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Julio
Cesar Novaes Ferreira
Pindamonhangaba
/ SP
Uma
pequena aventura
Era década de 1960, e numa cidade do interior de Minas Gerais,
havia um farmacêutico - Sr. Juca-, que era o único meio
de assistência médica que possuíam os habitantes
daquela pequena comunidade. A farmácia era junto à sua
casa, antiga e muito grande. Nos fundos havia um enorme terreno com
uma mata fechada, cortada por um riacho de águas límpidas.
Este terreno fazia divisa com o quintal da casa do Juliano, e aquilo
era um convite ao pequeno menino com seus seis anos. Ele ficava olhando
da varanda que havia nos fundos da sua casa aquela imensidão
de verde com inúmeras árvores frutíferas.
Certo dia, Juliano convidou o seu amigo inseparável, Cezinha,
a se aventurarem por lá, mas lembrou-se dos comentários
de que o Sr. Juca era muito bravo e não admitia que alguém
entrasse no seu terreno sem autorização, coisa que ele
nunca dava a ninguém... Mas mesmo assim eles resolveram ir
caçar passarinho na mata proibida.
O dia era um sábado à tarde, havia chovido muito na
noite anterior e o pequeno riacho que cortava a propriedade estava
um pouco mais cheio que o normal. Seu irmão mais novo queria
ir também, mas depois de uma conversa convincente, ele resolveu
não ir, pois ficou com medo das inúmeras fantasias que
foram colocadas na sua cabeça pelos dois espertinhos: lá
havia bichos enormes, mula-sem-cabeça e tudo o mais que foi
lembrado... Pediram a ele que ficasse tomando conta e assim se pôs
sentado no quintal olhando os dois atravessarem a cerca, num pequeno
morrete que havia na divisa.
Como os arames estavam frouxos, não foi difícil atravessar
a pequena elevação. Logo abaixo, já do outro
lado, dava para ver o riacho cujas águas estavam correndo com
certa velocidade. Foram seguindo a margem até chegarem a uma
árvore caída no leito dele, propiciando uma pinguela
natural. Atravessaram para o outro lado e se deslumbravam com a aventura.
Só o fato de estar ali era algo inimaginável na cabeça
dos dois. A adrenalina estava nas alturas, nunca alguém havia
entrado na mata do Sr. Juca, e aquilo era puro êxtase para eles.
Foram adentrando sem nem mesmo prestar atenção para
onde iam. Tudo era novidade: árvores enormes, mangueiras, jabuticabeiras,
goiabeiras, laranjeiras, coqueiros... E todas que estavam repletas
de frutas, eles se deliciavam. Num certo momento, chegaram próximo
a uma construção, percebendo tarde demais que ali era
os fundos da casa do Sr. Juca... Um olhou para o outro com certo pressentimento
de que algo não ia bem. Resolveram voltar correndo, mas um
cachorro preso numa coleira já havia dado o alarme. Eles saíram
em disparada pela mata, quando ouviram tiros vindo do alto da casa.
O Sr. Juca possuía uma espingarda que tinha como projéteis
bolinhas de sal para espantar os bichos e intrusos que ali resolviam
chegar... E um dos tiros pegou de raspão na perna do Cezinha
que começou a chorar mais de susto do que de dor... E aí
conseguiram chegar até a pinguela, atravessaram-na em um segundo,
chegando até a cerca da divisa por onde entraram...
Estavam exaustos! O irmão do Juliano assustou-se ao vê-los
com cara de espanto. Correram para um tanque que havia na parte baixa
da casa, e o Cezinha com um pouco de água aliviou a queimadura
do sal na perna. Eles se entreolhavam e, depois de alguns minutos,
entraram em delírio, começando a dar risadas, chegando
até a deitar no chão de tanto rir. Mas depois daquele
episódio, nunca mais se atreveram a entrar lá na mata
novamente, ficando somente as lembranças.
Muitos anos mais tarde, depois que o Sr. Juca faleceu, aquela bela
mata foi loteada e destruída para dar lugar às novas
ruas que ali foram rasgadas em nome do progresso que se dizia haver
na cidade.
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