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Edith Lobato
Itaituba / PA


Glosa: no silvo de uma saudade

Mote:
Meu pensamento busca teu semblante,
No átrio da capela da abadia,
Tornando nossas almas numa só...

Glosa:
No balouçar do barco que navega,
De baixo deste céu que ora me espia,
Enquanto o sol derrama nostalgia,
E o silvo da saudade me refrega,
O corpo, alma, espírito se entrega;
Ao pranto desta glosa murmurante.
Num rogo silencioso, incessante,
Olhando o vasto leito destas águas,
Na espuma branca, leve, dentre as vagas;
Meu pensamento busca teu semblante.

No céu já salpicado de diamantes,
Como se fosse à mão todo entalhado;
Eu penso ver teu rosto lá bordado,
Por guardas pequeninas e brilhantes;
Entoando a doce lira dos amantes,
Trazendo-me da flor da eucaristia,
Pra consagrar o amor na melodia,
Das harpas dedilhadas pelos anjos,
Cantada pela voz de mil arcanjos,
No átrio da capela da abadia.

Serena fecho os olhos e estremeço,
Na rútila visão que em mim deflagra,
Este canto de amor por entre lágrima,
Que pago nesta hora em alto preço.
Tamanha minha dor e meu depresso,
Que penso está girando num rondó,
Já vendo aproximar grande trenó,
Levando-nos em festa num lampejo;
Ao pórtico celeste, o qual almejo,
Tornando nossas almas numa só.

 
     
 
Publicado na Antologia de Poetas Brasileiros - Volume 52 - Dezembro de 2008