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Luiz Carlos Dias
São Paulo / SP

 

Tarde de inverno

 

Na rua que segue,
o fluxo de carros aperta;
A mulher com o sobretudo vermelho
vira a esquina em busca de sossego.

Em frente ao Café Maison,
sente o cheiro do assado e
vê as balconistas desfilando
sobre saltos altos.

Pensa em entrar, fugir da garoa,
mas, ao tocar o bolso de cetim,
verifica a inexistência de um
tempo de outrora.

O chocolate cospe a fumaça
do quente estado de se sentir;
A torta de maçã esbarra
na xícara de porcelana chinesa.

O ambiente é límpido e aquecido,
lá fora, tempestades de desejos.
A vidraça embaça; Os olhos, já
turvos, embarcam num naufrágio.

O mundo gira com o vento gelado,
os cabelos soltos, e as pontas dos dedos
endurecem na vontade de pegar a estrada
de volta para a estação, que já não existe mais.

O cheiro da infância, do bolo de milho,
do campo aberto, do verde, do azul celeste,
dos bons momentos, da verdade, da mentira,
do amor, do viver sem perder, do crescer e não morrer.

Tarde de inverno em frente ao Maison,
o Sol por detrás do asfalto;
onde o tempo parou,
ou ainda nem começou...

 
     
 
Publicado na Antologia de Poetas Brasileiros - Volume 57 - Julho de 2009