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Jader Nones
Rio de Janeiro / RJ


Feira de flores

 


Vou lhe contar, prezado leitor, uma história que aconteceu há muito, muito tempo atrás. Você ainda não existia. Nem você e nem outro ser denominado humano. Aliás, não havia, nessa história, nenhum outro animal, nem sequer um mísero inseto. Tampouco árvores. Estas eram muito austeras, pretensiosas, prepotentes demais e, portanto, não poderiam de forma alguma fazer parte do causo que eu estou a lhe contar. Mas, se você, amigo leitor, pensar nas flores, engana-se em achar que elas também não teriam nenhuma relação com a história. Obviamente que tinham. Aliás, estas não só estavam presentes, como também foram personagens principais de tudo que aconteceu naquele período, denominada de tempo das flores.

Imagino, amigo leitor, que nunca tivestes ouvido falar em tais tempos. E, pra ser muito franco, nem deveria mesmo ter tido qualquer relato sobre o assunto. Eu, no entanto, prometo lhe contar tudo. Porém, antes disso, peço-lhe, encarecidamente, que não espalhe este causo em meio às mazelas sócias. Afinal, este não seleto grupo de pessoas seria incapaz de compreender o que se passava com as flores naqueles tempos. Portanto, amigo, ressalvo mais uma vez que é importante você não espalhar esta história. Guarde-a consigo, no mais absoluto e profundo segredo. E, se um dia, lhe pedirem alguma informação sobre a mesma, omita-a. Diga que, assim como eu, nunca ouviu falar sobre o tal período florido.

Preciso ainda, antes de começar realmente a contar este causo, lhe dizer mais uma coisa importante, afinal, você deve estar se perguntando como é que eu, um simples mortal, sei sobre os acontecimentos do tempo das flores. Então, na tentativa de esclarecê-lo, devo primeiramente lhe comunicar que não sou o único conhecedor da história. Meu contato com a mesma aconteceu quando entrei para a seita secreta, chamada de seita dos guardiões das histórias proibidas.

Hoje, assim como no passado, várias conspirações têm tentado exterminar os conhecedores de histórias proibidas da face da terra. Embora muitos membros ativos da seita morreram lutando por esta história, felizmente, muitos sobreviveram. Obviamente que, dos sobreviventes, a maioria tem apresentado distúrbios neurológicos graves. A loucura tem sido a principal patologia que os tem acometido, ao longo de suas existências. Ainda não sei o motivo, porém, creio que as constantes perseguições dos caçadores de histórias os tem deixado meio cabisbaixos, amedrontados e isolados do mundo real, o que tem lhes provocado, indiretamente, sinais de demência. Eu, felizmente, sou um dos poucos que ainda mantenho minha memória, resguardando, com muita lealdade, a história das flores. Confesso, no entanto, que a loucura também já tem me vitimado algumas vezes e que, por isso, resolvi abrir meu espírito e contar sobre aquele tempo, em que as flores realmente existiam.

E por falar em flores, parece que enfim chegou a hora de conhecê-las melhor e de conhecer melhor aqueles velhos tempos em que o mundo era dominado por elas. E que tempos! Tudo era maravilhosamente calmo e belo. Havia paz em todo lugar percorrido. E os perfumes, hmmmm, que perfumes! Tudo cheirava a flor. Uma verdadeira perfumaria, livre, a céu aberto, que impregnava na alma daquelas plantinhas e as deixava leves e livres para viver.

O sistema funcionava mais ou menos da seguinte maneira. Durante o dia, cada grupo, compreendendo a uma espécie de flor, vivia e trabalhava junto. Havia o grupo das rosas, as quais, já naquele período, eram as responsáveis por representar a paixão. As margaridas tinham a função de representar a paz. Elas eram as mais ingênuas de todas as plantas. As azaléias eram as mais temperamentais e, talvez por este motivo, trabalhavam no setor de carpintaria. Os cravos, tão frágeis e cheirosos, conquistavam a beleza por sua simplicidade e, por assim ser, faziam parte do grupo das flores poetas. Havia também as orquídeas, as comigo-ninguém-pode, os lírios, os girassóis, dentre muitas outras. Cada grupo, cada maço de flor, executava uma função específica. No entanto, todas tinham o mesmo poder e a mesma posição social.

Já durante a noite o sistema era totalmente diferente. Tudo mudava e se transformava em algo ainda melhor. Isso porque, quando os últimos raios de sol deixavam o horizonte, as plantas floridas começavam seus rituais de preparo para o banho de lua, que acontecia diariamente na feira das flores. E, falando em feira das flores, é preciso também dizer que chegamos ao clímax da história proibida. É exatamente no percurso destas linhas que mora o maior segredo florido do mundo.

Na feira, as flores deixavam de se agregar de acordo com sua espécie. Não que essa agregação fosse ruim, pelo contrário, elas adoravam conviver com seus semelhantes. No entanto, a separação lhes permitia um grau ainda maior de liberdade. E livres, elas podiam fazer tudo o que sentiam vontade de fazer.

Sendo assim, a grande maioria das flores usava o escuro para encontros às escuras, sob o banho da lua. Eram nestes eventos sociais que elas entravam em contato com novos e diferentes perfumes, bebiam novos néctares e se deleitavam com a vida boemia. Às vezes, também durante o banho de lua, começava a ventar. Quando isso acontecia, o vento, com seu leve soprar, as vazia balançar. E com o balanço, elas se encostavam umas nas outras e se beijavam mutuamente. Depois se entrelaçavam, se abraçavam e se massageavam. E assim faziam, até o amanhecer.

Quando amanhecia, tudo voltava ao normal. Elas se uniam novamente aos seus grupos e começavam a trabalhar. Sempre, no entanto, conscientes de que eram livres, leves, soltas e que, por isso, podiam fazer o que tivessem vontade de fazer.

Sinceramente, não sei como o tempo das flores acabou. Meus colegas, também contadores de histórias proibidas, me disseram que elas foram exterminadas quando animais irracionais apareceram na terra. Eu, no entanto, acredito que algumas flores, já não mais tão floridas, também não mais tão diferentes e repletas de variadas cores, continuam a viver, de forma paralela, no mundo atual. Creio que elas apenas estão camufladas, durante o dia, em meio a muvuca das grandes cidades. Já à noite, quando ninguém mais as observa, provavelmente continuam se encontrando na feira das flores. Porém, atualmente, já não mais sob o banho de lua.

 
Autores Brasileiros do III Milênio- Edição Especial - Julho de 2009