiz Carlos, 10 anos, José Augusto, 6 anos, Maria Salete, 4 anos e Paula Francinette, de 2 aninhos.

Quando descemos da Santa Rosa, dava a impressão que estávamos no oeste americano; cada um com cinturão mais bonito que do outro.

No mesmo dia, depois de almoçarmos, fomos encaminhados para uns barracões a dois quilômetros da vila. Para o nosso transporte foi usado um tratorzinho de pneu puxando uma carreta. Não existia outra condução ainda, e ele levou mais de duas horas para fazer esse percurso, pois chovia muito e a estradinha improvisada estava uma lagoa só, e com muitos buracos.

Lá chegando, encontramos quatro barracões cobertos com tábuas em forma de telha e sem parede, a mata encostava nos barracões.

Um desses barracões, nós cercamos e repartimos em cômodos, tudo com pau a pique. Esta foi nossa casa por mais de um ano, pois era mais confortável para minha mãe e as crianças que ainda eram pequenas. Eu, já com 15 anos, me sentia homem; meu pai havia comprado uma espingarda para o meu irmão mais velho e outra para ele. Mas, quem caçava, na verdade, era eu e o Nelson meu irmão mais velho.

Meu pai tinha um revólver, também, então um dia, eu com espingarda no ombro numa volta que estávamos dando dentro da mata, pedi brincando para meu pai me dar a espingarda, pois eu adorava ela. Meu pai disse que daria a espingarda para mim, se prometesse que não deixaria faltar carne em casa nenhum dia.

- É verdade mesmo? - perguntei.

Ele disse que sim, que a espingarda era para mim mesmo, só que estava esperando eu ficar mais velho e maior, pois eu era entisicado e não crescia. Pulei de alegria e prometi que naquele dia mesmo iria buscar uma caça. A fase ruim já tinha passado, pois custou muito matar a minha primeira anta.

Na primeira que apareceu para mim, em vez de acertar a anta, acertei um senhor - Eduardo Shuarts. Foi meio complicado mas depois fiquei amigão dele e dos seus filhos.

A segunda anta, eu atirei na paleta e não corri atrás, por não querer deixar meus irmãozinhos que estavma acompanhando para a escola, morreu no mato.

Muitas outras fugiram por perceber minha presença, e eu ficava sempre flustado, mas, numa manhã de domingo eu tinha ido no barreiro só para caçar pombas pois, as antas só vinham no barreiro à noite e ali estou atrás das pombas quando olhos um vulto vindo pro meu lado, conheci que era anta, e como minha espingarda era uma 36 de dois canos, em um cano já vinha com uma bala calibre 44. Fui obrigado a atirar na cabeça pois ela veio bem de frente, morreu no lugar.

Devo ter matado mais de 100, pois a sobrevivência de todos os pioneiros deste lugar dependia de carne de caça, e a anta é quase do tamanho de uma vaca. Também cacei porcos do mato, veados, cotias, pacas e outras caças como mutum, jacutinga, jacu etc.
T odas essas caças giraram em torno do rio Mestre Falcão.

Os dois lados do rio era barreiro, (um sal mineral composto no barro do barreiro em que os animais silvestres vêm de longe para lamber).

Para ir no barreiro, do lado esquerdo era só atravessar o rio bem em frente da casa do Sr. Carlos. E todas duas margens são em terrenos baixos e planos, e durante quatro meses ficam debaixo d'água por conta das chuvas constantes de dezembro até março. Nesse intervalo os bichos fogem e a caça passa a ser pomba, que mesmo com os rios em enchentes, vêm ao barreiro. Teve dia de matar mais de vinte pombas, uma vez só com um tiro matei oito pombas, elas estavam todas reunidas e atirei com chumbo mostarda.
Esse tipo de mata é que as pombas costumam ficar

Neste pedacinho de terra e água, foi para nós e muitos moradores da região um parque de diversão, começando pela casa do Sr. Carlos Kurtibal que era como se fosse uma sede de clube, pois era ponto de encontro de todos, e dia de sábado e domingo era lotado de gente, principalmente porque o Diretor da Conomale fornecia alimentação, refrigerantes, vinho e às vezes uma cervejinha, tudo isso para agradar os primeiros habitantes de Porto dos Gaúchos. O lugar virou ponto de encontro e ali todos passava o dia todo se divertindo, ora atrás das pombas e outras caças ou se banhando neste rio que era uma delicia. No barreiro, quando clareava, até quase 9 horas era um espetáculo só. Uma sinfonia de todo tipo de pássaros, papagaio e arara de todas espécies, na maior algazarra, as jacutingas piando, os jacus berrando, as pombas chegavam aos milhares em revoadas, conclusão, o céu ficava todo enfeitado, não seria preciso nem ir para caçar, só para ver essa maravilha, e é o que as pessoas faziam mulheres, crianças, idosos, era só atravessar o rio de canoa e andar um pouquinho e já se estava no paraíso.

