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Francinaldo S. Silva
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Chapadinha / MA

Noites frias de amor

 

Sinto no peito a colisão de mais um escurecer de dor
Maquio um rosto triste que indaga meu ermo reflexo
Fito um olhar amargo e ao mesmo tempo rogador
Deste alguém cuja vida jaz em um futuro anexo

Da janela avisto o palco estéreo deste ser noturno e vago
Homens e mulheres pisoteando seu próprio leito
Cheirando o sabor da desgraça deste maldito trago
Desfilando luxo e consumindo o lixo que sustenta o vil preconceito

Dou início ao ritual nostálgico da beleza fútil e fácil
Camuflando o corpo para falsear um éden industrial
As peças são montadas para deslumbrar e atrair o cliente lábil
E na bolsa o blefe de um recuo fértil quase matinal

Nas ruas inicio a exposição de minha luxúria
Através de uma cadência mágica e embalsamada de feitiçaria
Transformo-me em caça para esta estúpida cúria
E alvo fácil de lobos fujões da entediante bigamia

Pelas horas amiúde sinto o peso da humilhação em minha outra face
Degustando o sabor dos homens em minhas entranhas
Na postura paralítica sigo vendendo o meu vago enlace
Para no final ser deixada na escura senzala, nua e ruminada às canhas

Doce luz crepuscular que afugenta os abutres de minha carcaça
Procuro forças para encarar mais um dia neste mundo de gelo
O assíduo rufião já à espreita aguarda o saldo de minha mordaça
Preciso dormir para acordar de mais um triste e incessante pesadelo


 
Publicado na Antologia de Poetas Brasileiros - Volume 63 - Abril / 2010