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Jorge da Costa Neves
Penha / SC


Outrora um rei poderoso

 


Sentado em um trono dourado, outrora um rei poderoso, tesouros incalculáveis, terras que iam além do horizonte. Milhares de homens formavam seu exército imbatível. Suas mulheres eram as mais belas e cobiçadas, a tudo possuía e comandava, seu nome era sinônimo de temor, sua figura era imponente: alto, forte e robusto.

Em uma floresta, de pernas cruzadas, um homem nu de olhar penetrante e sereno. O enorme carvalho, às suas costas, servia de abrigo do sol e repouso, usufruía de tudo que havia ao horizonte, mas não era dono de nada, seu semblante denotava paz e amor. O tesouro que distribuía era sua benção e companhia.

Mais uma guerra em andamento, o poderoso rei investe com seu exército a fim de agregar mais uma nação a seu império. Gritos, choros, sonhos e almas despedaçados, nada impede o desejo do rei de conquistar o planeta.

Enquanto isso, o homem nu sorri para si mesmo. Dizem que seu sopro é a respiração do mundo, que onde seus pés tocam, flores desabrocham. Sua presença é um bálsamo para aqueles que o procuram e suas palavras ressoam com a força da verdade.

Destinos que se cruzam, caminhos tão distintos que se encontram por ironia de um ser superior. Avançando com seu imponente exército, tal rei cruza a floresta que abriga o abnegado homem - difícil defini-lo, pois não se esconde atrás de títulos, sua essência é o reflexo que transmite ao mundo.

Certo momento, o rei e seu séquito se deparam com aquele homem - postura ereta, olhos mirando o infinito, semblante inabalável.

- Quem és tu que ousa não se curvar diante de minha presença? Não passas de um mendigo, louco talvez, pois saiba que tudo isto - campos, florestas, vilas - agora tudo isto é meu.

- Há um porém nisto, pois tudo isto sou eu. Cada árvore, grama, animal, inseto, tudo aquilo que abrange sua vista e além, faz parte de mim mesmo. Eu vivo em cada ser, em cada partícula, inclusive sou parte de ti mesmo.

- Vejo que és um lunático, pois saiba que posso cortar tua cabeça e acabar com sua existência.

- Podes cortar minha cabeça, mas não terás minha alma. Meu espírito é livre, usufruo de tudo que há no mundo, mas não estou preso a nada. Não tenho necessidade de ter um exército, pois não tenho nada a defender, estou pleno de segurança e bem-estar. Meu ser está em paz, não preciso de conquistas para afirmar quem eu sou.

E o rei calou-se, ali diante dele estava um homem que não temia a morte, seu maior tormento. Claro que se tornou ao rei que à sua frente um soberano de verdade, pleno de honra, verdade e dignidade.

E tal rei, com seu exército continuou, mas suas conquistas que anteriormente insuflavam seu ego e davam um sentido temporário de viver, já não mais tinham este peso em sua alma, seus tesouros não o satisfaziam mais, todo seu império não saciava sua alma atormentada. Seu sonho maior era tornar-se um deus, mas cada vez mais se sentia como um mendigo.

Foi quando, então, descobriu que havia um mundo imenso a ser conquistado, terras agrestes, selvagens, farta de tesouros incalculáveis, ao mesmo tempo seria uma incursão sem fama, reconhecimento ou prestígio.

Assim, ao encontro de seu mundo interno ele marchou, não mais com um exército, mas só, carregando as armas da compaixão, do perdão, do amor, e da paz. E de sua coroa abdicou, mas um dia com Deus ele se tornou...


 
Autores Brasileiros do III Milênio- Edição Especial - Julho de 2009