Por cinco anos a casa do Sr. Carlos foi nosso porto de deixar a canoa, na verdade muitas canoas, pois estávamos sempre renovando no feitio. O rio Mestre Falcão era a nossa estrada, a canoa com dois pares de remos de voga parecia voava de tão veloz, e por muitas vezes fizemos o percurso rio abaixo até a sua barra com o rio Arinos onde íamos para as grandes pescarias. Na beira do Rio Arinos tinha um barreirão, com uma área do tamanho de uma cidade média, e se a pessoa não conhecesse o lugar se perderia porque cada lugar se parecia com outro, não havia caminho certo.

Houve caçadas que fizemos de cinco veados pardos, e uma montoeira dematrinxã, peixe nobre da bacia amazônica. Outra vez foram duas antas, duas pacas, vinte e sete matrixãs, um pintado grande e mais dois trairões.

Era difícil descer o rio Mestre Falcão e voltar sem caça ou pesca. Às vezes, na volta que geralmente era no outro dia cedo, não precisávamos mais de caça e no subir o rio vínhamos encontrando com antas se banhando no rio, capivaras, ariranhas, lontras e até onças, mas deixáva tudo para um segundo plan,o por ter que chegar cedo com a carne para que não estragasse.
...
Outro fato aconteceu, vinte anos depois, tinha uma caminhoneta C-10 da Chevrolet com apenas um ano de uso, e neste tempo trabalhava já era o agrimensor que fazia as locações de estradas em todo o norte de Mato Grosso.

No dia 8/02/1957, desembarca da Lancha Santa Rosa, no porto do Povoado Porto dos Gaúchos, a única família de Minas Gerais. José Dias Ferraz com 48 anos e Geny Prado Ferraz com 39 anos, e seus 8 filhos, Nelson Antonio Ferraz, 16 anos, Rômulo José Ferraz, 15 anos, Paulo Roberto Ferraz 14 anos, Odilon Francisco Ferraz, 12 anos, Luiz Carlos Ferraz, 10 anos, José Augusto Ferraz, 6 anos, Maria Salete Ferraz 4 anos e Paula Francinette Ferraz de 2 aninhos.

Quando descemos da Santa Rosa, dava a impressão que estávamos no oeste americano, cada um com cinturão mais bonito que do outro.

No mesmo dia, depois de almoçarmos, fomos encaminhados para uns barracões a dois quilômetros da vila. Para o nosso transporte foi usado um tratorzinho de pneu puxando uma carreta. Não existia outra condução ainda, e ele levou mais de duas horas para fazer esse percurso, pois ainda estava chovendo muito e a estradinha improvisada estava uma lagoa só, e com muitos buracos.

Lá chegando, encontramos quatro barracões cobertos com tábuas em forma de telha e sem parede, a mata encostava nos barracões.

Um desses barracões, nós cercamos e repartimos em cômodos, tudo com pau a pique, e esta foi nossa casa por mais de um ano, pois era mais confortável para minha mãe e as crianças que ainda eram pequena. Eu, já com 15 anos, me sentia homem; meu pai na vinda para o Mato Grosso comprou uma espingarda para o meu irmão mais velho e uma para ele.
Mas, chegando aqui quem caçava era eu e o Nelson meu irmão mais velho.

Meu pai tinha um revólver, também, então um dia, eu com espingarda no ombro numa volta que estávamos dando dentro da mata, pedi brincando para meu pai me dar a espingarda, pois eu adorava ela. Meu pai disse que daria a espingarda para mim, se prometesse que não deixaria faltar carne em casa nenhum dia.

- É verdade mesmo? - perguntei.

Ele disse que sim, que a espingarda era para mim mesmo, só que estava esperando eu ficar mais velho e maior, pois eu era entisicado e não crescia. Pulei de alegria e prometi que naquele dia mesmo iria buscar uma caça. A fase ruim já tinha passado, pois custou muito matar a minha primeira anta.

Na primeira que apareceu para mim, em vez de acertar a anta, acertei um senhor - Eduardo Shuarts. Foi meio complicado mas depois fiquei amigão dele e dos seus filhos.

A segunda anta, eu atirei na paleta e não corri atrás, por não querer deixar meus irmãozinhos que estavma acompanhando para a escola, morreu no mato.

Muitas outras fugiram por perceber minha presença, e eu ficava sempre flustado, mas, numa manhã de domingo eu tinha ido no barreiro só para caçar pombas pois, as antas só vinham no barreiro à noite e ali estou atrás das pombas quando olhos um vulto vindo pro meu lado, conheci que era anta, e como minha espingarda era uma 36 de dois canos, em um cano já vinha com uma bala calibre 44. Fui obrigado a atirar na cabeça pois ela veio bem de frente, morreu no lugar.

