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Laly
Cataguases
Belo
Horizonte / MG
O
par ímpar
O café da manhã era o horário preferido para
o Doutor João e o Cabo Madureira. Era o momento de maior tempo
que tinham juntos e sempre o aproveitavam ao máximo. O turno
de trabalho de ambos era irregular e raramente chegavam do trabalho
ao mesmo tempo.
Entre o pão e o jornal, falavam do seu dia anterior, agendavam
o lazer do final de semana, trocavam carícias e, por vezes,
transavam. Arrastavam os alimentos e se amavam ali mesmo, na mesa.
Conheceram-se num plantão do Dr. João. O policial chegara
desacordado no pronto-socorro, vítima de bala, quando realizava
uma blitz no morro de uma favela. Moravam juntos havia apenas um mês.
E hoje, quando Madureira entrou na cozinha para acompanhar o amante
no café da manhã, João já estava sentado
à mesa, acordara primeiro, como sempre. Mas estava chorando
copiosamente, em prantos, com a cabeça apoiada nas mãos.
Madureira tentava acalentá-lo, mas não fisicamente.
Apesar de conhecê-lo havia pouco tempo, cerca de cinco meses,
sabia que João se sentia melhor que não o tocassem,
quando estivesse deprimido. Isto raramente acontecia, estava sempre
de bem com a vida.
Mas o choro não cessava, a dor não parecia ter fim,
apesar das palavras de consolo do outro. Era como se João não
o ouvisse, concentrado apenas em sua dor.
O princípio de tal sofrimento deu-se um mês antes de
o médico se mudar para a casa do policial. Foi quando Rony,
filho do médico, flagrara os dois numa troca de carícias.
Desconfiado da mudança de atitude do pai, decidira segui-lo.
Por conta de Madureira, essa mudança de comportamento jamais
teria ocorrido, pois decidira não declarar seus sentimentos
ao recente amigo.
A amizade começara por causa da delicada saúde do policial.
Ele chegara com estado crítico no pronto-socorro, caiu em coma,
piorando logo depois. João decidira declará-lo como
morto, quando, surpreendentemente, a vontade de viver do policial
foi maior que qualquer diagnóstico pró-obituário.
João percebera que estava diante de mais um milagre em seu
trabalho.
A permanência no hospital por dois meses para seu restabelecimento
foi decisiva para o estreitamento da amizade. Trocaram contatos, saíam
juntos. Madureira chegou a visitar a casa do médico três
vezes. Conheceu Ana, sua esposa, e seus dois filhos: Rony, de 20 anos,
e Bárbara, 18. Uma família feliz, os filhos muito apegados
ao pai, e uma ótima relação matrimonial.
O médico também visitou Madureira algumas vezes. Morava
sozinho, era solteiro, a família residia longe, em outro estado.
Até que João percebeu que Madureira não retornava
mais suas ligações. Chegou a pensar que estivesse doente
e foi procurá-lo. Mas ele havia-se mudado. Conseguiu o novo
endereço com um amigo em comum, também policial, que
disse ainda que Madureira estava aguardando transferência para
outra cidade a pedido próprio.
Sem entender, procurou Madureira - que estava bem de saúde
- e perguntou-lhe o que o havia deixado magoado.
- Não, a culpa é minha. Eu precisei me afastar de você,
me desculpe.
Após insistência, Madureira confessou: havia-se apaixonado
por ele. João ficou chocado, a revelação pegou-o
de surpresa. Sua única reação foi sair, sem dizer
palavra, nunca vivera situação semelhante.
Dias depois, João retornou. Descobriu que também se
apaixonara pelo policial. Por algum tempo se encontravam às
escondidas até que João pudesse analisar melhor o que
estava acontecendo com ele.
Mas a sutil mudança de atitude dentro de casa foi o bastante
para Rony perceber que havia algo de errado com o pai. Descoberta
a relação, denunciou-os à mãe e à
irmã num grande escândalo dentro de casa, obrigando o
pai a escolher. Pressionado por sua própria consciência,
João decidira pela família.
No entanto, uma semana depois, procurou Madureira. Mas ele havia-se
mudado para outra cidade, conforme prometido. O médico respirou
aliviado, agora seria mais fácil seguir adiante. Entretanto,
quinze dias depois, pedira transferência para a mesma cidade
de Madureira. Separou-se da esposa num clima tenso, principalmente
com Rony, e voltou para o policial.
A relação com a família ainda era conturbada,
compreendia isso, não os pressionava para aceitá-lo.
E sofria muito. Entretanto o perfeito entrosamento com Madureira estava
ajudando-o a atravessar a difícil fase. Apesar de tudo, sentia-se
feliz com a nova experiência.
João ainda chorava descontroladamente. Madureira continuava
sem saber o que estava acontecendo, suplicava-o, sem respostas. Até
que ouviu vozes que vinham de dentro da casa. Não ouvira a
porta da sala sendo aberta.
A corretora de imóveis entrou na cozinha com uma cliente:
- E aqui é a cozinha de que te falei, dona Raquel. Não
é deslumbrante?
- Maravilhosa! E a gente vai poder mesmo ficar com toda a mobília
da casa? A família do médico não reclamou por
ela?
- Não. Está tudo documentado, a senhora e seu esposo
podem ficar tranquilos. Após a tragédia, ninguém
da família quis aparecer.
- Que história triste!
- Nem me fale. Então, vocês não se importam mesmo
em morar aqui?
- O que passou, passou. E também o preço está
ótimo, não é sempre que uma oportunidade dessas
bate à nossa porta.
- Conheci os dois muito pouco, mas eram muito felizes, precisava ver.
- Mas o que aconteceu com o rapaz, o filho do médico que matou
o policial?
- Está preso. Mas acho que nem está se importando com
isso, coitado. A dor maior foi saber que o pai se suicidou uma semana
depois da morte do amante. O médico entrou em depressão
profunda, chorava o dia inteiro. Foi encontrado morto sentado nessa
cadeira, a arma no chão.
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