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João
Molon Neto
Franco
da Rocha / SP
Demirval,
o policial
Todos os dias Demirval acordava bem cedo, tomava uma ducha bem gelada
para acordar, fazia a barba com capricho, vestia sua farda, tomava
um café bem reforçado, pegava sua mochila do tipo esportiva
e ia pra luta, cumprir seu honroso dever. Demirval era um homem que
gostava muito do que fazia; defender a população contra
os delinquentes o fazia sentir-se útil, e isso o deixava muito
orgulhoso e satisfeito. Demirval morava em um local considerado perigoso,
todos sabiam que ele era policial, afinal sempre ia fardado trabalhar
e nunca havia se intimidado com as frequentes ameaças que recebia
dos vândalos. Todo policial sabe que viver honestamente na corporação
é muito complicado, a barra é pesada, a pressão
é muito grande e a confiança é algo raro, até
mesmo entre os próprios policiais. Policial tem que estar sempre
com o pé atrás, sempre atento, não tem descanso,
não pode baixar a guarda e precisa ter nervos de aço
e coração de ferro, porque sabe que sempre o tentarão
atingir de todos os modos e se possível em sua parte mais sensível,
muitas vezes esta parte é a própria família e
os amigos.
Demirval sempre passava por alguns becos, reconhecia os malandros
de plantão, apenas no olhar, afinal, policial que é
policial sabe distinguir gente honesta de quem não presta,
tem uma intuição, um "feeling" pra coisa,
pode-se dizer. Sempre que ele passava, eles acompanhavam-no pelos
cantos dos olhos; feito ratos, como cobras, sempre se escondendo pelas
sombras, sempre fitando-o, como se fosse um monstro, um inimigo, um
demônio, como se ele fosse um marginal, uma praga que deveria
ser extinta. Demirval por sua vez sempre passava leve por eles, apesar
do peso da responsabilidade que tinha no dia a dia, ele sempre andava
com passos firmes e medidos, cabeça erguida, olhar fixo e sério,
mas nunca desafiador, seu olhar parecia mais como de alguém
equilibrado, sereno e a acima de tudo, feliz por fazer cumprir a justiça,
em ajudar as pessoas que necessitavam de sua proteção.
Dia após dia, muito anos se passaram, mais de 15 anos de trabalho
laboroso, muitas conquistas, honras recebidas, um exemplo de policial
para toda a corporação. Mesmo depois de tantos anos,
Demirval continuava a morar no mesmo local, convivendo com as mesmas
pessoas, cumprindo sempre com o seu dever, nunca se omitindo, em hipótese
alguma, seu nome era ação e seu sobrenome também.
Mesmo quando tinha alguma ocorrência grave perto de sua casa,
lá estava ele, era o primeiro a chegar e o último a
sair, nunca pedia para que seus colegas, intercederem na localidade
onde morava, embora pudesse fazê-lo. Ele enfrentava qualquer
um, mesmo sabendo dos riscos e justamente por isso, adquiriu muito
respeito, tantos dos colegas de trabalho, como dos próprios
marginais.
Um dia uma equipe estava fazendo a ronda na localidade onde Demirval
morava, ele estava de folga nesse dia. Ao se aproximarem de um matagal
encontraram um corpo, ao descerem da Blazer para a averiguação,
os policiais não se contiveram e desataram a chorar compulsivamente,
sim, era ele, Demirval, ele estava seminu, em uma posição
vergonhosa, jogado sobre uma poça de sangue, todo estourado,
com marcas de balas à queima-roupa. Ao examinarem o corpo,
viram que em sua boca colocaram as medalhas que ele recebera em anos
de bons serviços prestados àsociedade, em inúmeros
atos de heroísmo. Uma morte cruel, para um policial tão
valente, de tanto valor, de grande e incomparável caráter,
admirado por todos, ou quase todos, era o fim, o que sobrara além
das lembranças, era seu corpo, mutilado, sendo consumido pelas
bactérias, se deteriorando rapidamente sobre a terra amassada.
Demirval morreu, dias depois três policiais foram presos, expulsos
da polícia e condenados à prisão. Os malandros
nos becos nunca mais viram Demirval passar por lá e talvez
tenham sentido sua falta...
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