Devo ter matado mais de 100, pois a sobrevivência de todos os pioneiros deste lugar dependia de carne de caça, e a anta é quase do tamanho de uma vaca. Também cacei porcos do mato, veados, cotias, pacas e outras caças como mutum, jacutinga, jacu etc.
T odas essas caças giraram em torno do rio Mestre Falcão.

Os dois lados do rio era barreiro, (um sal mineral composto no barro do barreiro em que os animais silvestres vêm de longe para lamber).

Para ir no barreiro, do lado esquerdo era só atravessar o rio bem em frente da casa do Sr. Carlos. E todas duas margens são em terrenos baixos e planos, e durante quatro meses ficam debaixo d'água por conta das chuvas constantes de dezembro até março. Nesse intervalo os bichos fogem e a caça passa a ser pomba, que mesmo com os rios em enchentes, vêm ao barreiro. Teve dia de matar mais de vinte pombas, uma vez só com um tiro matei oito pombas, elas estavam todas reunidas e atirei com chumbo mostarda. Esse tipo de mata é que as pombas costumam ficar

Neste pedacinho de terra e água, foi para nós e muitos moradores da região um parque de diversão, começando pela casa do Sr. Carlos Kurtibal que era como se fosse uma sede de clube, pois era ponto de encontro de todos, e dia de sábado e domingo era lotado de gente, principalmente porque o Diretor da Conomale fornecia alimentação, refrigerantes, vinho e às vezes uma cervejinha, tudo isso para agradar os primeiros habitantes de Porto dos Gaúchos. O lugar virou ponto de encontro e ali todos passava o dia todo se divertindo, ora atrás das pombas e outras caças ou se banhando neste rio que era uma delicia. No barreiro, quando clareava, até quase 9 horas era um espetáculo só. Uma sinfonia de todo tipo de pássaros, papagaio e arara de todas espécies, na maior algazarra, as jacutingas piando, os jacus berrando, as pombas chegavam aos milhares em revoadas, conclusão, o céu ficava todo enfeitado, não seria preciso nem ir para caçar, só para ver essa maravilha, e é o que as pessoas faziam mulheres, crianças, idosos, era só atravessar o rio de canoa e andar um pouquinho e já se estava no paraíso.

Por cinco anos a casa do Sr. Carlos foi nosso porto de deixar a canoa, na verdade muitas canoas, pois estávamos sempre renovando no feitio. O rio Mestre Falcão era a nossa estrada, a canoa com dois pares de remos de voga parecia voava de tão veloz, e por muitas vezes fizemos o percurso rio abaixo até a sua barra com o rio Arinos onde íamos para as grandes pescarias. Na beira do Rio Arinos tinha um barreirão, com uma área do tamanho de uma cidade média, e se a pessoa não conhecesse o lugar se perderia porque cada lugar se parecia com outro, não havia caminho certo.

Houve caçadas que fizemos de cinco veados pardos, e uma montoeira dematrinxã, peixe nobre da bacia amazônica. Outra vez foram duas antas, duas pacas, vinte e sete matrixãs, um pintado grande e mais dois trairões.

Era difícil descer o rio Mestre Falcão e voltar sem caça ou pesca. Às vezes, na volta que geralmente era no outro dia cedo, não precisávamos mais de caça e no subir o rio vínhamos encontrando com antas se banhando no rio, capivaras, ariranhas, lontras e até onças, mas deixáva tudo para um segundo plan,o por ter que chegar cedo com a carne para que não estragasse.

...

Vinte anos depois, tinha uma caminhoneta C-10 da Chevrolet com apenas um ano de uso, e neste tempo trabalhava como agrimensor fazendo as locações de estradas em todo o norte de Mato Grosso.

Chegada a hora de fazer as locações de estradas de Sinop a Porto dos Gaúchos, e Alto Floresta a Porto dos Gaúchos. Quando estava por perto vinha pousar num hotel em Porto dos Gaúchos e relembrar os momentos que por ali passei. E num dia desses, viajando a 120 quilometros/hora, e justamente chegando no Rio Mestre Falcão, o pivô da roda dianteira soltou e a caminhoneta voou fora da estrada num barranco de cinco metros de altura, só que a caminhota foi amortecida pela lama do rio Mestre Falcão, e nada mais grave aconteceu. No dia seguinte o prefeito mandou um trator para tirar a caminhoneta do barro, trocamos o pivê e ela ficou novinha de novo.

 
Autores Brasileiros do III Milênio- Edição Especial - Julho de 2009