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Naná Martins
Antologia on line

Rio de Janeiro / RJ

Lamento de uma sofrida mãe

 

Mãe Terra sofrida, foram-lhe abertas enormes feridas.
Perderam o respeito, meteram-lhe os pés nos peitos.
Peitos que nos eram fartos
Que nos deram prazeres, bonança e alimento
Hoje, murchos e exauridos, já não mais nos sustentam

Não, não foi culpa da Mãe
Se definhamos raquíticos e empobrecidos, na alma ou na essência
Ao enfraquecer, a Mãe Terra, nos deu o devido sinal
Uma espécie de parasita a havia infestado
E, a pequena ferida, transformou-se em doença terminal

O filho, mal agradecido e amargurado, não viu.
Quando percebeu a enfermidade, já meio tarde
Acendeu uma vela na esperança de que alguma santidade
Ouvisse suas preces, aquelas que nunca antes haviam sido proferidas
Ainda que tivesse aprendido: “Jamais diga o nome do Senhor em vão”
Agiu como herege, e agora, suplica misericórdia divina aos erros seus, por ter ferido a própria Mãe, que pelos atos insanos de suas próprias mãos, hoje sangra

Salvá-la ainda há tempo
Mas não do seu jeito e, sim, como Pachamama* puder
Com a força que lhe resta,
Ela talvez ainda peça perdão, mas não poderá por tudo a perder
E com lágrimas, porá fim ao filho roto, e estancará a sangria
Daquele que lhe fora a própria doença
Ainda que com tantas dores e sofrimentos
Sagrada, como são todas as santas mães,
Que perdem o direito de morrer para cuidar de seus filhos,
a maior de todas elas, a Mãe Terra, como uma centelha de luz,
acolherá os de bem, viverá e renovará tudo outra vez.

...
*Pachamama: denominação Inca à Mãe Terra – é considerada
uma divindade para os habitantes dos Andes na America Latina
.


 
Publicado na Antologia de Poetas Brasileiros - Volume 63 - Abril / 2010