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Antologia
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Antúrio: sonho ou pesadelo?
Sou engenheiro agrônomo e me mudei com minha esposa, Ana, meus filhos, Mary e Leo e meu parceiro, também engenheiro, Pedro, amigo do tempo da faculdade. Estávamos ali, atraídos pela alta quantia em dinheiro oferecida por um rico fazendeiro, proprietário da plantação de antúrios. Após o almoço eu e Pedro fomos falar com o senhor Licurgo, o fazendeiro. Estava nos esperando. Conversamos um pouco sobre assuntos banais e por fim, falou da plantação. Disse que herdara de seu pai há muitos anos e se nós conseguíssemos amenizar o problema das flores que não estavam vistosas, receberíamos uma quantia de cem mil reais. Iniciamos as pesquisas na área plantada, mas não encontrávamos nada. O povo contava que todos os engenheiros que trabalhavam na plantação, mais dias, menos dias, apareciam mortos ali com suas famílias, sem nenhuma explicação. Não dei ouvidos e os dias se passaram. Não querendo acreditar, passei a ver vultos em casa, coisas que caíam do nada, passos pelo chão, arrastar de correntes. Pensei estar ficando louco, mas eu não podia ir embora e perder meus cinquenta mil reais. O fato intrigante era que Pedro, Ana e as crianças também estavam vendo aquilo. Ficaríamos ali só até descobrir o problema da plantação, depois voltaríamos para Belo Horizonte. Confesso que tinha medo, mas o sonho e o dinheiro falavam mais alto. Certa vez, estávamos dormindo e de repente os meninos chegaram correndo, me arrepio só de lembrar. Uma luz cintilante os perseguia em redemoinhos, fazia círculos atrás deles. Uma coisa impressionante e assustadora. Ela se rebatia nas paredes, soltava gemidos horripilantes. Amontoamo-nos no canto da cama e aquilo pulava, retorcia tipo que nos expulsando dali. Junto com ela tinham sombras desconhecidas. Pareciam pessoas agonizantes. Algo muito diferente de tudo o que até naquele dia havia ouvido alguém contar. Após quebrar o quarto todo, aquela terrível luz se foi pela porta e tomou rumo ignorado pelos corredores da assombrosa casa. Levou consigo todas aquelas sombras estranhas que adotavam formato de velhos, adultos, jovens, crianças e até mesmo de bebês, que flutuavam em meio a tanta dor. O que mais me assustou foi quando as almas se viraram e em suas costas existia um oco cheio de velas acesas que as preenchiam, semelhantes às mais ardentes profundezas do inferno. Saa uma fumaça com péssimo odor de enxofre. Fiquei pasmo. Algo muito tenebroso e nostálgico. Ficamos ali parados até o amanhecer. Pedi para não comentarem com ninguém. Contei para Pedro o que havia se passado, e então, fomos falar com o senhor Licurgo sobre abandonarmos o trabalho, mas ele dobrou nossa proposta para 200 mil reais. Não pudemos resistir. Aceitamos, mas sabíamos que não podíamos suportar. Relevamos, e todas as noites aquilo sempre aparecia e cada vez com mais brutalidade. Até que um dia aquela coisa deixou um escrito nas costas de Léo: "Vocês serão os próximos". Isso foi o bastante. Minha família corria perigo. Foi então, que junto com Pedro fui falar com um velho padre, Arlindo, e descobrimos que o pai do senhor Licurgo fizera um pacto com o intuito de enriquecer e uma poderosa maldição foi lançada ali. A plantação seria a maior do país e ele o maior produtor, exportando para o mundo todo, mas para que isso acontecesse, para que seus antúrios fossem os mais bonitos e diferentes dos outros, pessoas teriam que pagar por isso, ou seja, a alma de quem soubesse cuidar de antúrio teria que ficar naquele lugar protegendo a plantação. E somente as descendências do senhor Licurgo poderiam acabar com isso e com o fim da maldição a pobreza reinaria sobre aquela família. Fomos correndo até a fazenda falar com o fazendeiro, mas ele não deu ouvidos. O padre várias vezes já tentara falar com ele, mas nada adiantava, até que, com muito custo, ele cedeu e nos confirmou a história. Disse que não poderia deixar de cumprir o pedido de seu pai em leito de morte, que pediu para ele passar aquilo para suas gerações e que ninguém poderia saber o mistério e naquele momento, em meio às paredes daquele arcaico casarão da fazenda, estavam quatro pessoas que sabiam daquilo. Eu, o padre Arlindo, Pedro e o senhor Licurgo. O fazendeiro então disse que as pessoas que soubessem da maldição, exceto ele e o padre, teriam que guardar segredo, caso contrário, não teriam escapatória. Onde quer que eles estivessem seriam perseguidos. O padre estava protegido, pois morava na igreja e andava sempre com acessórios que o protegiam. Fui para casa assustado com o dinheiro dado por senhor Licurgo, peguei minha família e voltamos para BH. Eu sabia que o dinheiro era um sonho, mas minha família significava mais para mim. Mesmo se o senhor Licurgo não tivesse me dado a quantia naquele dia, eu iria embora. Há quarenta anos, trabalho em minha própria fazenda que comprei com os cem mil reais. No início era um sítio e hoje, após tempos de trabalho, se tornou uma grande fazenda. Alguns anos depois fiquei sabendo que Pedro morrera juntamente com mais cinco amigos em Juiz de Fora, após consumir muita bebida e contar sobre Antúrio a eles, mesmo com o aviso de senhor Licurgo. Hoje, com 67 anos, nunca mais voltei em Antúrio. Notícias de lá muito raramente fico sabendo e mesmo assim, só por intermédio de jornais. Guardei essa história para proteger minha vida e as das pessoas que amo, mas hoje aqui sentado nessa cadeira olhando minhas verdes pastagens resolvi contar minha história e a partir deste momento, você leitor acaba de ter o conhecimento sobre Antúrio. Você também sabe o mistério da plantação e assim como aconteceu com Pedro e seus amigos, cuidado, a luz cintilante e suas sombras podem estar vindo ao seu encontro. |
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Autores Brasileiros do III Milênio- Edição Especial
- Julho de 2009 |