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Francisco Maciel de Oliveira Borges Neto
Santos / SP


Cada folha do teu corpo

 


Porque temos o entusiasmo pela literatura e a rinite alérgica em comum, o Eduardo veio ter comigo sobre essa história dos e-books, como ele se referiu aos tais livros eletrônicos. Edu cursa engenharia e trabalha comigo no cartório da Rua Frei Caneca. É um jovem que prefere submeter sua boa aparência na câmera do computador, justificando os qualificativos gabarolas de plugado, antenado e sempre on-line. Alguns dias atrás, com a desenvoltura de um vendedor, Edu palestrou sobre os avanços tecnológicos e as vantagens antialérgicas da novidade. Então me emprestou um exemplar e disse que poderia experimentá-lo a fim de avaliar, com esmero, o baluarte da nova revolução nos meios literários. No ocaso daquela tarde, o jovem minimizou quaisquer dúvidas operacionais que por ventura surgissem, argumentando que tudo no aparelho era óbvio. Enquanto eu segurava o objeto assaz acanhado, examinando-o por todos os lados, ainda vi o estudante subindo a rua com fones no ouvido e teclando convulsamente o telefone celular. Pensei em aproveitar o tempo do trajeto entre as estações Consolação e Saúde do metrô paulistano para estabelecer os primeiros contatos com a literatura eletrônica.

Sentei-me num dos poucos lugares disponíveis no vagão e percebi que foi a primeira vez que contemplei um livro sobre as mãos com certo embaraço. Resolvi, com a cautela dos meus sessenta anos, colocar o indicador direito suavemente num botão vermelho que despontava. Nada aconteceu. Imprimindo mais força, voltei a apertar. Nada. Desferi uns cinco toques sucessivos e ao final emendei uma pressão sustentada e impaciente de alguns segundos, o que acabou por disparar um ruído e irradiar a luz. Lentamente apareceu o bom gosto do Edu estampado em belos caracteres brilhantes: "Vinte contos selecionados de Clarice Lispector". Estava embevecido pelo desejo da leitura quando me deparei, constrangido, tentando abrir as folhas inexistentes do livro inteiriço. Com o olhar oblíquo, constatei que ninguém no vagão percebera meu deslize. Esperei o tempo do traslado entre duas estações para decidir onde deflagraria a próxima incursão digital. Notei que estava confuso e não sabia para onde desejava ir, o que me incomodava deveras. Logo a mim que nunca vacilara na degustação contínua das páginas, por mais labirínticas que se exibissem. Costumava ir ao final apenas para mentalizar, por simples hábito, o último número do rodapé. Dissimulando a aflição, cliquei em qualquer tecla para fugir daquela situação e acabei caindo no prefácio. Definitivamente eu detesto prefácios, com exceção àqueles escritos pelo próprio autor e comportados como uma palavrinha descontraída, o que sempre fora uma raridade. Tentei me desvencilhar da página e o prefácio só fazia piscar, piscar e piscar, acompanhado de um ruído enfadonho. O anúncio da chegada à estação Ana Rosa, onde faço a baldeação, soou como um alívio do meu estado arrevesado.

Parcialmente recuperado e acomodado em outro vagão, descobri alguns botões inusitados que se escondiam na plataforma literária. Apertei um deles e a página ficou cortada ao meio, como se fosse possível ver as metades da frente e do verso, uma embaixo da outra, ainda no maldito prefácio. Aventei a possibilidade de ir para o índice, pois geralmente também se encontra no começo e eu apreciaria a seleção dos contos. Mas novamente me peguei roçando as unhas ao tentar abrir as supostas folhas do livro hermético. Desta vez me pareceu que, após um sorriso mal encoberto, um rapazote cochichou à sua namorada o meu vexame. Fiquei aborrecido e acabei contribuindo para aumentar a pilhéria, ao aplicar um tapa na tela como se estivesse fechando bruscamente o livro pela capa. O zombeteiro e a namorada já se riam de mim sem disfarçar. Meu nervosismo galgava num círculo vicioso e resolvi voltar a apertar o botão vermelho de várias maneiras com a intenção de desligar aquela joça. Nada aconteceu. Encolerizado, apertei de maneira quase simultânea em tudo que era possível, o que fez surgir na tela algo semelhante ao antes desejado índice, mas com uma mensagem de erro piscante em letras graves e maiúsculas: impossível realizar a ação. Esquivando-se do piscar do alarme extravagante e ininterrupto, identifiquei uma pequena lista de contos em enunciados disformes. Bastante preocupado, lembrei que o título prometia vinte contos e conclui que deveria ter acontecido um sério problema eletrônico, mas que resolveria outra hora, pois havíamos chegado à estação Saúde do metrô. Enquanto o vagão desacelerava, alisei o livro com os dedos numa tentativa reconciliadora, esperando pela sensação que a textura me causaria... Meu Deus! Clarice jamais mereceu tamanha indiferença.

Ainda com o trambolho ligado, embaixo do braço, segui o caminho de casa enleado por uma sucessão de reminiscências. Ah! Minha primeira namorada! Sim, para os meus olhos o verdadeiro livro é um ente feminino. A capa deslumbrante e firme predominando o batom escarlate nas bochechas coradas. O nome anunciado em volutas reluzentes, envolventes fios de cabelos cacheados e dourados. O corpo vívido lentamente desnudado, em toques discretos, furtivos, perpassando página a página as desconcertantes veredas da obra-prima. A lombada aprumada no colo aconchegante, permitindo às mãos o tatear da maciez e aos olhos a visão da pele exuberantemente tatuada com centenas de versos sedutores. Ah!... Com quanta cumplicidade nos encontramos e vivemos todas as vicissitudes da alma: a razão última do nosso enlevo literário. Enfim, abri a porta de casa e fui ao seu encontro.

Passadas as décadas, hoje ela traz o rosto crestado e a pele amarelecida que ainda destilam a mesma beleza inveterada de sempre, a beleza de uma dama que jamais me arrancou um espirro, mas muitos, muitos suspiros...


 
Autores Brasileiros do III Milênio- Edição Especial - Julho de 2009