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Vicência
Maria Freitas Jaguaribe
Fortaleza
/ CE
O
Castelo do Nunca
A cabecinha loura brilha ao sol das nove horas. A mãe levara-o
à praia, seu programa preferido. Sob protesto, passa-lhe no
corpo o protetor solar. Mãe, isso é nojento! Melequento!
Fecha a cara e começa a cavar um buraco na areia, para construir
o que chama de Castelo do Nunca. - Por que Castelo do Nunca, filho?
- Porque eu nunca termino ele. A maré sempre vem e derruba
ele antes de ficar pronto.
O menino tem cinco anos e está sentindo a separação
dos pais. Às vezes, nega-se a sair com o pai, que também
não leva muito jeito com criança. Naquela manhã,
ele irá pegá-lo na praia e levá-lo a almoçar.
A mãe sabe que haverá atrito: o pai não aprova
a dieta do filho. E quase sempre a criança volta com fome,
porque não consegue comer o que o pai quer que ele coma.
A mãe vira-se e vê que o Castelo está bem adiantado.
Olha para o mar e percebe que a maré começa a subir
e em poucos minutos destruirá o que o filho fizera com tanto
empenho. Ele tem jeito para a coisa. Talvez resolva ser escultor.
Mas há também a possibilidade de fazer engenharia ou
arquitetura.
Fica observando e sente orgulho quando percebe que aquele montinho
de areia molhada vai ganhando, realmente, forma de castelo: a muralha,
cercando-o; as torres, projetando-se a intervalos regulares; a ponte
movediça, delineando-se. Quando o menino começa a modelar
os portões, vem uma pequena onda e derruba uma parte da muralha.
Ele deixa escapar um porra! e completa com um chute a obra de destruição
que a maré começara. Por que tem de ser assim? Por que
a maré não deixa o castelo crescer? Vai ser sempre o
Castelo do Nunca? Nunca vai ser terminado? Nunca vai ser enfeitado?
Nunca vai ficar pronto para que as pessoas que passam achem ele bonito?
A mãe percebe o desgosto do filho. Vamos tomar banho, antes
que a maré fique cheia demais. Vamos! Pega na mão do
menino e, cuidadosamente, vai entrando na água. Vê que
ele se descontrai e começa a movimentar os braços, fingindo
nadar, como sempre faz. Uma onda mais forte derruba-o e leva-o até
a areia. Ele levanta-se rindo e pergunta se ela o vira nadando. Ela
olha-o rapidamente e grita que não entre mais. A água
está ficando cheia de sargaço. Mas ele ou não
ouve a recomendação da mãe ou não lhe
dá atenção. Rindo e espadanando a água,
vai até o local onde ela luta para desvencilhar-se dos tentáculos
que enlaçam suas pernas.
Quando consegue aproximar-se, o menino desequilibra-se e grita. A
muito custo, a mulher levanta-o e o põe nos braços.
Dividida entre o filho e os sargaços, ela também acaba
desequilibrando-se e deixa a criança cair. Agacha-se e consegue
levantá-lo. Tenta sair da água com ele no colo, mas
os malditos sargaços apertam cada vez mais seu abraço
de sucuri. Uma onda mais forte arranca-lhe o menino dos braços.
Num esforço sobre-humano, ela disputa o filho com aquele poder
violento e traiçoeiro e vence-o mais uma vez. Está cansada!
Exausta! Precisa sair imediatamente da água, que já
subira o suficiente para destruir o Castelo do Nunca.
O menino, apavorado, agarra-se a seu pescoço, quase sufocando-a.
Mas ela consegue, mesmo manietada pelos sargaços, dar alguns
passos em direção à praia. Outra onda forte,
no entanto, arremessa-a no chão e arranca-lhe o filho dos braços.
Ela rola pela areia, engolindo o líquido salgado, que lhe penetra
pela boca, pelo nariz e pelos ouvidos. Com muita dificuldade, consegue
ajoelhar-se e procura o menino. Mergulha... emerge... torna a mergulhar...
emerge mais uma vez. A essa altura, alguns banhistas haviam percebido
que algo estava errado. Aproximam-se dela, que aponta para o mar e
só consegue gritar "Meu filho! Meu filho!"
Retiram-na à força de dentro da água. Mas ela
luta para voltar. O filho ficou lá. Ela precisa resgatá-lo.
Alguns homens mergulham e tentam encontrar o menino. Nada. O mar tragara-o
e não se tinha certeza se o regurgitaria.
A mãe rola na areia e grita pelo filho. O barulho das águas
abafa-lhe a voz. Aquelas águas que atropelaram a vida do seu
menino são as mesmas águas que lhe negaram, a ele, o
direito e o prazer de terminar o seu Castelo. O filho nunca mais poderá
brincar de engenheiro ou de escultor. Nunca terá o prazer de
concluir o Castelo do Nunca, que nunca mais será instrumento
de sua fantasia.
Do outro lado do calçadão, um homem de estatura acima
da mediana, de bermuda marrom e camiseta branca, estaciona o carro.
Atravessa a rua, sobe o calçadão, desce-o e dirige-se
ao ponto combinado com a ex-mulher. É quando percebe uma pequena
multidão disposta em círculo. Aproxima-se e abre espaço.
O que vê congela-lhe o sangue. Onde está o menino? É
da boca de estranhos que recebe a notícia da tragédia.
A mulher continua em estado de choque. Desesperado e sem a olhar,
ele deixa-a só, com a sua dor, e foge, carregando a sua. Atravessa
o calçadão, pega o carro e afasta-se dali.
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